Abra, entre e faça seu caminho...

Abra, entre e faça seu caminho...
A arte de escrever é para mim uma possibilidade de dar vida ao universo infinito de nossas criações. Precisava de um espaço onde isso fosse possível. Assim, nasceu este blog literário, com a ideia de ser um canal à expressão livre de muitas histórias, personagens, dramas e tramas que estão em minha mente, orientados por valores e crenças existenciais que representam a minha alma. Deste modo, seja muito bem vindo ao meu blog, e que minhas histórias possam lhe tocar o coração e a alma! (Antonio Rondinell)

A Casa dos Anjos (Livro Virtual - Partes III e IV)




Parte III
Setembro a Novembro de 2006




JULIA SERRADO
Capítulo 85

Foi destruidor o sentimento que experimentei ao me ver diante de Pedro e Vanessa se beijando. Eu tanto havia rezado para que aquilo não acontecesse, que me surpreendi ao encontrá-los daquela forma, como se não esperasse que Deus permitisse aquilo acontecer, por lealdade a mim. No entanto, a própria Vanessa devia já ter pedido a Ele o mesmo a meu respeito, por repetidas vezes. O que eu teria melhor do que ela? Talvez tivesse de pior! Ela era a esposa com quem fora casado por mais de doze anos e tinha um filho. Eu nada mais era que a amante, a qual o enganara, fazendo-me passar por minha irmã, seu grande amor.
Voltei para casa e caí nos braços de D. Clarinda de Holanda, num choro que me lavou a alma. Estava certa de que haviam reatado o casamento. Agora sim, eu provaria o gosto amargo do fim. Estive com a chance de ser feliz em minhas mãos e não soubera aproveitar. Afinal, aquele momento seria a oportunidade que Vanessa precisava para mostrar a Pedro que o amava e que era ao seu lado que realmente seria feliz, juntamente com o filho, a quem ele tanto amava e sentia falta. Assim, até poderia estar mais perto de Felipe e lhe dispensar um maior cuidado.
Joguei-me de cara no trabalho como forma de fugir do sofrimento e não estar em contato com a verdade que eu imaginava existir, a qual me provocava tanto dor. Estávamos criando novos números com as dançarinas e por algum tempo, suspendemos a apresentação de meu show, para que tivéssemos espaço de preparar um novo espetáculo. O trabalho na Mirage era o que de fato me distraía e me dava forças para continuar.
Eu nem podia imaginar que o beijo de Pedro e Vanessa o qual eu havia presenciado, nada mais fora que uma tentativa da mesma de criar uma situação de intimidade para conquistá-lo de volta. Iniciativa com a qual não tivera êxito. Visto que o que provocara a separação dos dois fora realmente o cansaço de Pedro da difícil convivência com a esposa, durante todo o tempo em que estiveram casados. Nada tinha a ver comigo e nossa relação. Deste modo, não seria a nossa separação que provocaria uma reaproximação entre ambos. O calor do momento e a frieza de Pedro a meu respeito, entretanto, me fizeram pensar que ele e Vanessa haviam reatado a sua relação.
Contudo, Vanessa Lucena não sossegaria enquanto não me visse bem longe de seu marido. Acabara por investir numa amizade com Izaíra, a secretária de Olívia Cordeiro, para que pudesse obter informações a meu respeito e garantir, segundo ela, a minha distância de sua família.
Izaíra, por sua vez, não era uma pessoa de manter relações de amizades verdadeiras com ninguém e via na aproximação com Vanessa uma oportunidade de melhorar sua situação financeira. Jogava alto e se utilizava de sua falsidade natural para conseguir o que queria. Chegara a me confessar que fora procurada por minha inimiga para ajudá-la a me tirar de seu caminho. Era uma forma de se aproximar de mim e mostrar-me lealdade, a fim de que pudesse agir com mais naturalidade, conseguindo todas as informações que pudesse a meu respeito, para entregá-las a sua parceira. Eu nunca havia confiado naquela moça, por perceber a sua superficialidade e fingimento permanente. O que Izaíra dizia, não se podia escrever e era do conhecimentos de todos. Falava bem pela frente e detonava por trás, assim como agia com a própria Olívia Cordeiro. O que eu nunca de fato pude entender, por que a mantinha como pessoa de confiança, se destilava veneno e falsidade, bem como era uma das pessoas mais fofoqueiras a quem cheguei a conhecer. Talvez ela realmente não enxergasse o comportamento da secretária.
A parceria com Izaíra rendera bons frutos a Vanessa. E quando soubera de meu equívoco ao vê-la se beijando com Pedro, logo tratara de garantir a confirmação de minha suposição, criando algumas situações em que apareciam juntos, para que eu pudesse enxergar o quanto estavam se dando bem. Como sua presença certa noite, na Mirage. Ao sair do camarim, acompanhada de Izaíra, senti meu chão faltar vendo-os numa mesa, sendo atendidos por um de nossos garçons. A fofoqueira então dava a cartada final de sua jogada com Vanessa, comentando que ouvira falar da nova lua de mel que os dois fariam em breve.
Por que aquela situação? Se Pedro percebera que de fato não me amava e queria apostar em seu casamento, eu até poderia entender, mas daí querer me causar ciúmes ou punir, não era seu feitio. Mesmo sendo a única explicação que achei com Raquel sobre o episódio na boate. Visto que não teriam outro motivo para aparecerem ali, em meu ambiente de trabalho, se não chamar minha atenção. Senti uma tristeza profunda e por fim raiva. Entendia aquilo como falta de respeito e consideração por tudo o que havíamos vivido juntos. Como se ele quisesse me dizer que não nos restávamos mais nenhuma chance. Embora eu considerasse uma atitude imatura e desnecessária, o que me indignou.
Desejei ter coragem de procurá-lo, ali mesmo na boate, na companhia da mulher, e dizer-lhe o quanto eu também estava decepcionada e não queria mesmo mais nada com ele. E foi o que afirmei para Izaíra, sabendo que pelo menos chegaria nos ouvidos de Vanessa, e quem sabe, nos dele. 
Tive meu coração acelerado quando meu olhar cruzou o de Pedro, naquela noite, na boate. Fitamos os olhos um do outro por alguns segundos, que me pareceram uma eternidade. Era como se quiséssemos dizer algo, sem a presença de palavras, e não era nada do que eu havia dito a Izaíra, pouco tempo antes, nem mesmo o que eu pensava que, naquele momento, ele sentia por mim. Tratava-se de uma cumplicidade e ansiedade que nem podíamos disfarçar. Seu olhar me acompanhava por trás das mesas e clientes, o que chamara a atenção da própria Vanessa. 
Nem sei se eu estava delirando ou se realmente existia ali alguma cumplicidade entre Pedro e eu, uma intimidade de sentimentos e desejos mútuos, que não podiam ser explicados. De repente, me vi distante da raiva que sentira outrora, experimentando uma vontade profunda de tê-lo em meus braços e poder sentir seu calor. Cheguei a pensar na possibilidade de ir embora, antes mesmo que as apresentações do grupo de dançarinos acabassem. Seria uma forma de pôr um fim àquela confusão de sentimentos que se fazia presente em meu coração. Mas era eu a diretora do espetáculo, e não poderia permitir que meus problemas pessoais interferissem em meu trabalho, já que fazia tão pouco tempo que eu havia assumido o lugar de Charles, na boate. Não, não poderia sair e correr o risco de alguma coisa dar errado, comprometendo o andamento do show. Necessitava ficar e enfrentar de cabeça erguida a presença de Pedro e Vanessa, visto que não seria a última vez que os viria juntos, como de fato não foi.

MARINA PESSOA
Capítulo 86

Imaginei de fato que estaria tudo acabado, depois de ser atropelada por uma moto, a qual me tiraria de meu mundo de dor e perturbação. O motoqueiro conseguira, contudo, pará-la bem diante de mim. Por pouco, minha fuga não provocou um acidente.  E então só me restava prosseguir em meu caminho de liberdade. Não havia muito tempo para pensar, por isso não o fizera. Simplesmente aproximei-me do veículo o qual quase me tirara a vida, e montei, agarrando-me na cintura daquele homem a quem eu nunca havia visto antes. E tudo numa fração de segundos, sem espaço para ponderar ou descobrir outra alternativa.
- Por favor, me tira daqui! - Foi tudo o que falei e lhe serviu de comando. O rapaz pôs sua moto para funcionar e partiu antes que Donato, Flávio e o porteiro de meu prédio, conseguissem chegar até o ponto do provável acidente.
- Mariiiiiiiiina!
Pude ouvir o grito de meu marido, que numa questão de segundos, não passava de eco em meus ouvidos. Fora uma sensação maravilhosa o que senti em cima daquela moto, percorrendo a Av. Beira-Mar e depois a Abolição. Constatava a cada quarteirão, a cada sinal, que me afastava ainda mais de minha prisão, de meu exílio forçado.  Experimentava verdadeiramente o gosto da liberdade trazido pelo vento que banhava meu rosto e fazia de meus cabelos esvoaçantes.
Foi somente no primeiro sinal de trânsito, que encontramos fechado, que o rapaz me pediu para colocar o capacete que se encontrava preso em sua garupa. Procurando, inclusive, me ajudar a prendê-lo, embora com dificuldade, por não poder descer da moto e voltar-se inteiramente a mim. Pude ver seus olhos, de relance. Não tinha ainda certeza, mas parecia jovem, de olhar profundo. Uma voz suave, que me fizera imaginá-lo bonito. E somente então estava tendo alcance do que me havia acontecido. E por um instante senti medo. Quem era aquele homem que, por uma questão de poucos centímetros, não me atropelara e depois me guiava para longe de meu universo aprisionante? E para onde ele estaria me levando? O que faria ele comigo? Talvez nada pior do que eu vinha experimentando de meu próprio marido.
Nada poderia ser pior! Eu havia me tornado prisioneira dentro de minha própria casa, tendo como carcereiro o homem por quem abandonara a minha família, na esperança de viver um grande amor. Provava uma mistura de decepção, frustração e dor. O que outrora fora uma vida organizada era então a catapulta de meu sofrimento. Não, nada realmente poderia ser pior que a vida que eu levara nos últimos anos. Aquele rapaz não poderia me fazer mal algum, já era meu salvador, um anjo da guarda talvez.
Entramos na garagem de um prédio na Rua Jose Vilar, não tão distante de onde eu morava. Procurava observar detalhadamente, para me localizar e sentir um pouco mais de segurança naquela loucura a qual eu havia me aventurado. Logo que estacionou a moto, provavelmente em uma de suas vagas, esperou um pouco que eu descesse, para então voltar-se finalmente a mim.
Eu me encontrava definitivamente curiosa para ver o rosto do homem que me ajudara no momento em que eu mais precisava, não sabia se por solidariedade realmente ou loucura de alguém a fim de se divertir a qualquer custo. Eu já pensava no que fazer se fosse o caso da segunda alternativa. Pelo menos podia perceber que se tratava de um prédio familiar. Em caso de necessidade, creio que todos ouviriam meus gritos. Que loucura aquela!
O estranho rapaz então finalmente se livrara daquele capacete o qual me impedia de conhecer o meu salvador. Mamãe sempre dizia que conhecemos uma pessoa por seu olhar. Não sei ao certo se aquilo se aplicava a mim e minha percepção. Senti algo de bom ao ver o olhar daquele homem pela viseira do capacete, como se pudesse realmente confiar em sua presença. Coisas que não podemos explicar.
Eu estava certa, era jovem, talvez pouco mais de trinta anos. Não sei ao certo, mas era alto, devia ter em torno de um metro e noventa. Moreno claro, e um olhar maroto, que me passava pureza. Trajava roupas finas, uma calça branca e camisa rosa, por baixo do blazer. Um penteado meio assanhado, dando-lhe um ar despojado. Notava-se ser um homem bem-cuidado e bonito. Cara de bandido ele não tinha, pelo contrário! Desde criança, eu sempre imaginava bandidos feios e mal vestidos, e não era certamente aquele caso. Embora não tivesse conhecimentos motociclistas, com certeza fugíramos numa moto bem cara, talvez importada, de quem tinha paixão por aquele tipo de transporte. Tive também o cuidado de observar a garagem, e constatei que as duas vagas, ao lado de onde havíamos estacionado, indicadas pela mesma numeração deste, estavam preenchidas por carros de grande valor. Aquilo me dava ainda mais tranqüilidade. Ou então, tratava-se de um bandido rico.
- Você está bem?
Senti um alívio ao ouvir aquela pergunta, temperada com um sorriso angelical, como se se encontrasse surpreso por aquela situação, bem como curioso. Constatava definitivamente que se tratava de uma boa pessoa, preocupada com meu bem estar. Aquilo alegrava meu coração. Seria ele de fato um anjo da guarda?
- Acho que estou...
- Que bom. Meu nome é Holanda. Prazer!
Um sorriso meio maroto, dando-lhe um ar de menino levado.
Certamente o prazer era todo meu. Holanda nem imaginava talvez o quanto fora importante em minha vida.
- Obrigada por ter me ajudado.
- Não há de quê. Adoro ajudar mulheres desconhecidas e em perigo.
A pureza de seu sorriso, trazia também um quê de charme, o qual me confundia, parecia conduzir uma pitada de sedução, e ao mesmo tempo se mostrava despretensioso, de brincadeiras leves.
- E você, como se chama? Ah, se quiser permanecer com uma identidade secreta, sem problemas. Adoro filmes de heróis.
- Marina.
- Marina? Bonito nome!  Fique tranqüila, Marina. Nós estamos chegando a minha casa. E aqui você vai estar segura.
Eu só lhe perguntei sobre o porquê de estar me ajudando, alguém a quem não conhece, quando entramos em seu apartamento. Respondeu-me com outra pergunta:
- Por que você confiou em um motoqueiro desconhecido, Marina? Eu poderia ser um bicho papão...
Tinha um tom cômico ou de ironia, não sei. Mas me passava algo de bom, era bem-humorado.
- Não sei, eu senti talvez....
- Senti limpeza da sua parte. É por isso que eu estou lhe ajudando. Quem sabe não é uma fada e vai transformar a minha vida num conto... Embora eu não tenha visto sua varinha. Você tem uma?
Brincava como se falasse de algo importante, sério. Fazia-me rir, descontrair.
Era um misto de curiosidade, receio, medo e ao mesmo tempo, alívio. De alguma forma, Holanda conseguia me passar segurança, proteção. Tinha um jeito todo descolado de falar, auxiliado por gestos que em si já traduziam suas falas rápidas e de prontidão. 

MARINA PESSOA
Capítulo 87

Se Holanda quisesse me fazer algum mal, já teria feito.
Aquele rapaz também morava em um apartamento confortável, de um por andar. Dividia, segundo ele, com um amigo, o qual estava viajando a trabalho e passaria alguns dias fora, tempo que eu poderia ficar, até organizar o que fazer de minha vida. Ele tratara de me arranjar algumas roupas de sua prima, que havia morado lá por algum tempo. Só então me dei conta de que eu havia saído de casa trajando somente uma camisola. Meu Deus, que vergonha!
Tomei um longo banho, aproveitando para refletir sobre o caminho que percorreria dali para frente, o que faria de meu casamento, se procurava ou não Vanessa. Tudo estava ainda confuso. A única coisa a qual me restava naquele instante, era confiar num rapaz estranho, que quase me atropelou e estava disposto a me ajudar, não sei como, pelo menos até quando eu decidisse de fato o que fazer.
Procurava saber mais daquele rapaz através do próprio ambiente, como se tentasse me contextualizar e assim me sentir mais segura. Depois do banho, procurei observar os porta-retratos dispostos sobre uma bancada que ia de uma parede a outra do quarto de hóspedes, do outro lado da cama. Eram fotografias que desenhavam momentos de Holanda sozinho, com uma senhora mais velha, talvez sua mãe ou tia, com outros rapazes, talvez amigos ou irmãos, bem como com um homem, o qual aparecia em várias outras fotos, também sozinho, na certa o companheiro com quem dividia apartamento, um homem bonito, aparentando seus trinta e poucos anos, de olhos azuis, porte atlético, o qual me lembrava alguém conhecido. Na parede perpendicular, outra bancada expondo alguns livros empilhados, computador e aparelhos de som, logo abaixo de algumas prateleiras, com diversos livros. O local parecia o escritório de Holanda, também usado como quarto de hóspedes, equipado com um confortável sofá-cama, já armado para me receber.
Todo o ambiente era bem cuidado, com uma decoração moderna em vidro e aço, demonstrando o zelo das pessoas que ali moravam, ou de um dos dois, não sei se de Holanda ou do companheiro.
Resolvi então dar uma olhada no restante do apartamento. Ao chegar à sala, fui surpreendida por um vazio completo. O confortável jogo de sofás marfim antecedendo a porta que dava para a varanda, havia sumido completamente, bem como a mesa e cadeiras da sala de jantar, os quadros, tapetes, tudo sumira. O apartamento parecia estar totalmente vazio, sem ninguém, sem nada. Somente eu ali.
Meu ímpeto foi de sair daquele lugar, procurar alguém, me encontrar em contato com pessoas, com o mundo. Um desespero tomou conta de mim, fazendo-me correr para a porta, na tentativa de mais uma fuga. Tudo estava trancado, todas as portas, até para o quarto, onde eu estava outrora. Precipitei-me então à varanda, único ambiente permitido naquele momento, não sei por quê. Ventava muito e a cidade parecia também estar vazia, talvez já fosse madrugada. E se era, não sei por quanto tempo eu teria dormido, se teria dormido.
Tudo era confuso e aquilo me amedrontava. Eu já me encontrava em pânico, quando ouvi uma melodia de caixinha de música. Voltei-me então à sala, deixando-me ser guiada pelo som, que parecia vir do corredor do prédio. A porta já se encontrava aberta, como se esperasse por mim, fechando-se bruscamente logo após a minha passagem, o que me assustou ainda mais. Meu coração estava acelerado, parecia que ia sair pela boca. Havia muitas velas pelo chão do longo corredor, composto por inúmeras portas de um lado e outro, com uma janela ao fundo, pequena, devido à distância.
Continuei caminhando, seguindo o som, o qual ficava mais próximo. E então, avistei a criança ao fundo do ambiente, diante da janela, que segundos antes estava vazia. O mesmo menino conhecido, trajando a bata branca.
- Ei, menino!
Estava de costas e então voltou-se a mim, com a caixinha de música nas mãos. Ria, como se segurasse um brinquedo. Quanto mais eu me aproximava, mais o som diminuía, como se a minha presença fosse letal à vida ali existente. Assustei-me quando o menino ergueu a cabeça, fitando os meus olhos. Trazia o choro em seu rosto, bem como uma expressão de fúria.
- Foi você! - A voz macia de criança, arranhando dor e ódio.
- O que eu fiz, garoto?
Aquilo já estava me deixando transtornada.
- Você acabou com a minha música. - Suas palavras pareciam querer me ferir e me chegavam com um peso de mágoa ou ódio, não sei ao certo por quê. E ele gritou logo que cheguei bem perto. - Não se aproxime de mim!
- Quem é você, menino?
- Não se aproxime de mim! - Mais um grito, como se tivesse pavor de minha presença.
- Não compreendo. Quem é você? Por favor!
Deixou então a caixinha de música cair entre nós dois, quebrando-a completamente e assim, espalhando todo o sangue, que parecia estar dentro dela, pelo chão. De repente estávamos ali, totalmente sujos por aquele sangue, inexplicavelmente, jorrado do objeto.
- Viu o que você fez?!
Assustado, chorando, o garotinho afastou-se de mim, aproximando-se novamente da janela.
- Desculpe. Eu não tive culpa! Você soltou.
Queria que ele compreendesse que eu não representava nenhuma ameaça, apenas queria entender sua presença, suas aparições em minha vida e o ódio que parecia alimentar de mim. Mas ele chorava e me olhava com ainda mais fúria. O que me amedrontava. Por que uma criança trazia tanto ódio em seu coração? O que teria feito a ele? Aquilo me desesperava e me fazia querer compreender, cuidar dele. No entanto, o garoto se afastava ainda mais, com a minha aproximação.
- Fique longe de mim!
- Eu quero apenas te ajudar!
- Maldita!
Aquilo me doeu a alma. Caí em prantos e fiquei aflita ao vê-lo encostado na porta aberta, que outrora era uma janela e então, dava para um precipício.
- Cuidado! Você pode cair...
- Afaste-se de mim, maldita!
- Por favor, deixe eu te ajudar! Você vai cair!
Olhou-me furiosamente, mais uma vez.
- Você é má!
- Não! Quero apenas seu bem, eu juro!
- E porque me machucou?
- Eu não fiz nada!
- Olha o que você fez...
Mostrou-me as mãos banhadas em sangue, que estava espalhado também por todo o seu corpo. Uma imagem macabra aquela! E eu, queria apenas lhe ajudar. Não compreendia nada do que me dizia, porque uma criança fazia aquilo comigo. Tomada por choro e medo, fiz mais uma tentativa, tentando me aproximar. O garoto então afastou-se, caindo no precipício.
- Nããããããããããããããããão!
Ouvia apenas o meu grito aterrorizante. Corri, para tentar ajudá-lo, mas antes que eu fechasse os olhos, a porta aberta, já estava fechada, bem diante de mim, como as portas que encontro fechadas em minha vida. E eu ali, batendo, desesperada, no ímpeto de salvar aquela criança, que caíra por minha causa.
- Por favor, alguém me ajude! Alguém me ajude!
Ficava na esperança que alguém, qualquer pessoa que fosse me ouvisse e me ajudasse a sair daquele lugar.
- Alguém me ajude! Alguém me ajude!
Tanto desespero. E estava sendo acordada por Holanda.
- Marina, calma! Está tudo bem, calma! Estou aqui...

MARINA PESSOA
Capítulo 88

Fora mais um de meus pesadelos. Depois de me vestir, parecia ter adormecido, talvez cansada da tensão de minha fuga. E de repente, estava eu ali, numa casa desconhecida, abraçada com um homem o qual eu nunca havia visto antes daquela manhã, o responsável pela minha liberdade, completamente molhado, como se tivesse acabado de sair do banho, enrolado apenas em uma toalha amarela. Ficara até meio desconsertado, a me ver fitando-o quase sem roupa, procurando me explicar porque estava daquela forma, ali comigo. Ouvira meus gritos, no chuveiro, e correra para me ajudar. Tive vontade de rir, ao ouvir seu pedido de desculpas, meio desarrumado, sem saber ao certo o que falar.
Dali a pouco tempo, estávamos Holanda e eu almoçando uma comida chinesa, a qual ele pedira por telefone. Conversávamos um pouco sobre nós, embora de forma superficial, como que para nos contextualizarmos mais sobre a vida um do outro.
O mundo é mesmo pequeno! Conhecia realmente o amigo com quem Holanda morava. Renato Brandão era sócio da agência de publicidade a qual havia pertencido a Leonardo Gondim, na época em que meu marido fora casado com Maria Eugênia. E mais, Holanda era então o diretor superintendente da agência naquele momento. Embora não parecesse um executivo, com um estilo de se vestir mais jovial e despojado, fora da empresa. Até brincamos e rimos sobre isso, quando me falou de sua função na empresa.
Pelo menos, senti-me mais segura. Sabia com quem estava lidando.
A conversa não girou muito em torno de mim, falei apenas da época em que morava na Europa, com minha irmã e meu cunhado. Holanda fora discreto, sem me perguntar sobre o acontecido pela manhã. Eu mesma tomei iniciativa e procurei explicar-lhe rapidamente, dizendo ter brigado com meu marido.
- Marina, pode ficar à vontade, não se preocupe com nada. Nem precisa me dar muitas explicações. Na verdade adoro mistérios, principalmente quando algo me diz que posso estar me metendo na maior fria.
Ele parou um pouco, com um olhar sério, depois riu e completou:
- Mentira... Eu to morrendo de medo de você.
E riu mais uma vez.
Holanda de fato conseguia me passar paz e tranqüilidade, coisa que eu não sentia há muito tempo. Porque estaria ele ajudando uma mulher que tinha brigado com o marido, e nem queria saber maiores detalhes? O que me causava dúvidas, também acalentava meu coração. Talvez estivesse conhecendo um novo amigo. Ou melhor, o único amigo dos últimos cinco anos.

JÚLIA SERRADO
Capítulo 89

Pedro e eu passamos a noite inteira trocando olhares naquele encontro na Mirage, e até o percebi me procurando algumas vezes em que me ausentava, fazendo-me provar novamente uma pontinha de esperança. E foi no momento em que ele levantou para ir ao toalete, que nos esbarramos e tivemos a oportunidade de trocar algumas palavras.
- Como vai? - Ele perguntou, deixando-me quase sem saber o que responder. Não sabia se lhe dizia o quanto estava sofrendo com sua falta e sentia saudade de estarmos juntos, ou se o mostrava minha indignação por levar Vanessa em meu território, só para me fazer sofrer.
- Bem... - Engoli no seco e só então complementei: - Você também parece bem. - Falei com certa ironia, direcionando meu olhar para a mesa onde Vanessa aguardava por ele.
- É... estamos nos dando bem. - Ficamos alguns segundos em silêncio, até que ele prosseguiu: - Graças a Deus, não é? Já não era sem tempo!
Sorria, com um certo desconforto. E eu o odiei, por ainda ter a coragem de me falar sobre sua relação com a esposa, depois de tudo o que vivemos.
- Que bom vê-los bem, Pedro!
Só Deus e eu sabíamos como fora difícil proferir aquelas palavras. Eu não queria lhe dar o gosto, no entanto, de me ver sofrendo, se era aquela a sua intenção.
Logo que nos despedimos, corri para o camarim, aos prantos. Como tudo pudera ter acabado de uma forma tão vulgar?! Chegava à conclusão que nada sobrara do que havíamos experimentado nos meses em que estivemos juntos. E nossos olhares no salão, o que significavam? Por um instante achei que era apenas uma forma que ele achava de me mostrar sua reconciliação com Vanessa. E então me odiei, por participar daquele jogo. E mais, percebia que Pedro também não era dotado de toda a dignidade que eu achava que era. Tentei então com aquilo, me sentir melhor e menos culpada pelo o que eu havia feito.
Numa conversa com Adriano Cordeiro, pouco depois daquele episódio, fui questionada por não falar a verdade a Pedro, do quanto estava sofrendo e desejava uma nova chance. Não só ele achava que eu havia perdido uma boa oportunidade de demonstrar meu amor e superioridade, como também afirmava que Pedro não estava com nenhum jogo. Sua atitude era apenas por se sentir perdido e confuso diante da possibilidade de não viver seu grande amor. Segundo Adriano, muitas vezes nos encontramos em encruzilhadas criadas por nossa falta de fé, causando-nos uma perda temporária de nossos princípios, resultantes em atitudes dissociadas ou incoerentes.
Seria bom se eu conseguisse ainda acreditar em D. Clarinda, no que dizia respeito a Pedro e nossa relação, e voltar a me motivar para provar o quanto o amava e lutar por seu perdão. Encontrava-me, contudo, desolada e descrente dessa possibilidade. Sentia que nos afastávamos cada vez mais, a cada encontro. E aquilo me matava por dentro. Como na vez em que encontrei-o, novamente na companhia da mulher, almoçando, na praça de alimentação de um shopping na Praça Portugal, onde eu freqüentava constantemente, e ele sabia, por ficar perto da boate.
Aos poucos, Vanessa foi conseguindo me provar que de fato havia reatado seu casamento com Pedro e estavam construindo uma nova história, como Izaíra me contava. Embora meus amigos tentassem me convencer que aquilo era uma mentira, e que eu devia continuar lutando por minha felicidade ao lado de Pedro, eu ficava cada vez mais distante desse sonho.
E é no momento em que mais experimentamos a distância de Deus e da incerteza de nosso caminho, que Ele se encarrega de nos dar uma mãozinha e nos mostra que há possibilidade de vida em todas as situações que se fazem presentes em nossa história.


CELINA GONDIM
Capítulo 90

Papai e Pedro Lucena vibraram com a minha decisão de aceitar ser a “musa” inspiradora para uma das personagens principais da série que seria produzida pela RTN, com estréia prevista para outubro, bem como todos os meus familiares, com exceção de Maria Eugênia, claro.
Estavam todos radiantes, enxergando em minha atitude uma possibilidade de retorno ao trabalho, ao “mundo dos vivos”. Os idealizadores daquela idéia acreditavam ser apenas o início e então na certa eu seria contagiada pela magia do trabalho e logo estaria de volta, escrevendo, talvez até assumindo as histórias criadas para os episódios da série. O nome de Celina Gondim de volta à abertura de uma produção televisiva.
Eu mesma não me encontrava tão empolgada quanto às pessoas que de mim gostavam. Na verdade, experimentava um pouco de medo, receio de remexer em feridas, nas minhas dores e que aquilo me causasse ainda mais sofrimento. Como não queria parecer fraca, mais do que já era, compartilhava sobre minhas dúvidas apenas com Dulce e Mena. Estas, por sua vez, procuravam me convencer de que a minha participação no trabalho seria apenas uma contribuição à sociedade.
Nem imaginava que contribuição realmente daria uma pessoa descrente naquele estilo de vida ou condição física do ser humano. Após o acidente, muita coisa havia mudado dentro de mim, além de me considerar responsável pela morte de Vinícius, o que me tirava totalmente a vontade de permanecer respirando, sentia-me incapaz de assumir uma postura realizadora, por me encontrar aprisionada num corpo de movimento limitado. E não se tratava apenas do fato de não poder andar, mas da própria inércia de meus membros da cintura para cima também.
Minha irmã apoiava-se na minha condição de “incapaz” para me pressionar e me dissuadir a voltar atrás, desistindo de minha participação na série da RTN. Todavia, a decisão estava tomada, para a sua indignação. Precisava, daquele modo, pensar em outra estratégia para me ver longe de “sua” empresa, assim como me prometera.
Dali a alguns dias recebi nos jardins de nossa casa a primeira visita de Pedro Lucena trazendo os autores Gilberto, Carlos, Marta e Luci, responsáveis pelas histórias que seriam desenvolvidas nos vinte e quatro episódios da série Tente Outra Vez, título provisório do trabalho, inspirado na letra da música de Raul Seixas. Luci era a sobrinha do diretor artístico da emissora, que assumira, supostamente, o lugar que seria meu na autoria do trabalho. Ela também sofrera um acidente há alguns anos e perdera a perna esquerda. Embora logo tivesse se adaptado à prótese e naquele momento vivesse uma vida praticamente normal, com apenas alguma dificuldade mínima, para se locomover. Tivemos ainda a presença de Gonzalles, que seria o diretor da série, bem como de Roberta, a atriz que viveria Mariana, uma das personagens principais da história, a qual eu daria um pouco de minha visão enquanto deficiente física.
Por incrível que pudesse parecer para mim, fiquei extremamente empolgada com aquela primeira reunião. De alguma forma eu havia sido contaminada pela vivacidade, a energia impulsionadora daqueles profissionais, unidos pelo objetivo de desenvolver um trabalho sério e de qualidade. Estava feliz por ter reencontrado Gonzalles, com o qual eu havia trabalhado quando adaptei Entre o Amor e as Drogas, para a televisão. Ficava ouvindo cada idéia, cada sugestão, as colocações dos autores, a visão globalizada do diretor, a paixão de Pedro pelo projeto, inspiração de Roberta e sua sensibilidade na composição de sua personagem.
Tudo ali, me cheirava vida, o que eu não experimentava há três anos, desde o terrível acidente. Fiquei observando mais precisamente, os movimentos da autora Luci, com a qual de certa forma eu tinha mais em comum, por termos sido vítimas de uma fatalidade e de alguma forma, sermos obrigadas a conviver com as seqüelas por ela deixada. Não obstante, seu problema físico fosse menos grave que o meu.
Podia perceber, no pouco de tempo em que passamos juntas, o quanto Luci não se importava com sua condição, e até brincava acerca da falta de sua perna. Alegre, bem humorada, como se não portasse nenhum tipo de problema físico. Chegava a pensar como seria na hora em que estivesse com seu marido, na cama. A perna mecânica lhe proporcionava a locomoção, não a beleza de seu corpo.
Devo ter conversado por mais ou menos uma hora com Roberta, a atriz que viveria Mariana, a deficiente visual com dificuldades de aceitação de sua condição física, como eu.  Mudava apenas o problema, mas a idéia da personagem era a mesma que me movia na vida. Respirei fundo várias vezes para falar de minhas privações, de meu isolamento psicológico, de minha dificuldade de relacionamento com as pessoas, de meu movimento limitado.
Toda a dor daquele castigo ao qual Deus me submetera veio à tona naquela conversa, o que me deixou transtornada. Tivemos que encerrar a sessão de entrevista, por conta de meu abalo emocional. A moça ficara assustada, sem saber ao certo o que fazer. Foi Mena quem pôs um ponto final ao momento, empurrando minha cadeira para longe dali. E logo eu estava em meu quarto, aos prantos, em contato com todas as lembranças as quais me afastavam da vida nos últimos anos. Parecia sentir a presença de Vinícius taxando-me de assassina. Dulce procurara me acalmar com um remédio, mas eu sabia da necessidade de viver aquela dor, precisava de alguma forma pôr aquilo para fora, expulsar aquele veneno de meu corpo, de minha mente.
Logo vi Pedro se aproximar cuidadosamente de mim. Havia dado sinal para Mena e Dulce nos deixarem a sós. Fitei-lhe os olhos, envergonhada por não conseguir atender as suas expectativas. Respirava com dificuldade, por conta do choro. Ele me olhava com um certo carinho. Baixou-se diante de mim, tocando-me as mãos e sorria, de um modo que parecia me dizer para não me preocupar.
- “...a água viva ainda está na fonte.” - Era parte da letra da música do Raul Seixas, tema musical da série. E eu bem sabia o que Pedro queria me dizer com aquilo. E então prosseguiu: - Você ainda tem muita vida para deixar sair, Celina. Precisava ver sua cara, lá fora, quando falávamos da série, das histórias, dos episódios que seriam desenvolvidos ao longo do trabalho. Era como se você quisesse sorrir, sorrir para o mundo, para a vida.
- Eu não consegui, meu amigo... dói muito, sabe?
- Eu sei. - Passou as mãos pelo cabelo crescido, levando-o para trás, com a mesma leveza que jazia em seu corte. E prosseguiu: - Mas a dor maior sentida por você não é essa cadeira de rodas, não é a falta do Vinícius, é o medo que você sente de você mesma.
- Eu sabia que não daria certo...
- Eu sabia que isso seria importante pra você, Celina.
- Eu não tenho o direito, Pedro!...
- Esse é o ponto. Lembra da música do Raul? “Não pense que a cabeça agüenta se você parar.” A sua dor é de se obrigar a morrer como forma de se punir pelo que aconteceu. Não! Você não pode parar, Celina. Você não morreu!
- Eu morri por dentro!
Tanta dor me acompanhava naquela fala. Precisava afirmar aquilo.
- Você sabe que não. E esse é o seu maior problema.
Fitava as paredes daquele quarto, cenário de minha dor, naqueles últimos três anos. Podia enxergar em cada canto, a minha culpa, a morte lenta de que Pedro falava. Tentara me esconder de mim mesma ali.
- Vamos combinar uma coisa? – Disse ele. Eu poderia já tê-lo expulsado há tempos do meu quarto. Não o fizera em consideração aos longos anos de amizade. Então não custaria nada ouvir sua proposta, eu não precisava fazer mesmo. - Eu sei que esse desejo de morte em vida, é também uma forma de punição. Também! Então, procure se perguntar, Celina, qual o outro motivo que lhe impulsiona a este isolamento, assim como o boicote a sua própria recuperação.
Assustei-me com aquela pergunta. Do que estaria ele falando? Ora, não precisava perder tempo com aquilo. Decerto nem imaginava a dor pela qual eu estava passando, por isso ficava com aquelas insinuações e indagações estapafúrdias. Tudo bem, eu sentia culpa, ponto!
Fiz questão de anunciar minha decisão antes que Pedro saísse do quarto.
- Pode arranjar outra aleijada pra servir de cobaia para o trabalho de vocês!
Aquela afirmativa veio carregada de indignação. Pedro nada sabia de dor e deficiência, muito menos do que eu sentia em relação a minha vida e tudo o que havia passado. Não poderia intervir daquele modo. Eu precisava pôr um limite. Ele, que já estava quase desaparecendo da porta, depois de se despedir, parou um pouco e se voltou a mim.
- Sei que vai pensar no que lhe falei, Celina. Quanto à cobaia, não sei do que está falando. Estou certo de que continuará conosco. - Sorriu, desaparecendo do alcance de minha vista.
Arrependi-me de ter aceitado o convite! Poderia estar bem ou não tão entregue às minhas tristezas, caso não tivesse entrado naquela loucura. Não sabia onde estava com a cabeça no momento em que aceitara. Celina Gondim estava morta!

Pedro sempre fora um homem sábio, estudado, maduro, um conhecedor, segundo papai, da alma humana, apesar da pouca idade. Mas não podia saber tudo. O que lhe concedia o direito de falar de sentimentos que só pertenciam a mim? Não havia outro motivo a me conduzir em meu isolamento psicológico que não a culpa pela morte de Vinícius ou ainda a revolta por permanecer presa naquele corpo torto e inútil. Entretanto, suas indagações me tiraram o sono durante dias, levando-me a um estado permanente de introspecção. Nem mesmo as provocações de minha irmã, conseguiram me tirar do sério e me desequilibrar, como era sua intenção a cada um de nossos encontros.

CELINA GONDIM
Capítulo 91

Maria Eugênia encontrava-se triunfante com base na minha desistência do trabalho. Nem precisara de tanto esforço para me tirar do páreo. Teria então tempo suficiente, sem ter que se preocupar mais comigo, invadindo seu espaço, para suas noitadas junto aos garotos de suas listinhas, requisitadas a Nacélio, ou aos encontros individuais com seu preferido, Guel Serrado.
As escolhas freqüentes da patroa a outros colegas, deixava Ronie enfurecido, principalmente por servir de motivo de gozação pelos demais.
“Deixem quieto, meu. Vocês ainda vão ver...” Sua voz carregava o peso da indignação. Definitivamente não compreendia por quê. Tinha um corpo fantástico, como ele mesmo dizia. Era bonito e bom de cama. O que mais faltava? Por que ela escolhia outros, cujos atributos físicos eram até inferiores aos dele? Algum motivo haveria e teria de descobrir. E não sossegaria enquanto não o fizesse.
Ronie ainda pagava seu trato com Nacélio, gravando vídeos de suas transas, sem que suas clientes soubessem. Não poderia, deste modo pedir outro favor, ver seu nome incluído numa próxima lista. Conversando com o patrão, descobriu dos encontros da dama misteriosa com Guel Serrado. Seria ele, o amigo, a quem inúmeras vezes ajudou em suas tramas, quem então poderia dar-lhe a mão. E para o rapaz, seria ótimo livrar-se de minha irmã, sendo ela um risco para seus planos junto à namorada, no golpe contra Olívia Cordeiro. Na verdade, a dona do Mukifo nem desconfiava que o amante, continuava se encontrando com a tal garota, Tony, de quem ela exigiu que se afastasse, e mais, que tinham um plano juntos, e estava se envolvendo com a dona da Mirage. Combinaram então o encontro.
Guel Serrado e Ronie apostavam na compulsão sexual de minha irmã. Ela adorava vivenciar momentos com mais de dois parceiros e era nisso que o plano se baseava. Para todos os efeitos, Ronie passaria uns tempos na casa do amigo, e este, quando estivesse com ela, iria sugerir a presença do rapaz do quarto ao lado. Assim o fizeram. E nos dois encontros seguintes, o mesmo foi proposto, com sucesso. Até a mulher ter sido surpreendida, certa tarde, com a ausência de seu garoto de programa preferido. Como achavam, ela não perderia a viagem. E pela primeira vez, os dois transaram sozinhos. Ronie dera tudo de si. Queria conquistá-la, herdar o posto de Guel Serrado, como predileto.
O plano de Guel e Ronie dera certo. Sempre que Maria Eugênia ligava, requisitava também a presença do outro. Vez por outra, Guel não comparecia no horário marcado, e mesmo despertando certa indignação em minha irmã, ela se entregava aos braços de Ronie. E passara também a incluir seu nome em todas as listas do Mukifo, virando o jogo junto aos demais. Para ele, chegava cada vez mais perto de seu objetivo. Logo, sairia daquela vida de miséria.
Eram ótimas aquelas saídas de minha irmã. Voltava ao trabalho, ou para casa, sempre mais alegre e sorridente, coisa rara de se ver. Talvez não fosse ela meu algoz, como muitas vezes eu pensava. Sim, nisso Pedro estava com a razão, era eu a minha maior inimiga. Talvez precisasse responder aquela pergunta e saber o que também me motivava no confinamento ao mundo de minhas dores e lembranças tristes.


CELINA GONDIM
Capítulo 92

Papai não desistiu em momento algum de me fazer voltar ao trabalho. Acreditava em meu potencial, e minha negativas pareciam lhe fortalecer ainda mais em seu intento.
- Filha, sei que é difícil para você, que falar de sua condição física lhe machuca. Mas talvez a sua missão neste momento possa ser exatamente partilhar essa dor com pessoas que enfrentam situações parecidas. A dor de um, muitas vezes, pode minimizar a dor do outro.
- Papai, sei de sua vontade de me ajudar, de me ver bem, assim como o Pedro também tem insistido. Mas eu tentei, e não deu certo, entende? Parece mais forte que eu. As lembranças do acidente, a culpa por tê-lo provocado, a falta de Vinícius. Tudo isso me faz querer estar longe dessa história.
Papai chegava um pouco mais perto, pondo a mão em minha perta.
- Quanto mais você quer estar longe, mais perto você fica. Isso faz parte de você, filha. Essa história que você quer esquecer, está em você, no seu corpo, na sua alma, e você a vê diariamente. Querer se afastar, faz com que ela esteja cada vez mais presente, mais forte dentro de você.
- Não. Ficar pensando, remoendo é pior.
- Pior é guardar, fingir que não existe, quando ela ganha forças dentro de seu coração, silenciosamente, como um câncer. Você a alimenta quando cala sua voz e não a deixa sair. Essa história está crescendo dentro de você, Celina. Ganha forças a cada dia que se passa. E um dia explodirá. É isso que eu temo. Como isso explodirá.
Era a primeira vez que papai me falava aquelas coisas, desde o acidente. Antes, ele procurava me poupar. Instigava-me naquele momento para o meu próprio bem. Eu chegava a estar surpresa por sua coragem de me abordar, expondo finalmente o que pensava.
- Compreendo sua intenção, papai. Mas não dá.
- O mundo precisa de você, filha. – Falava com muita paciência.
- Eu nada posso fazer.
- Sim. Pode. E você sabe que pode. Apenas está amedrontada, intimidada.
- Deus quis que eu me calasse quando permitiu aquele acidente.
- Agora Ele quer novamente sua pronúncia no mundo. E pede isso através desse trabalho. Celina, a série Tente Outra Vez não nasceu com o intuito de lhe ajudar. Quando o Pedro nos trouxe esta idéia, ele vislumbrava uma luz na vida de muitas pessoas. Você tem noção do quanto podemos ajudar com um trabalho como esse?
- Papai, eu sei que pode ajudar muita gente. Mas quem não pode sou eu.
- Celina, estamos todos do seu lado, sempre estivemos. – Respirou fundo. – Acho que é hora de você sair de casa. – Não o compreendi. E papai percebeu meu olhar interrogativo, completando: - Sair de casa significa abandonar um pouco esse mundo que você criou dentro de você, o mundo que você construiu através de sua condição física de tetraplégica, de onde você olha esse outro mundo, que não considera bom o suficiente para viver. Filha, o convite nesse momento, é de se abrir verdadeiramente para as pessoas. Saia de você, desse universo paralelo. Abandone essa redoma de proteção. Aqui fora é quentinho. – Tinha uma fala mansa. – Tem a temperatura certa para nossa felicidade. Você precisa apenas senti-la. – Papai levantou-se, e antes de sair, concluiu: - Venha, deixe de ser apenas uma personagem e volte a ser uma autora da vida. O mundo verdadeiro está precisando de você, Celina!
E eu fiquei perplexa com aquelas colocações. Pela primeira vez papai emitia um julgamento sobre meu estado. Suas últimas palavras se referiam à casa dos anjos? Meu Deus! Era como se soubesse de meu mundo paralelo. E falou dele, sem citar a casa de madeira, com os três arcanjos na frente. Mas falou. Pediu que saísse daquele mundo. Mas a casa dos anjos fora destruída há muitos anos. Quase não lembrava mais de sua existência. O que tinha ela a ver com meu estado de tetraplégica? Eu nunca havia falado com ninguém sobre aquele mundo que eu vivi em minha infância. Era algo que só pertencia a mim. Papai havia acertado em cheio, como se tivesse lido a minha memória, uma lembrança guardada a sete chaves.
A Casa dos Anjos, o portal para o meu mundo paralelo. Um universo criado para me tirar do sofrimento do mundo de fora. Mas aquilo fazia parte apenas do meu passado!
No fundo sentia-me envergonhada de tirar papai de suas verdadeiras preocupações, não queria que perdesse tempo com os meus problemas, nem me sentia no direito de lhe pedir tal coisa, por já ser um estorvo em sua vida, bem como na vida de cada um de meus sobrinhos, de Mena e até de Dulce. Embora ele me provasse permanentemente o seu amor e dedicação, através de seu afeto e cuidado. A própria iniciativa de me convidar a integrar a equipe de autores da série, era uma forma de zelo e tentativa de me trazer de volta à vida. Ele nunca desistira de proporcionar alegrias, mesmo depois do acidente ou de minhas inúmeras recaídas ao mundo das drogas. Papai sempre esteve presente em minha vida!
Naquele momento até me preocupava a sua saúde. Por uma ou duas vezes, papai chegara a passar mal na minha frente. Acontecia como uma vertigem, mas alguma coisa me dizia que não era tão simples o quanto ele procurava afirmar, responsabilizando o cansaço e stress de conduzir uma grande rede de televisão. Nunca entrava em detalhes dos problemas nos negócios, tratava como se não existissem, embora eu soubesse de sua existência, desde que Maria Eugênia me revelara a verdade sobre a dívida da RTN.

CELINA GONDIM
Capítulo 93

Encontrava-me preocupada com a saúde de papai. Precisava tomar uma forte decisão. A RTN havia recebido uma proposta de um partido político aliado de Donato Pessoa, para a produção de uma série de reportagens dentro do Revista Notícia – A Máquina da Informação, principal telejornal da emissora, denegrindo a imagem de alguns partidos adversários e seus membros representantes. A proposta representava vários milhões de reais e uma boa amortecida na dívida da empresa. No entanto, tratava-se de uma contradição à proposta do canal e do programa, desde seu nascimento, que era de levar a informação de forma imparcial e de modo claro e preciso ao telespectador, dando-lhe a oportunidade de construir a sua própria visão. Fora com base nesses princípios e propostas, que o telejornal conseguira ser um dos mais assistidos no país. Para papai e Pedro Lucena, como para alguns diretores da RTN, aceitar aquele projeto, significaria negar todo um sonho, bem como atestar a incoerência e a mentira dentro de um canal que crescera sob a perspectiva da verdade diante do público. Para ele, tratava-se de uma questão de honra. O que o fazia ponderar, era de fato o atual estado da emissora. Temia fechar as portas e pôr um fim a seu sonho.
Alguma coisa precisava ser feita em relação à dívida da emissora. O receio de papai era de fato ter que fechar as portas de seu grande sonho e assumir seu fracasso diante de todo o Brasil, principalmente frente àqueles que acreditavam, segundo ele, em sua derrota. Havia, inclusive, ficado extremamente chateado pela publicação de boatos da dívida astronômica da empresa em uma revista de circulação nacional. A matéria trazia também especulações de um provável pedido de concordata da RTN. O que o deixara furioso, fazendo-lhe até passar mal diante de algumas pessoas no escritório. Fato que nos deixou um tanto preocupados. Embora ele nunca entrasse em detalhes, sabíamos que havia algo de errado com sua saúde. E quanto às divulgações, mal sabia ele ser uma das estratégias de Donato Pessoa e seu partido para pressioná-lo a aceitar a proposta.
O grande companheiro de desabafos de papai naquela época era de fato Pedro Lucena, com quem partilhava suas preocupações e receios quanto a RTN, desde a morte de seu grande amigo Alberto, no ano anterior. Este por sua vez, mantinha-se irredutível em relação ao caso da proposta do partido político dentro da emissora. Para ele, não valia a pena se entregar enquanto integridade em nome da necessidade, nunca. Se a RTN nascera com a proposta de abrir os olhos da população acerca sobre a manipulação de uma classe dominante, principalmente de políticos corruptos, precisavam manter-se firmes em sua postura até o fim, mesmo que representasse o fechamento da emissora. Para Pedro, era mais que uma proposta, tratava-se da preservação de seus princípios de vida.
Já papai não parecia ter a mesma certeza de seu amigo, embora fosse um homem íntegro, e eu bem sabia disso, encontrava-se duvidoso sobre que atitude tomar, por puro medo de perder sua rede de televisão e ver seu maior sonho destruído. Compreendia profundamente a posição de Pedro e passara a vida inteira se mostrando adepto daquela postura, a qual representava retidão de caráter e honestidade. Todavia, frente à possibilidade de poder salvar o crítico estado financeiro em que se encontrava a RTN, chegava a se questionar se era realmente a decisão mais sábia. Seu raciocínio trazia a emissora como um canal de ajuda humana e a pergunta era se não aceitando aquela proposta, embora antiética, ele não estaria perdendo a chance de manter viva uma máquina capaz de contribuir para a melhoria do país, e até ajudar no combate àqueles mesmos corruptos, nos quais jazia a sua salvação. 
Talvez papai esperasse ouvir por parte de seu amigo, o qual o lembrava frequentemente a presença leal e honesta de Alberto Lucena, algo que o confortasse em sua dúvida, sendo ele uma presença jovem, de mente arejada. Contudo, Pedro trazia-lhe, a partir de suas colocações firmes, a culpa e uma sensação de fraqueza, pelo recuo em suas convicções.
Papai precisava, deste modo, de um pouco mais de tempo para colocar a cabeça no lugar e se ouvir, tomando então a difícil decisão.

JÚLIA SERRADO
Capítulo 94

Certa noite precisei me atrasar no trabalho, por conta de um problema de saúde de Zezinho, o caçula de Raquel, que se encontrava com uma febre altíssima e tivemos que levá-lo a uma emergência de um hospital. Era por volta de vinte e duas e trinta quando saltei do ônibus na Av. Desembargador Moreira, de frente ao shopping que ficava na esquina da Praça Portugal, do outro lado da boate. E foi quando cheguei na calçada da Mirage, mesmo diante dos dois seguranças que estavam na entrada da boate, que fui surpreendida  por um rapaz, arrancando-me a bolsa das mãos. Nem entendi ao certo o que acontecera ou de onde aquele homem horrendo, talvez drogado, tivera saído. Quando pude perceber, já estava no chão, tentando me reerguer. O segurança já havia pego o ladrão e conseguido minha bolsa de volta. Tudo ocorrera numa fração de segundos. Ergui-me com a ajuda de um senhor, que acabava de sair de um carro parado paralelo à calçada defronte ao local onde eu acabara de ser assaltada. Provavelmente teria este homem assistido toda à cena, e parecia indignado com o acontecido.
- Não se tem realmente mais nenhuma segurança nessa cidade!
Estava com a mão estendida, ajudando-me a levantar.
- Vocês estavam fazendo o quê?
Falou voltado para os seguranças que traziam minha bolsa de volta, atônitos e preocupados, por não terem se dado conta do assaltante, na hora em ocorreu a agressão. Eles ainda tentaram se explicar, mas a pergunta não necessitava de resposta. Aquele senhor já me ajudava a entrar na boate, sem esperar que terminassem de falar.
- A senhorita está bem?
Sua fala trazia consigo um tom de preocupação e cuidado, um zelo por alguém que ele nem ao certo sabia quem era. Levou-me para o balcão, onde estava Olívia e Izaíra e alguns dançarinos, causando uma certa preocupação a todos, que procuravam saber o que tinha havido comigo, se eu estava bem. Encontrava-me ainda nervosa pelo assalto e, ao mesmo tempo, embaraçada pelo cuidado daquele senhor desconhecido. E então pude ouvir seu nome, sendo proferido por Olívia:
- Leonardo, que situação!...
Logo fomos para a sala de Olívia, para que eu pudesse ter um pouco mais de tranqüilidade. Foi então quando nós fomos apresentados. Leonardo era um velho amigo de minha chefe, parece que do pai dela, embora nunca tocasse no nome do pai. Falavam um com o outro, como se ele a conhecesse desde pequena e tivesse por ela um certo carinho.  Antes que saíssemos, Olívia falou-lhe rapidamente sobre minha atuação na boate, ressaltando minha competência, como se contextualizasse seu amigo.
Leonardo parecia um cinqüentão, embora certamente tivesse mais que sessenta anos. Um homem alto, de porte elegante, trajando roupas finas, calvo, de cabelos e barba grisalhos, carregando consigo um ar aristocrático. O claro azul de seus olhos, dava-lhe uma aparência européia e se destacava num olhar profundo e sedento de conhecimento da alma humana. Era uma figura intrigante e charmosa, de beleza madura. Falamos pouco, mas o suficiente para eu perceber o quanto era gentil e cuidadoso, de um cavalheirismo que não se vê comumente.
No dia que se seguiu ao assalto, fui surpreendida em minha casa, na hora do café da manhã, por um buquê de rosas de cor salmão. Lindas! No cartão: “Espero que esteja bem. Leonardo.” Que gentileza aquela, além de me ajudar, ainda verdadeiramente preocupado comigo. Há tempos não experimentava tanto zelo e delicadeza, desde que Pedro e eu havíamos nos separado, no final do ano.
O mais intrigante naquele homem que eu acabara de conhecer, era uma certa familiaridade em seu rosto, como se já o conhecesse de algum lugar. Mas não lembrava de onde seria. Procurei me informar, meio que discretamente, com Olívia sobre ele, embora não obtivesse muitas informações, até por não gostar muito de falar de seu passado, de coisas que lembrassem o pai, o qual ela se esforçava para esquecer. E Leonardo parecia lhe trazer muitas lembranças, das quais não queria se envolver. Disse-me apenas ser um grande amigo, que o conhecia desde que nascera e que era um homem formidável. Não me acrescentara muito aquelas informações. Aquilo eu já havia tido a oportunidade de conhecer, embora que rapidamente. Parecia ser de fato uma pessoa especial, como ela o descrevera, portador de tanto cuidado e verdadeira preocupação com o próximo.
Leonardo e eu só nos encontramos novamente alguns dias depois. Acompanhei Olívia ao prédio comercial do shopping da Praça Portugal, pois ela tinha que resolver algumas questões sobre a compra de um apartamento, me parecia, no escritório de uma construtora ali. Nos deparamos com ele e alguns profissionais na porta do elevador, como se já viesse, acompanhado dos amigos ou parceiros de trabalho, de alguma reunião de negócios. Fora extremante cordial e cavalheiro, como da primeira vez, apresentando-me cada uma das pessoas que estavam consigo. Desculpou-se por não estar com nenhum cartão seu naquele momento e pediu-me o telefone. O que me causara certa estranheza, visto que se já tinha descoberto meu endereço para me enviar rosas, como não saberia meu telefone? Talvez coisa de quem quisesse criar assunto, quem sabe. Ao mesmo tempo, não parecia que iria me ligar. Fora formal e pedir meu telefone seria, não sei, uma atitude de cuidado e educação.

CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 95

Alguma coisa me dizia ser uma loucura aquela atitude de retirar a queixa contra meu marido. Via-me, contudo, pressionada por minha própria consciência e o dever de lealdade para com a promessa, a qual me proporcionara misericórdia durante todo o tempo em que estive casada com Alceu.
Fiz tudo em silêncio, sem que Nando e Holanda soubessem. Apenas minha vizinha e amiga Ceiça me acompanhara à delegacia, como da primeira vez. Em alguns momentos  a olhava como se esperasse um consentimento no que eu estava fazendo. Ela, por sua vez, permanecia em silêncio. Baixava um pouco a cabeça, desviando o olhar do meu, como se me dissesse não concordar. Mantinha-se, contudo, ali, presente, apoiando-me. Uma força silenciosa que me era fundamental naquele momento.
Ainda que fosse uma figura engraçada em sua relação exagerada de idolatria ao marido e filho, na qual os mitificava enquanto heróis, ressaltando serem portadores de grandes virtudes e coragem, respectivamente, Ceiça era uma mulher madura e bem sabia o peso do amor à família. Esteve presente, com a mesma postura de cuidado e silêncio, sem muitas perguntas, nos últimos vinte anos, desde que haviam comprado o mercadinho da esquina e mudado para nossa rua.
Estava consciente de que minha atitude naquele momento poderia me trazer sérias conseqüências, principalmente em relação a meus filhos. Alceu não poderia continuar preso ou ser transferido para um presídio. Pior, eu não podia permanecer de braços cruzados, como se nada pudesse fazer e ver minha promessa ser descumprida.
Procurei conversar com meu marido ainda na delegacia, numa tentativa de esclarecer alguns pontos de nosso convívio ou estabelecer regras para nossa relação daquele momento para frente. Dorival, o filho de minha vizinha Ceiça, que trabalhava naquele distrito policial, levou-me para uma sala, onde eu me encontraria com Alceu. Ficamos um de frente para o outro, separados apenas por uma mesa.
- Como vai, Alceu?
- Como você acha? – Eu compreendia seu tom agressivo. – Trancado numa cela com outros dez presos. É muita humilhação para um homem na minha idade, Clarinda.
- O Doriva me disse que você pode descer para o presídio.
- Mas você não vai deixar, não é mesmo? – O tom já era mais ameno, de súplica. – Clarinda, você vai me tirar daqui, não vai?
- Vou.
- Eu sabia. – Abriu grande sorriso. Há muitos anos eu não o via rindo daquele jeito. – E sabia que você não ia mais deixar eu ficar aqui, Clarinda. – Agarrou-se nas minhas mãos.
- Mas eu quero conversar com você antes.
- Conversar o quê? Não tem nada pra gente conversar. Vamos sair daqui.
- Como não tem nada, Alceu?
- Clarinda, deixa de besteira, mulher. Vamos embora daqui.
- Não antes da gente conversar. Foi pra isso que eu vim, Alceu.
Vi fúria em seu olhar. Mas logo conteve, olhando para a sala onde estávamos, como se lembrasse de sua condição naquele momento.
- Tudo bem. Fala aí o que você quer.
- Nós estamos casados há trinta e seis anos.
- Sim, sim. E o que tem isso?
- Sempre foi uma relação muito difícil e...
- Não se preocupe. – Interrompeu-me. – Agora vai ser diferente.
- Alceu...
-  Você vai ver, Clarinda. – Interrompeu minha fala mais uma vez. – Tudo agora vai mudar.
- Eu quero apenas...
- Deixa de besteira, Clarinda. – Mais uma interrupção. – Vamos logo embora daqui.
- Vai mudar como? – lancei a pergunta no ímpeto. – Você nem me deixa falar, Alceu. Está agindo como sempre fez.
- Tá certo, tá certo. Pode falar. O que você quer saber?
Eu percebia que ele não estava a fim de nenhuma conversa. Queria apenas ir embora o quanto antes. O que me preocupava. Já era mal sinal.
- Quando você fala que vai ser diferente, do que está falando? – Tentei ainda saber.
- Eu quero viver numa boa com você, em paz, sem brigas, sem nenhuma confusão, como um casal feliz mesmo.
- Isso inclui não me bater?
- Ora, Clarinda. – Levantou-se e contornou a mesa, deixando apavorada. Ele me abraçou por trás. Fiquei imóvel, sem compreender bem o que estava acontecendo. – Você é minha mulher. Eu gosto de você. Eu sei que à vezes eu fico meio maluco, agressivo. Mas agora vai ser diferente. Eu aprendi que ficar longe de você é muito ruim. Eu mudei, Clarinda. Pode acreditar.
Rezei internamente para não estar cometendo mais um grande erro.
Quando descemos do ônibus, já em nossa rua, Alceu cumprimentava a todos alegremente, no percurso até nossa casa, como se viesse de um passeio. Nem parecia ter passado os últimos meses trancado numa sela de delegacia, junto com mais dez homens, ou ainda ter cometido a atrocidade que cometera comigo. Aquilo me amedrontava. Fazia-me pensar que aquela lição não havia lhe servido de nada e que mais cedo ou mais tarde sua fúria se faria presente novamente. Sua dificuldade de falar de sentimentos ou entrar em contato com situações de maior intimidade, lhe transformara numa bomba, prestes a explodir a qualquer momento, o que acontecera freqüentemente nos últimos trinta e seis anos, desde nosso casamento.
Dali a poucos minutos eu estava na cozinha, esquentando uma sopa que havia sido preparada antes de eu sair de casa, para receber meu marido, quando fui abordada por ele me abraçando. Mal pude conter o susto. Uma série de momentos nos quais fui agredida inesperadamente por Alceu veio-me à memória, numa fração de segundos. Graças a Deus contive o impulso de revidar a “provável” agressão com a colher que eu segurava naquele momento. Era tão rara uma atitudes daquelas, que me fizera pensar estar novamente sendo agredida.
Por mais que eu me esforçasse, não suportava as demonstrações de afeto de meu marido. Rezava para que logo acabasse e o mais rápido possível eu pudesse estar longe de sua presença. No fundo, esperava que mais cedo ou mais tarde o carinho fosse precedido de um bofetão. E aquilo me amedrontava, provocando-me, quase sempre, atitudes artificiais e situações um tanto constrangedoras. Na certa, ele percebia a falta de ressonância, o que o deixava costumeiramente irritado.
Pelo menos, daquela vez, Alceu conteve sua irritação, embora percebesse minha aversão.
- Não se preocupe, Clarinda. Eu estou realmente arrependido. – Disse ele. Procurei disfarçar, mas era evidente o meu embaraço. E prosseguiu: - Esse tempo que eu fiquei naquele lugar, deu pra pensar em muita coisa. E eu não quero mais ficar longe de você, nem dos meus filhos. – falava de um jeito, como se estudasse a minha reação. Senti um frio no estômago ao ouvir aquela declaração. “Longe dos filhos”? Fiquei pensando o que ele estava querendo dizer com aquela frase, mas temia lhe perguntar. Apenas lhe fitei de forma interrogativa. E então completou: - Isso mesmo que você ouviu. Não quero mais ficar longe dos meninos.
- Você... Está falando do Nando? – Não acreditava.
- Dos nossos filhos. – Respondeu Alceu.
Ou eu estava maluca, ou Alceu realmente havia mudado com a cadeia. Há cinco anos Holanda estava fora de casa, depois de brigarem, pelo seu relacionamento com Renato Brandão. Sem falar em Ronie, a quem meu marido se referia como “bandido”. Nem podia acreditar no que ouvia. Queria saber se verdadeiramente ele falava sério ou era apenas uma brincadeira.
- Alceu, o que você está querendo dizer com isso?
- O que você escutou. Eu quero fazer as pazes com Holanda e Ronie.
Senti uma alegria imensa tomando conta de mim, contendo o impulso de abraçá-lo, de tanta felicidade. Há tanto eu queria ouvir aquilo! Finalmente ver minha família novamente reunida. Talvez fosse sincero. E se fosse, ficaria tudo bem. Seria até mais fácil de levar a promessa adiante.

CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 96

A declaração de meu marido deixou-me até mais tranqüila para enfrentar os meninos e lhes falar que eu havia retirado a queixa. E mais, que Alceu estava de volta. Nando havia feito uma viagem a trabalho e voltaria dentro de alguns dias, o que me deixara mais tranqüila. Eu queria apenas ganhar tempo, para organizar o pensamento e planejar como lhes contaria, de modo a não lhes causar nenhum impacto ou negação à situação de seu pai em nossa casa. Holanda chegara a me ligar, querendo me ver, mas seria importante que eu enfrentasse tudo de uma só vez. Acabei por criar uma desculpa sem importância, para que ele só viesse depois que o irmão retornasse de viagem.
Talvez a minha intenção fosse realmente de fugir da verdade, pelo menos naquele momento. No fundo, temia a reação dos meninos, principalmente de Holanda, que não se dava bem com o pai e guardava uma profunda mágoa. Senti-me ridícula por temer meus próprios filhos. Logo eu, uma mulher da minha idade, depois de passar por tudo o que eu já havia passado. Não teria coisa pior que enfrentar aquele casamento por tantos anos. O medo acabou por fazer parte de minha vida, talvez pelo controle o qual deseja ter sobre as coisas e as situações. 
Os dias passaram mais rápido que o esperado e logo Nando estava de volta. E como uma peça pregada pelo destino, Holanda fora lhe buscar no aeroporto, no intuito de levar o irmão em casa e também me reencontrar. Estávamos almoçando, Alceu e eu, quando os dois apontaram à porta. Meu coração acelerou e senti minhas mãos gelarem, ao ouvir a voz dos meninos comentando acerca de uma moça que Holanda conhecera há pouco e havia hospedado em seu apartamento. Nando foi o primeiro que se deu conta da presença do pai, logo ali, sentado à mesa, ao meu lado. Ficara surpreso e ao mesmo tempo preocupado com o irmão, voltando-se a ele, como se quisesse de alguma forma protegê-lo. No fundo, já sabia que mais cedo ou mais tarde aquilo acabaria acontecendo. Me conhecia melhor que os demais.
- Sejam bem-vindos.
Holanda só se apercebera da presença de Alceu, ao ouvir sua fala de boas vindas da mesa. Ai, meu Deus, que situação aquela...! Se pudesse, juro que teria sumido dali. Mas ao mesmo tempo seria a oportunidade de acabarmos de uma vez por todas com as brigas familiares e estarmos novamente juntos como uma família. Se Alceu estivesse realmente falando sério, como me dissera dias antes, seria o momento propício para estabelecermos um clima de harmonia entre nós.
Meu filho ficara completamente perplexo ao se deparar com a imagem do pai fora da cadeia e ao meu lado, como se nada tivesse acontecido. Fora uma situação um tanto constrangedora e ele logo falara com o irmão, procurando sair dali.
- Mano, acho que o inferno abriu as portas. E eu ainda não estou pronto para ser queimado.
- Meu filho, por favor... - Eu o chamei, tentando impedir que nos deixasse.
- Acho que precisamos conversar, Francisco. - Alceu falou. E ele já de costas, preparado para sair.
Nando sentira o clima e procurara então ajudar.
- Mano, eu não sei o que está acontecendo aqui. Mas talvez seja bom a gente enfrentar logo isso. Está mais do que na hora de termos uma conversa séria.
Eu estava rezando silenciosamente, rogando a Deus que interviesse e tocasse o coração de meu filho. Desejava, claro, que Alceu fosse menos arrogante e desfizesse a expressão de dono da situação que estampava em seu rosto. Chegava a ter um sorriso quase que sarcástico.
Holanda respirou fundo e voltou-se a mim.
- Por que essa situação, mãezinha?
Sua indagação vinha com um tom de lamentação.
- A mãezinha tem razão, mano, a gente precisa se entender. - Nando já parecia clamar. Como eu, ele sempre desejara ver o irmão de bem com o pai, freqüentando nossa casa livremente.
- Você sabia disso, mano? - Holanda perguntou a Nando, sentindo-se traído.
- Claro que não. – Nando respondeu imediatamente, tratando de fechar a porta, como se quisesse garantir a presença do irmão. Voltou-se para o pai.
- E o senhor, como é que está?
- Estive mal... – Disse Alceu, com uma cara de sofrimento. Fitou os olhos de Nando, como se o responsabilizasse pelo acontecido. E verdadeiramente era o que sentia. E então completou: - Mas agora eu estou bem. Sua mãezinha me tirou daquele inferno.
A explicação vinha com um tom de provocação. E aquilo me deixava preocupada. Como eu queria que aquela situação se resolvesse logo. Que agonia!
- Alceu tem uma coisa pra falar a vocês. – A minha intenção era acabar de uma vez por todas com o clima pesado no ar.
- O que é de tão importante? - Holanda perguntara, com o mesmo tom de ironia e provocação usado pelo pai. Mostrava-se indignado com a minha atitude, voltando-se permanentemente a nós três, como se exigisse uma explicação de qualquer um ali presente.
- Desde quando a sua mãezinha me tirou da cadeia, eu disse que nós podíamos voltar a ser uma família. É isso que ela quer que eu diga. - Alceu sentou-se, como se já tivesse feito sua boa ação, voltando-se para o prato de comida, provocando ainda mais a revolta no filho.
- Foi pra isso, mãezinha...? – Holanda estava claramente alterado. - Foi pra isso que a senhora mentiu pra eu não vir aqui, pra que pudesse tirá-lo da cadeia sem a nossa intervenção?
- O Alceu está mudado. – Tentei explicar.
- Mudado em quê? – Holanda quase gritou. Olhava para mim e para o irmão, como se esperasse outra atitude de nós. Alceu, por sua vez, continuava comendo, como se nada estivesse acontecendo.
- Mano, pelo menos ele está se dispondo a transformar essa situação. – Nando procurou convencê-lo.
- Transformar em quê, cara? Num circo? E certamente eu serei o palhaço. Ou melhor, todos nós! –  Holanda respondeu indignado.
- Meu filho, eu só quero que a gente seja feliz. – Procurei me aproximar.
- Feliz, mãezinha?! – Afastando-se. - Como? A senhora está esquecendo do que esse homem nos fez? Do quanto ele lhe maltratou, nos fez sofrer? A memória de vocês realmente é fraca. Mas a minha não. – Tinha os olhos transbordando em lágrimas. - A minha memória está muito nítida. A agressividade dele, o ódio com o que olhava pra senhora e pra nós está aqui dentro. - Batia na cabeça, como se quisesse mostrar as imagens de seu terror presentes em sua vida. Eu o compreendia, mas rezava que tudo desse certo e ele perdoasse o pai. Estava condenada à companhia de Alceu para o resto de minha vida, mas precisava da presença de meus filhos perto de mim para continuar.
- Holanda, calma. A gente pode tentar resolver. – Nando tentava amenizar.
- Resolver o quê, Nando? Vocês não percebem que isso é uma grande palhaçada desse homem? – Visivelmente transtornado.
Alceu, deixou então a comida e o sorriso sarcástico que estampava em seu rosto, como se se divertisse com a situação e levantou-se, batendo a mão na mesa.
- Chega, moleque! – Era um grito de Alceu. O que me assustou. - Você está pensando o quê? Eu estou aqui, cheio das melhores intenções, dizendo que te perdôo e você...
- Perdoar? – Interrompeu-o. - Perdoar o quê? Quem você pensa que é para perdoar ou deixar de perdoar alguém?
- Eu disse pra sua mãe que agora a gente podia ser uma família novamente. – Completou Alceu.
- Você disse, ou nós realmente podíamos ser uma família? – Perguntou Holanda.
- Mano, você está complicando as coisas. – Colocou Nando.
- Complicando, eu, Nando? Esse cara está todo cheio de si, fazendo gênero de bonzinho. Vocês estão loucos?
- Cara um escambal, seu filho da... – Alterou-se Alceu mais uma vez.
- Calma, pai! – Disse Nando, procurando amenizar a situação e evitar mais complicações. - Eu acho melhor a gente tentar se acalmar um pouco. Senão não chegaremos a lugar nenhum.
- O Nando tem razão. O Alceu está apenas querendo uma nova chance. – Tentei completar.
- Não foi o que ele disse, mãezinha. – Respondeu Holanda.
- Deixa de ser complicadinho, garoto! Interrompeu Alceu. O que você quer ouvir de mim?
- Eu não vou ficar aqui participando dessa palhaçada! Esse cara é um arrogante, sacana. Não mudou nada!
- Filho, por favor... – Quase o  implorei.
- Me desculpe, mãezinha, mas agora a senhora conseguiu passar de todos os limites. Poderia, pelo menos ter sido honesta. – Disse-me Holanda, saindo.
- Mano... – Nando ainda tentou o impedir, mas foi em vão. Todo o nosso esforço foi por água abaixo. Na verdade, eu sabia bem do que ele estava falando em relação ao pai. Alceu nunca tivera a intenção de fato de viver uma nova história conosco. Queria apensas garantir sua liberdade. Já tinha o que queria e pronto. A irritação maior de meu filho, fora a postura mentirosa de Alceu o tempo inteiro, ali diante de nós. Não queria realmente mudar nada e desdenhava de nossa suposta reconciliação familiar.

CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 97

Lamentei profundamente por Alceu e Holanda não terem se entendido, mas pelo menos eu já estava mais aliviada. O pior já havia passado, meus filhos sabiam então que o pai fora solto por minha intervenção. Sentia-me livre finalmente do peso gerado pela quebra de minha promessa. Para mim, não existia nada pior que aquela sensação experimentada no período da prisão de meu marido, como se eu fosse uma traidora, ou melhor, uma pecadora, por não cumprir com a minha palavra.
A convivência com Alceu nos dias que se seguiram não fora ainda a melhor possível. Existia um clima de artificialidade no ar, tanto de minha parte, quanto da dele, como se nos suportássemos somente. Era grotesco e ao mesmo tempo constrangedor. Percebia-o engolindo no seco a sua fúria, quando se deparava com alguma situação corriqueira fora de seu agrado, como chegar e não encontrar preparada a comida a qual desejava naquele momento, ou sua roupa não estar disposta encima da cama pronta para vestir após o banho, pela minha ocupação com alguma costura.
Alceu continuava a passar o dia inteiro fora de casa, jogando baralho com seu amigo Quaresma, num barzinho, a uns quatro quarteirões dali. Apesar de eu não gostar de seu companheiro de jogo, por ser uma figura vulgar e motivá-lo em suas bebedeiras, preferia-o longe a dentro de casa. Uma vez e outra, resolvia chamar aquele homem asqueroso para jogarem em nossa sala, e ali passavam horas na companhia das cartas de baralho, apostando cédulas de um ou cinco reais, tomando um trago de cachaça atrás do outro. E ainda por cima eu me obrigava a atrasar as minhas costuras, para preparar tira-gostos a pedido de Alceu.
Numa daquelas vezes em que Alceu e Quaresma estavam jogando em casa, me vi quase sendo agredida por ele, por deixar sem sal uma carne que acompanharia o momento de farra. Fora apenas uma pequena distração. Na verdade, eu estava apressada com o atraso de algumas entregas de roupas que eu teria para aquele mesmo dia. Não lhe importava, contudo, se eu estava ou não ocupada. Principalmente, na presença do amigo, parecia querer mostrar seu poder.
Nem sei ao certo o que o impedira de me agredir. Talvez a lembrança das semanas em que passara na cadeia. Para mim, estava claro então que realmente não havia mudado nada e mais cedo ou mais tarde o terror voltaria a tomar conta de nossa casa. A mim então, restava apenas procurar atendê-lo em suas necessidades e exigências a fim de não provocá-lo em sua fúria, dando-lhe motivos para a agressão.
Aos poucos, minha vida ia se tornando novamente um grande tormento na ausência de Nando. Como não era uma pessoa de muitas diversões, geralmente passava o final de semana em casa, corrigindo trabalhos acadêmicos, analisando monografias e dissertações ou ainda orientando alguma pesquisa na área social. Vez e outra, acompanhava Holanda e Renato à praia, no sábado ou domingo pela manhã, mas dali a poucas horas, estava de volta, para meu alívio. Sentia-me mais protegida na presença de meu filho. E de fato, quando Nando estava em casa, Alceu melhorava seu tratamento comigo e não me forçava à presença desagradável de Quaresma, com aquele cheiro de perfume barato e sarro de cigarro misturado com cachaça.


CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 98

Meu filho Nando se ocupava cada vez mais na faculdade. Por ser um professor atuante, era requisitado freqüentemente para orientações em pesquisas acadêmicas, o que lhe chegava como novos desafios, motivando-o a estar com seus horários durante a semana totalmente ocupados.
Os encontros de Nando e sua aluna Maria Antônia, a qual sempre discordava de sua ideologia, tornavam-se cada vez mais freqüentes pelo campus da universidade, fosse em sala de aula, biblioteca, auditório, apresentações de monografias e demais ambientes do Centro de Humanidades da UNICE. Os embates ideológicos entre os dois ficavam então mais acirrados a cada encontro.
Numa de suas aulas, Nando discorria sobre o fato de a História ter como força motriz a luta de classes, segundo Marx. Tendo esta se originado a partir do surgimento da propriedade privada e meios de produção. E que o proletariado era obrigado a vender sua força de trabalho por apenas uma fração do valor real, restando à burguesia a apropriação do valor restante. Desde modo, Nando classificava-nos como escravos do capitalismo. Tendo então a primeira indagação de Maria Antônia:
- Bem, professor, se somos escravos, qual seria o caminho para a libertação?
Na sala, todos já ficavam atentos às intervenções de Maria Antônia, bem como às reações de Nando e suas explicações ideológicas. Este, por sua vez, já apresentava certa intolerância com as participações da jovem, por considerá-las somente uma tentativa de desconstrução daquilo que acreditava. Contudo, procurava manter-se firme na postura de professor, agindo como se fosse uma pergunta qualquer.
- Bom, minha cara, para pormos um fim à luta de classes, é necessário a implantação de um novo modo de vida.
- De que modo de vida o senhor se refere? Ao Socialismo?
- E por que não? Originalmente a sociedade não possuía divisões sociais. O excedente das forças produtivas sociais praticamente não existia, visto que seus resultados eram distribuídos igualmente, por todos os membros trabalharem no processo produtivo. Deste modo não havia a constituição de uma hierarquia, ninguém se sobre-saía.
- Talvez seja exatamente este ponto que hoje se distancie mais da nossa realidade, professor.
- O objetivo é esse, Maria Antônia.
- A realidade atual se constitui a partir da luta de classes. E para aniquilarmos com este processo, precisamos acabar com o capitalismo. É ele o grande monstro que nos engole a cada dia.
- Mas é exatamente essa distância da realidade que dificulta todo o processo e transforma a idéia de Marx numa gigantesca utopia.
Voltou-se ao restante da turma, completando:
- Eric Voegelin diz que Marx conduz o seu pensamento a uma realidade alternativa. E até brinca com essa idéia, afirmando que quando a realidade entra em conflito com ele, simplesmente é descartada.
Percebia-se claramente a consistência no pensamento de Maria Antônia, gerando-lhe confiança a rir e brincar com o assunto, o que irritava o meu filho. Embora fizesse um esforço sobre humano para manter a mesma calma evidente da jovem.
- Karl Marx nunca descartou a realidade...
- Professor, a aula acabou.
A fala de Nando fora então interrompida por Carola.
- Ok, pessoal, continuaremos na próxima aula.
Completou enquanto a turma já se organizava para sair da sala:
- Lembrem-se do seminário, próxima quarta. 
Estava certo de que a intenção de Maria Antônia era apenas de lhe confrontar e não construir algo produtivo. Aquilo o incomodava profundamente. Não obstante, preferia não lhe questionar mais extra-sala, pela certeza de que não chegaria a lugar nenhum, bem como para não validar o suposto objetivo da moça, imaginado por ele. Acabava, deste modo, evitando-a nos corredores ou até chegando a ignorar sua presença, ao se deparar com ela, em algum lugar da faculdade.

JÚLIA SERRADO
Capítulo 99

Desejava que Leonardo me ligasse. Achava curioso o quanto me sentia bem ao seu lado, como se experimentasse uma certa proteção. Não sei se pelo acontecido na porta da boate. Mas ele me passava uma energia boa, alguém que eu queria conhecer melhor, ser amiga quem sabe. Por trás da postura formal, existia um quê de afetividade que me chamava atenção. E era aquilo que eu desejava conhecer melhor. Não me interessava por nenhum tipo de relação amorosa, como brincava Raquel, com ele ou qualquer pessoa. O que acontecera com Pedro fora recente e eu ainda o amava, mesmo certa de que nunca mais estaríamos juntos.
Fiquei saltitante ao receber a ligação de Leonardo no dia seguinte ao encontro no shopping.
- Sente-se melhor?
- Acho que sim. Na verdade não foi a primeira vez que isso me aconteceu.
- Não podemos nos acostumar com atrocidades como essas.
- Sim, claro. Você tem razão. Mas no fundo, acho que a gente acaba acostumando, sabe? A violência é tão comum.
- Não gosto de pensar na banalização da violência, Júlia. Creio que fazemos muito quando não a vulgarizamos, dando-lhe a devida importância.
Senti-me um pouco embaraçada com suas colocações, como se não atendesse às suas expectativas, ou às minhas próprias expectativas. Podia perceber a seriedade com que ele tratava assuntos sociais como aquele. Constatava que verdadeiramente preocupava-se com o outro e aquilo me encantava naquele homem.
E então veio o convite, já no final da ligação:
- Podíamos almoçar qualquer dia, para conversarmos, se não for incômodo, claro. O que acha?
Desejava aceitar, mas poderia parecer que eu estivesse interessada em outra coisa, como pensava Raquel. Optei então por uma desculpa qualquer, perdendo a oportunidade de conhecer melhor uma pessoa que de fato parecia especial. E o pior é que tinha certeza que ele percebera minha hesitação, bem como meu desejo de aceitar o convite e que só tinha me negado, para que não pensasse mal de mim. Por um instante senti-me ridícula, embora ele se portasse discretamente diante de minha atitude infantil, como se não fosse o que nós verdadeiramente sabíamos que era.
- É uma pena. Mas não tem problema, encontraremos outra oportunidade.
Como eu havia sido burra! O que haveria de mal em almoçar com um novo amigo? Mas era como se traísse a memória de meu relacionamento com Pedro, ou limitasse definitivamente o resquício de esperança que ainda me restava numa reaproximação. Por mais que eu quisesse apenas uma amizade, sabia que no fundo, aquele homem estava interessado em algo mais. Ou melhor, não estava certa se era ele quem se encontrava interessado ou eu que desejava que o estivesse, não para viver algo novo, mas para alimentar meu ego. É bom para qualquer pessoa sentir-se desejada, eleva a nossa auto-estima e nos lembra que estamos vivos, como me dizia, muitas vezes,  D. Clarinda.
Hoje percebo o quanto fui vítima das tramas de minha mente. Fazendo-me de louca e esperando que as pessoas acreditassem em minha farsa. E quando não acreditavam, lutava com todas as minhas forças para provar a lucidez que é pseudo e encobria os desejos reveladores de minha alma.
Torci para receber uma nova ligação de Leonardo nos dias que se seguiram. Foi, contudo, na semana seguinte que tive a surpresa de sua presença na boate. Conversamos por algum tempo ele, Olívia e eu, sobre coisas sem muita importância, até que viesse de sua parte um convite para nós três almoçarmos juntos. Eram vinte e três e trinta e ele considerava tarde, por ter uma reunião importante na manhã seguinte. A proposta era que déssemos continuidade ao papo descontraído, o qual experimentávamos naquele momento. Aproveitei a carona de Olívia e também aceitei o convite para o almoço que seria dali a dois dias. Como não estaríamos sós, não me sentiria exposta ou que interpretasse mal.
Acabamos por almoçar somente nós dois. Surgira um problema numa negociação de Olívia e ela tivera que desistir do momento, colocando nas minhas mãos a responsabilidade de cumprir o combinado. Segundo ela, Leonardo era um homem extremamente ocupado e seria indelicado de nossa parte cancelar por completo o nosso encontro. Fomos então a um restaurante na Praia de Iracema antiga, que ficava na beira do mar, sendo separado da água apenas pelo calçadão. Ficamos no andar superior, de onde tínhamos uma visão privilegiada do mar.
- Como a dança surgiu em sua vida? – Leonardo perguntou logo que fechou o cardápio e fez o pedido ao garçom.
- Fiz balé, ainda menina. Fui criada somente pelo pai. Acho que ele tentando suprir a falta que uma família maior poderia fazer a mim, procurava ocupar bem o meu tempo, com diversas atividades. Mas a dança mexeu comigo.
- Então temos aqui também uma bailarina clássica. – Procurou saber, sorridente.
- Não. – Rimos juntos. – Eu era indisciplinada demais para a dança clássica. Logo eu percebi que a minha arte era outra. – Tentava conter meu cabelo, que o vento insistia em trazer para meu rosto. – E a dança moderna tocava mais a minha alma. Ainda adolescente entrei numa companhia, em São Paulo. Depois em outra, em recife. E aí acabei aqui. Hoje, na Mirage.
- Interessante porque você acabou conhecendo muitos lugares. -
- É, meu pai era da marinha. - Então vez por outra acabava sendo transferido, e eu ia junto, claro.
- E o que ele achava de sua profissão?
- Adorava me ver dançar. Acho que isso me incentivou bastante.
- Bom seria se todos os pais agissem assim, deixando que seus filhos descobrissem suas vocações. Talvez as pessoas fossem mais felizes.
- É, eu sinto isso na pele. A dança é muito importante pra mim, Leonardo. Quando eu estou dançando, parece que todos os meus problemas desaparecem.
- Então você tem muitos problemas?
- Acho que alguns... – hesitei, lembrando de Clara. – Mas bem sérios.
- Talvez a dança tire de você todos os pesos desses problemas, deixando transparecer a leveza de sua alma.
- Um elogio? – Perguntei, sorrindo.
- Uma constatação. – Completou, propondo um brinde com a taça de vinho.
Brindamos ao nosso encontro, ao prazer de estar ali, de frente para o mar, usufruindo de toda a beleza disponível naquele lugar.
O interessante era perceber a nossa sintonia de pensamentos.
- Falei de mim e de meu pai. E você? Como é sua família?
O vi hesitar, com um sorriso misterioso e provocativo.
- Sou viúvo há muitos anos, tenho duas filhas e dois netos. Não sou um artista de palco, mas faço arte em meu trabalho. Também não tenho o hábito de convidar amigas para almoçar, nem tampouco tomar duas taças de vinho em pleno horário de trabalho.
- Hum! Muitos detalhes escondendo mistérios. – Ri da prontidão da descrição. – Então proponho mais um brinde, por vivermos  o diferente.
E brindamos novamente. Estava feliz na companhia de Leonardo.
- Sinto que muitas coisas diferentes acontecerão em minha vida agora. – Disse ele, fitando os meus olhos.
- Espero que coisas boas. – Completei, sorridente.
Tratava-se de um homem extremamente viajado e inteligente. Apesar de não citar muitos lugares ou viagens, até por sua postura discreta, deixava escapar entre um comentário e outro, percepções acerca de questões culturais pertinentes a alguém que estivera e presenciara as manifestações em pauta, naqueles diversos ambientes. Rimos muito juntos e conseguimos nos desligar por completo de nossos trabalhos, dos problemas que nos afligiam ou me afligia.

MARINA PESSOA
Capítulo 100

Passei a tarde sozinha no apartamento de Holanda, com a saída de meu novo amigo para uma reunião de trabalho. Aproveitei para entrar em contato com Vanessa, por telefone:
- O que você quer agora? - Sua voz ao telefone era fria e cheia de rancor.
Por um instante pensei em nada dizer. Depois de passar por tudo o que eu estava passando, a única ajuda que de fato recebi era de um estranho. Sentia-me abandonada por minha irmã. Mas então lembrei da carta. Meu Deus, a carta a qual eu havia escrito a ela, forçada por Donato, falando atrocidades, que fora um engano nosso reencontro. Estaria ela com ódio de mim, e com razão.
- Vanessa, escuta. Estive presa todo esse tempo. Donato me forçou a escrever aquela carta pra você.
- Como é?
- Ele me manteve presa. A carta que você recebeu é uma mentira.
- Marina, onde você está? - Sua voz já trazia preocupação e cuidado.
- Agora estou bem, na casa de um amigo.
- Meu Deus! Onde, com quem você está, Marina?
- Eu vou poder ficar aqui alguns dias. Depois eu ligo e te falo.
- Me diz aonde você está, por favor! Eu vou aí te buscar.
- Não! É perigoso, ele pode me pegar!
Apavorei-me diante daquela possibilidade. E se Donato já tivesse entrado em contato com ela e a convencido de que eu estava louca?
- Depois falo com você, Vanessa.
Desliguei rapidamente. Encontrava-me de fato apavorada. E se Donato entrasse ali naquele instante para me buscar? Estava tudo acabado! Senti-me então desprotegida, meu coração palpitando. Não queria voltar para o cativeiro no qual havia se transformado a minha casa.
Se Holanda era conhecido de meu marido, como eu pensava que era, estando ele à frente da WM, a maior agência de publicidade de Fortaleza, talvez até pudesse procurar por meu marido e lhe dizer de meu paradeiro. Como deputado e diretor comercial da RTN, Donato era um homem influente, e Holanda talvez não quisesse se complicar.
Uma confusão se alastrava em minha mente e eu não tinha como controlar. Pensava em sair, fugir dali, mas também temia. Para onde iria? Todos poderiam estar contra mim, Holanda, minha irmã, todos! Se as pessoas não acreditassem que eu não estava louca, Donato venceria aquela batalha e levaria de volta para minha prisão. E aquilo eu não queria mais!
Quando Holanda chegou, estava eu num canto da cozinha, abaixada, escondida, tremendo, esperando ser pega por meu marido. Quase me desesperei, quando o ouvi se aproximando.
- Não, por favor não me entregue a ele! Por favor, não faça isso! - Estava em prantos.
- Mas o que é isso, Marina? - Seu olhar trazia um ar de lamentação e compadecimento.
- Você contou a ele?
- Contou o quê, a quem?
- Ele não pode saber...
- Saber de quê, Marina? - Afastava-me para que ele não me tocasse, não me levasse dali. - Calma! Eu não vou te fazer nenhum mal. Juro!
- Você disse a ele?
- Não, não falei nada a ninguém. É um segredo nosso, lembra?
Talvez tivesse razão. Eu precisava confiar em alguém. Além do mais, não poderia fazer ninguém pensar que eu era louca, como meu marido queria que pensassem. Principalmente Holanda, a única pessoa que podia me ajudar naquele momento. Segurei então sua mão estendida a mim, levantando-me com sua ajuda. Foi bom ser recebida em seus braços. Experimentei uma sensação de paz, que há muito não sentia.
- Agora tá tudo bem, viu? - Disse ele em meio ao nosso abraço, acariciando minha cabeça. Ficou ali comigo algum tempo, o suficiente para que eu me acalmasse. E eu me sentia verdadeiramente protegida em seus braços.
- Vamos fazer o seguinte. Hoje você vai comer uma massa feita por mim. A mãezinha sempre diz que cozinha para alguém é conquistar a sua confiança. Pode ser?
Eu fiz que sim com a cabeça.
- Então ótimo. Isso quer dizer que você quer ter sua confiança conquistada? – Parecia sério, mas era brincadeira. – Opa! Delete. Para conquistar algo precisamos do elemento “surpresa”. Então você não pode saber que está sendo conquistada. Quando se der conta, já foi. Entendeu?
- Tudo bem. Mas o prato precisa realmente ser gostoso. – Já estava entrando no espírito bem-humorado.
Sentei num banco da cozinha, enquanto Holanda preparava a massa.
- Sabia que eu sou especialista em macarronadas? – Disse, sorrindo, com um olhar que inspirava curiosidade. – Claro que talvez mais de boca do que de fogão. – Completou, ironizando a si mesmo.
E eu ri. Ele sempre era assim, divertido.
- Quem me ensinou a me virar na cozinha foi a mãezinha. – Partilhou Holanda. -  Achava que nós precisávamos saber de tudo para enfrentar a vida.
- Quem dera eu tivesse tido essa oportunidade.
- Não se preocupe, que tudo tem seu lado ruim. – Olhou firme. – Brincadeira. – Falou depois, sorrindo. Era somente para que eu não ficasse triste. – A mãezinha é maravilhosa. Deu muito amor pra gente.
- Onde ela mora?
- No Montese.
- Com seu pai?
- É. E meu irmão mais velho.
- Vocês se vêem sempre?
- Agora nós estamos mais perto.
- Por que agora?
- Lembra que eu falei da parte ruim? – Ele perguntou, sorrindo. Nada parecia ter peso. Eu compreendia. Holanda falava das diferenças. E como eu sabia daquelas diferenças. – Mas agora está tudo bem. Você não tem parte ruim, tem?
- Como você disse, todos tem.
- Claro que sim. Que burro.
E rimos.
Ele me falava de sua mãe, a senhora a qual eu havia visto nos porta-retratos do quarto de hóspedes. Descrevia-a como uma mulher de fibra, corajosa, virtuosa, uma grande amiga, de coração aberto, sempre disposta a amar incondicionalmente. Era assim que deviam ser todas as mães, ou todas as pessoas. Esquecendo o “quando” ou “se”, amando sempre.
Era aquela vida normal, tranqüila que eu queria pra mim! Por que Donato não podia me proporcionar aquilo? Tudo tão simples e poderia estar bem diante de nossos olhos. De repente um rapaz estranho, que até o início daquela manhã eu não conhecia, estava me mostrando tudo o que eu queria para mim.

MARINA PESSOA
Capítulo 101

Passei quatro dias com Holanda. Procurava me acordar logo cedo, para tomar café em sua companhia antes que saísse para a agência, embora depois voltasse à cama e dormisse mais um pouco. Almoçávamos juntos também diariamente. Ele sempre trazia comida pronta, bem como passávamos a noite assistindo filmes e programas na televisão por assinatura. Conversávamos e ríamos bastante.
Certa noite, achei estranho quando o vi falar ao celular com seu amigo Renato, e mentiu, afirmando ter passado aqueles dias sozinho. Talvez paranóia minha, estando ele apenas tentando me proteger e preservar o nosso segredo, como brincava.
Aqueles dias foi a melhor coisa que me acontecera naquela época. Se por um momento pensei que Deus havia me esquecido, estava então certa que não, Ele olhava bem por mim, colocara um anjo em minha vida. Talvez para me mostrar o quanto a felicidade é simples. Tudo poderia ser mais fácil se Donato fosse também um homem simples, menos importante, com menos atribuições, menos posição social. O que eu queria apenas era experimentar aquilo que eu estava vivendo com Holanda, ao lado de meu marido.
Tratei então de revelar a Holanda o meu desejo, para que não alimentasse nenhuma fantasia a meu respeito. Ele apenas sorriu, erguendo um copo com refrigerante.
- À nossa amizade. – Erguendo a taça para um brinde. E Completou depois de brindarmos: - Sabe? Eu sou um cara esperto. Não tenho o hábito de me apaixonar por mocinhas bonitas e interessantes. Até porque, meu coração é de pedra, eu jamais me apaixonaria por alguém assim, mesmo que eu corra o risco de perder o encontro com minha alma gêmea. E mais, não tenho também o hábito de obedecer o meu astrólogo, principalmente quando ele me diz que em pouco tempo eu a encontraria. Aí sim, eu vou querer distância, e até odiar essa pessoa, assim que eu a encontrar... na rua, fugindo e pegando carona comigo.
Paramos e olhamos um para o outro. Definitivamente, não sabia se falava sério ou não. Ele me olhava de forma firme. Então, ergueu uma das sobrancelhas, revelando com largo sorriso.
- Claro que eu tenho apenas que procurar esse astrólogo, “que eu não conheço”, pra ver se ele me diz coisa parecida.
E então, rimos.
Conversamos muito e aí sim lhe falei de meu relacionamento com meu marido, das insatisfações, das minhas amarguras, mas também do quanto ainda o amava e do quanto eu estava sofrendo com toda aquela situação de separação.
 Tudo estava perfeito em meu encontro com Holanda. Mas no dia seguinte seu amigo chegaria de viagem e eu precisaria estar longe dali. Caso contrário, aí sim, Donato saberia onde eu estava.
Holanda então procurara a minha irmã, deixando-a a par da situação. Vanessa decidiu pedir ajuda a Pedro, sendo ele sensato e um grande amigo meu. Acabei por passar alguns dias no apartamento de meu cunhado. Claro que Vanessa aproveitou a situação para estar mais perto do ambiente do ex-marido. Nunca os senti tão próximos de mim. Até Felipe fora me visitar, apesar da mãe não permitir com freqüência sua saída de casa.

* * *

Estávamos todos juntos novamente, Vanessa, Felipe, Pedro e eu, como uma família. Certa noite, ficamos ali, os quatro, jantando pizza, comentando de uma viagem a qual fizemos para Orlando e perdemos Felipe de vista, em plena Disney. Lembrava de minha angústia, a mesma a qual havia experimentado nos últimos cinco anos, ausente de minha família.
Tive também a visita de Holanda diariamente, durante o tempo em que fiquei hospedada no apartamento de meu cunhado. Ou ele passava pela manhã cedo, antes de ir para o trabalho, ou à noite, depois de sair. Foi numa dessas visitas, que ficou sabendo quem era meu marido. Ainda assim, manteve-se do meu lado, disposto a me ajudar no que eu precisasse. Diferente do que eu pensava. Achava que quando soubesse com quem eu era casada, se afastaria, por medo de se prejudicar. Admirei-o ainda mais e senti verdadeiramente que poderia confiar em sua amizade e lealdade. Não haveria outro motivo para ele se expor e querer me ajudar, se não por vontade de me ver bem e feliz, como dizia.

MARINA PESSOA
Capítulo 102

O convívio com Holanda fazia-me enxergar diversos  negativos em minha vida. Sentia-me fechada até então para estabelecer qualquer nível de amizade com qualquer pessoa que fosse, não por falta de desejo de interagir, mas por ter estado afastada do mundo, por exigência de Donato. Dizia ele estar me protegendo, por ser um homem importante, principalmente devido à política. Acho realmente que tudo piorara depois de ter entrado na política.
Era de meu conhecimento os conchavos políticos, as trocas de favores, os financiamentos os quais recebera de empresas particulares, para facilitar a inclusão destas empresas e seus serviços no governo após as eleições. Além das compras de votos, da contratação de cabos-eleitorais nos municípios do Estado. Estava custando caro a Donato aquela campanha eleitoral. Mas era a realização de um sonho.
Donato Pessoa só não esperava que fosse uma eleição tão difícil. Acreditava que havia feito os acordos certos e que a cadeira do senado já estava ganha. O dia da eleição pareceu interminável com os votos sendo disputados um a um contra seu principal adversário. E por diversas vezes meu marido foi deixado para trás, mesmo que com pequena diferença. Mas o suficiente para tirá-lo de seu controle e chegar a bater em Luísa, por ela confessar não mais acreditar na vitória. Jogava sobre a leal secretária toda a sua fúria e medo de rejeição. Ficara totalmente transtornado pela possibilidade de uma derrota.
Eu mesma tive dificuldade em votar naquele dia. Pensei diversas vezes em não comparecer, ou até em escolher outra pessoa, em quem eu realmente acreditasse. Mas se não o fizesse, era como trair meu marido. Foi um dia de tensão também para mim. Cheguei a partilhar meu impasse com Holanda.
“É tudo muito novo para você, Marina. Eu acho natural a sua dúvida. Hoje, faça o que seu coração pedir. Depois você terá mais tempo de amadurecer seus questionamentos.”
A fala de Holanda me veio como uma autorização para que eu fosse ainda leal a meu marido, mesmo sem acreditar em suas boas intenções políticas. Eu bem sabia o que Donato almejava. O sanado para ele não passava de reconhecimento de seu potencial, de poder. Assim como tudo em sua vida.
Donato Pessoa foi sim a minha escolha. Infelizmente! E com uma diferença de apenas cento e oitenta e três votos de seu principal adversário, conseguiu se eleger, em outubro de 2006, senador da república, pelo Estado do Ceará.
Meu marido parecia cada vez mais consumido pelo desejo de ascensão social e dinheiro, como uma forma de se compensar. Quanto mais ele se entregava aos seus desejos e se empenhava para conquistá-los, mais se afastava das pessoas, do coração, perdia sua afetividade. Mostrara-se romântico e cuidadoso a fim de me conquistar, um homem a quem eu não mais reconhecia.

* * *

Donato sofrera com o afastamento de Pedro, na época em que nos casamos. Considerava-o como sua única família e lhe doera optar por ficar comigo e se obrigar a perder o contato com seu melhor amigo, a quem considerava um irmão. Eu mesma cheguei a presenciar uma época, em que ele lamentava a falta da companhia, dos conselhos, da presença de Pedro. Bem como nutria uma gratidão por tudo o ele lhe havia feito no que diz respeito ao seu crescimento profissional. Sentia-se verdadeiramente grato tanto ao amigo quanto a Alberto Lucena, seu pai, a quem devia o primeiro emprego dentro da WM.
O fim da amizade de Donato com Pedro, parecia ter lhe endurecido ainda mais o coração. No fundo, não perdoava o amigo por ceder às chantagens de Vanessa, que o ameaçava se separar caso persistisse na relação. Sentia-se preterido pela mentira, pelo blefe de minha irmã, como se Pedro não tivesse levado em consideração todos os anos de amizade em que estiveram juntos.
Até então, Donato era atormentado por pesadelos, nunca revelados a mim, nem a ninguém, envolvendo Pedro e o fim de sua amizade. Quando despertava dos tormentos, recolhia-se na janela do quarto, ou no escritório, deixando-se consumir por seus pensamentos, sua dor. Naqueles momentos, meu marido passava-me tristeza, solidão e arrependimento por coisas nunca a ninguém reveladas. Ali, deixava-se transparecer frágil, perdia o ar de arrogância, a expressão freqüente de sarcasmo. Era tomado por uma verdade que só ele sabia qual era, a qual o fazia entrar em contato com a pureza de sua alma.
E eram naqueles momentos de fragilidade, que meu marido mais me fazia amá-lo. Desejava niná-lo, cuidar para que sua tristeza então exposta fosse por completo aniquilada. Lamentavelmente, ele nunca conseguira se abrir, deixar-me entrar um pouco em seu universo de segredos e escuridão, o qual tanto tentava esconder. Tornava-se aos poucos, um homem cada vez mais frio e obstinado a conseguir a superação financeira e de controle sobre o mundo e as pessoas. Acabava então enxergando cada pessoa como um adversário, alguém a ser vencido, uma ameaça ao seu mundo de vitórias e conquistas.

JÚLIA SERRADO
Capítulo 103

Estava certa em pensar que Leonardo poderia ser de fato um grande amigo. Tínhamos muito em comum e, diferente do que eu havia julgado, ele em nenhum momento tentara direcionar as nossas conversas para uma dimensão carnal. Via em mim certamente uma amiga, como eu a ele. Passamos a nos encontrar frequentemente. Uma vez ou outra aparecia pela boate, o que não acontecia comumente, mas marcávamos diversos programas como almoços, encontros rápidos em algum shopping ou café e passeios como o da Beira-Mar.
Ao descobrir que há muito Leonardo não caminhava no calçadão da Beira-Mar, tratei de levá-lo e fazê-lo experimentar de novo a simplicidade de um passeio que era tão comum para mim e distante de seu mundo. Aos poucos fui percebendo que não somente era um homem ocupado, como também importante. Evitava freqüentar lugares públicos e abertos repetidamente, e quando aquilo acontecia, sentia-o meio tenso, como que preocupado por alguma coisa. Certa vez chegara a me dizer que já fora acometido da síndrome do pânico. Uma explicação plausível!

* * *

Algumas vezes na semana Leonardo passava cedinho, ao amanhecer, em minha casa, para caminharmos na Beira Mar. Um hábito seu, que aos poucos eu aderi, sem lembrar que ali poderíamos encontrar Pedro, que caminhava diariamente. E foi o que aconteceu. Gelei quando o avistei, principalmente ao vê-lo cumprimentar Leonardo.
- Hoje acabei atrasando um pouco. – Explicou Leonardo a Pedro. E eu sem nada entender. De uma coisa eu havia percebido. Eles se conheciam muito bem.
 Foi perceptível o susto de Pedro quando se atentou que era eu a pessoa que estava ao lado de seu amigo.
- Olá. – Cumprimentou-me.
- Vocês se conhecem? – Surpreendeu-se Leonardo.
Houve um certo silêncio. Não poderíamos contar ali toda a nossa história.
- Júlia Serrado não trabalha na Mirage? – Foi Pedro quem falou.
E eu fiz que sim com a cabeça.
- Ah, claro. – Lembrou-se Leonardo. – Júlia, Pedro Lucena é um grande amigo.
- E companheiro de trabalho. – Completou Pedro.
Imanei que Leonardo devia trabalhar na RTN, ou em alguma empresa parceira, pela colocação de Pedro.
- Bem, eu já estou quase acabando a caminhada. E vocês? – Procurou saber Pedro. – Chegaram agora?
- Sim. – Disse Leonardo, ainda se alongando.
- Então nos vemos mais tarde. – Complementou Pedro, já se distanciando. – Até mais. – Olhou-me rapidamente, como se fôssemos dois desconhecidos.
Percebi diversos questionamentos no olhar de Pedro. E, de certo, Leonardo notara meu embaraço, meu isolamento instantâneo do mundo que experimentávamos naquele momento. Chegou a me perguntar por mais de uma vez se eu estava me sentindo bem.
Como nos sentirmos bem distante da pessoa que amamos? Meu coração ficou apertado com aquele encontro. E ainda avistei Pedro se distanciando, em sua caminhada, com passos bem mais velozes que os nossos. Estava suado e ofegante, exalando o cheiro que me fazia viajar a um universo de lembranças maravilhosas de quando estivemos juntos, nos amando. Leonardo nem poderia imaginar o que se passava em meu coração naquele instante, que aquele homem, o qual acabávamos de encontrar e cumprimentar, seu amigo ou conhecido, era na verdade meu grande amor. E ser tratada com frieza e distância por ele me machucava ainda mais. Não! Não poderia ser diferente. Eu não tinha como fingir que nada acontecera e, como Pedro não era um homem de fingimentos também, e eu bem sabia, estava então certa de que realmente nada mais sentia por mim, que fora um grande equívoco de seu coração e que o amor por ele experimentado pertencia de fato à memória de Mirela, minha irmã.

CELINA GONDIM
Capítulo 104

Em meio às preocupações com os problemas financeiros da RTN, papai vinha se mostrando mais alegre, espontâneo e feliz, por aquela época, como eu não o via há muito tempo. O que me deixava curiosa. Por ser um homem discreto, extremamente reservado, jamais revelaria facilmente o que estava acontecendo, o que vinha lhe proporcionando aquele ar de felicidade. Chegava a pensar realmente na existência de alguém, alguma mulher, o que até me fez comentar certa vez com Maria Antônia, que também vinha percebendo a diferença em seu humor. Tratavam-se, claro, apenas de especulações. Ele nunca mais havia se envolvido com alguém depois da morte de minha mãe. Até mesmo por conta das interferências de Maria Eugênia, que jamais admitiria nenhum envolvimento de sua parte com nenhuma mulher, àquela altura de sua vida, bem como nunca permitira. Se estivesse realmente vivendo alguma história com alguém, na certa não nos contaria inicialmente, por tentar preservar sua relação e salvá-la do controle e possessividade da filha.
Certa noite, ao entrar na sala de diversão de nossa casa, flagrei papai ouvindo alguns clássicos de valsa, os quais não curtia há muito tempo, e dançando sozinho de um canto ao outro do ambiente. Assustou-se ao perceber minha presença, demonstrando certo constrangimento ao não encontrar as palavras corretas para me explicar o que fazia ali, mesmo sem que eu lhe perguntasse nada. Foi então que tomei coragem e lhe indaguei:
- Está apaixonado, papai?
Meu sorriso e indagação lhe deixaram vermelho e um pouco desconcertado.
- Apaixonado, eu?!
- Seu olhar, sua alegria por trás das preocupações dos problemas da empresa. É uma energia que o denuncia.
Causei-lhe ainda mais desconforto. Mas era como se no fundo ele gostasse de ser flagrado naquele estado. Trazia no canto da boca, um sorriso tentando se esconder, que parecia confirmar todas as minhas suspeitas.
- Anda cheia de muitas idéias, minha querida. - Aproximou-se de mim, abraçando-me, como se me banhasse de afeto. - Precisa colocar essas idéias para fora, Celina. Vejo que sua alma clama por isso. O que acha?
Saíra-se muito bem de minhas interrogações, voltando sua atenção para meu caso e minha desistência do trabalho. Na verdade sempre aproveitava-se de qualquer situação para retornar ao assunto e tentar me convencer a voltar a fazer parte, mesmo que apenas como fonte de pesquisa e inspiração, da série Tente Outra Vez. O que já estava começando a me tirar um pouco a paciência, não apenas as suas inúmeras e incansáveis tentativas, mas de todos a minha volta. Cheguei a dizer a João Henrique que estava cheia das intromissões de minha família acerca daquele assunto. Pois já o considerava encerrado. Mesmo que realmente não estivesse, precisava de um pouco mais de tempo para respirar.

CELINA GONDIM
Capítulo 105

Talvez fosse João Henrique quem melhor compreendesse as minhas reservas, tendo ele que afastar a todos de seus sentimentos, permanentemente, pela pura necessidade de viver suas interrogações internas de forma plena e ao mesmo tempo discreta, sem que ninguém percebesse. Como a vez em que Alexandre resolvera dar uma festinha em seu apartamento, na ausência da mãe, convidando todos os colegas a fazerem parte do momento. 
João Henrique tivera que administrar os transtornos no final da festa sozinho. Carola acabara por brigar com o namorado, logo que descobrira ter sido uma festa organizada sem que sua mãe soubesse. Evidentemente, a garota considerara mais uma das irresponsabilidades do rapaz, negando-se à cumplicidade do evento. Deixara então a festa, acompanhada de Maria Antônia, embora meu sobrinho tivesse tentado a impedir. Carola pediu apenas que ele ficasse e, de qualquer forma, cuidasse para que o namorado não fizesse mais nenhuma bobagem.
Era então o dever de meu sobrinho cuidar de seu melhor amigo. E foi o que ele fez. Providenciou para que todos deixassem o apartamento, depois de Alexandre ter se trancado com uma garota em seu quarto. Encontrava-se completamente perdido diante de tanta bagunça. A bela decoração clássica de Olívia Cordeiro, fora afogada pelo lixo, restos de comida, copos, latas de cervejas e refrigerantes, garrafas de bebidas por todos os lados. Nem imaginava o que o amigo diria a mãe quando ela chegasse e se deparasse com aquele aspecto de destruição em seu lar. Por isso, tentara arrumar o que pudera, o que estava a seu alcance de fazer.
Ao entrar no quarto do amigo, João Henrique o encontrara caído no chão, completamente embriagado. Quase desacordado, Alexandre chegava a balbuciar algumas coisas, que ele não compreendia bem o que era. O ergueu então, com certo esforço, levando-o para o banheiro, a fim de que pudesse lhe dar um banho e aliviá-lo um pouco mais do efeito da bebedeira. Ficava ele imaginando como seria se Olívia chegasse naquele instante. Estaria ele também em maus lençóis, por ter sido cúmplice naquela loucura. Certamente, ela não acreditaria que ele tentara impedir o amigo e que este não lhe dera ouvidos. Até mesmo por ter participado de tudo e não ter ido embora juntamente com a irmã e Carola, como forma de protesto ao encontro. Mas ele jamais poderia abandoná-lo, sabendo que este precisava de proteção e até orientação para que de fato não cometesse mais nenhuma insensatez.
Desligando o chuveiro, João Henrique se dera conta de que precisaria tirar a roupa do amigo, para que não dormisse encharcado, perigando pegar um resfriado. Estava então ali, diante de Alexandre, e este, completamente entregue aos seus cuidados e a sua vontade. Pensara no que fazer. Como resolveria aquela situação? Fora novamente acometido de todo o nervosismo e excitação dos momentos em que se via próximo, diante do corpo do amigo. Só que daquela vez, poderia tocá-lo, sem nenhum problema e sentir o que há muito desejava.
João Henrique fora tomado de um tremor que dominava todo o seu corpo. Podia ouvir nitidamente as batidas de seu próprio coração, acelerado, bem como o som de sua respiração ofegante. Preso em suas dúvidas, temia fazer o que seu instinto lhe pedia naquele momento e se arrepender depois. Como explicaria para o próprio Alexandre se ele acordasse, exatamente na hora em que ele lhe tocaria? Ou ainda, como enfrentaria Carola, olharia para seu rosto depois de assediar seu namorado? Como se portaria diante de Maria Antônia e toda a sua família, depois de fazer tal absurdo? Eram muitas dúvidas que o faziam hesitar e o deixavam ainda mais nervoso. Bobagem! Ninguém aparecia e viria nada, nem mesmo Alexandre estava em condições de perceber e ter consciência de qualquer coisa que pudesse ali acontecer. Precisava, contudo, tomar uma atitude em relação ao amigo e seu estado.
João Henrique tirou a blusa de Alexandre rapidamente, num só impulso e era o que deveria fazer com todo o resto. O que teria demais um amigo despir o outro numa situação daquelas? Deveria se apegar somente àquela idéia, procurando desviar o pensamento da sensação que experimentava ao tocar, mesmo que de relance, o corpo do amigo. O tremor de suas mãos estava quase incontrolável no momento em que desabotoou-lhe o zíper. Teve certa dificuldade de retirar a calça molhada do rapaz, que parecia ter grudado em seu corpo. Era, daquele modo, inevitável tocar-lhe as pernas de cima abaixo. Seu tremor, fazia-se também empecilho no intento. Maior trabalho em retirar, encontrou na cueca. Não por questões práticas como a calça, mas por seu medo, a extrema alteração de suas emoções. Pensava que seu coração fosse sair pela boca. E finalmente viu. Alexandre, parado diante de seus olhos, inerte, sem roupa alguma, ostentando um corpo, que para meu sobrinho, era perfeito: ombros largos, peito saliente, abdômen bem definido, apresentando-se em músculos que evidenciavam as horas diárias de malhação. Corpo liso, sem pêlos. O rapaz estava meio excitado. Talvez pelo toque ansioso e trêmulo de meu sobrinho, quando fora lhe despir. Era a primeira vez que o via daquela forma, não muito diferente dos muitos outros homens guardados em suas revistas secretas, trancadas no fundo da gaveta do armário de seu quarto.
Fora uma grande provação para meu sobrinho, levar o outro rapaz, completamente despido, para a cama. Depois de deitá-lo, meio que bruscamente, como se quisesse fugir daquele instante, dera as costas a seu desejo, trazendo à memória a fala de Carola, pedindo-lhe para que cuidasse de Alexandre. Voltou então ao quarto, depois de pegar a toalha no banheiro, fitando aquele corpo inerte, à mercê de sua vontade. O corpo o qual desejara tocar tantas vezes estava bem ali diante de seus olhos e finalmente poderia fazer, sem nenhum problema aparente.
João Henrique aproximou-se cuidadosamente, como se achasse que a qualquer momento, Alexandre pudesse despertar de sua embriaguez. Achava-o lindo. Sorria, lembrando das loucuras e irresponsabilidades que tanto o encantavam. Já sentado na cama, ao lado do amigo, apreciava cada curvatura de seu corpo, cada músculo, os detalhes de sua tatuagem na pélvis. E ria, lembrando-se de Alexandre afirmando ser aquela marca em seu corpo fonte de charme e excitação para as mulheres. E de fato, a considerava extremamente sensual. Um golfinho azul pulando na água. Trazia-lhe pureza e erotismo ao mesmo tempo. A tatuagem contrastava com a excitação plena do rapaz. O que deixava meu sobrinho ainda mais nervoso, sem entender por quê, se Alexandre tinha consciência ou não do momento. E se não tinha, pelo menos sentia, era óbvio.
Talvez fosse a primeira vez em que João Henrique estivera tão perto de um corpo masculino despido, podendo fitá-lo sem ter que desviar o olhar. O homem de quem estivera mais próximo até então fora Donato Pessoa, o marido de sua mãe, quando era ainda um garotinho de sete ou oito anos. Por mais que não gostasse da relação hostil estabelecida com aquele homem, por sua rispidez, não podia negar para si mesmo o quanto tinha curiosidade em lhe espiar, nos momentos em que entrava no banheiro da mãe e o flagrava despido diante da pia ou no chuveiro. Achava-o lindo, e sentia-se culpado por aquilo. Mesmo sem admitir, o padrasto fora certamente uma de suas primeiras paixões.
Estava então mais perto do que nunca do corpo que tanto desejara, podendo fitá-lo incessantemente. Entretanto, João Henrique só conseguira tocar-lhe a mão. O que ainda lhe causara certo susto, por sentir a reciprocidade do amigo, apertando-lhe o toque. Certamente não sabia o que fazia. E sentiu-se finalmente um traidor, como se estivesse contra toda a sua família, a amiga Carola, e principalmente, o próprio Alexandre, despido ali, entregue à confiança no amigo. Não poderia fazer aquilo, ou mais do que já havia feito. Ergueu-se rapidamente, cobrindo-o com o lençol.

JÚLIA SERRADO
Capítulo 106

Sentia-me desolada, mesmo com a companhia maravilhosa e inovadora de Leonardo. Tratei então de ligar para o facilitador do grupo de Biodança, sondando se teria condições de eu participar de uma sessão. Talvez não fosse possível, por ser o mesmo grupo de Pedro. Fui, contudo, surpreendida por um “sim”. O facilitador não via problema numa visita e até ressaltara a alegria que os participantes sentiriam ao me ver novamente, depois de alguns meses afastada.  E ele estava certo. O grupo me recebera com todo o calor de antes. Aproveitei e procurei me nutrir de cada abraço de boas vindas, como se me fortalecesse, desse-me energia para continuar.
Ficamos então sabendo, através dos avisos estruturais que antecediam à verbalização, que Pedro, como outros participantes, não estariam naquela sessão, por compromissos de trabalho. Entristeci-me e ao mesmo tempo pensei que poderia ser melhor, afinal tudo o que eu não precisava naquele instante era encontrar com ele e lembrar de nossa separação. Senti uma alegria renovadora, no entanto, quando Adriano Cordeiro chegara ao salão. Era como se pudesse sentir através dele a presença de Pedro, já que eram tão próximos, tão amigos e cúmplices. Além do quê, ele sabia de tudo e, diferente de seu amigo, acreditava no meu amor.
Logo após a verbalização da sessão de Biodança, no intervalo que antecedia o momento de exercícios, pude então trocar algumas palavras com Adriano.
- Você e Pedro se encontraram na Beira Mar? – Adriano procurou saber.
- Foi, muito rapidamente.
- Ele me disse que você estava com Leonardo.
- Você também o conhece?
- E muito. Somos amigos desde a adolescência.
- Que bom, Adriano. Como esse mundo é pequeno!
Mas percebi um olhar de dúvida no rosto de Adriano.
- Faz tempo que vocês se conhecem?
- Algumas semanas, uns dois meses talvez.  Nos conhecemos na Mirage.
- Ah, certo.
- Mas não há nada entre nós. – Deixei claro, para que não houvesse dúvidas. E ele riu. O Adriano tem sido um bom amigo. Engraçado que diante desse turbilhão de coisas que tem acontecido na minha vida, nesses últimos meses, têm aparecido também pessoas muito especiais. Você é uma delas.
- Obrigado, Júlia. – Agradeceu, sorridente. – Eu gosto de você, sinto sinceridade na sua fala.
- Obrigada! – Tomei o resto de água no copo. Tive então coragem de perguntar o que estava me martelando há muito tempo: - Adriano, o Pedro e a Vanessa reataram o casamento?
- Não. – Surpreendi-me com a prontidão de sua resposta.
- Não mesmo? Mas eu estava sabendo que eles haviam voltado às boas.
- Você não estava bem informada. – Sorriu. – Júlia, eu confesso que torço por vocês. Espero sinceramente que você e o Pedro se entendam.
- Ele diz que não me conhece.
- É difícil para ele, você precisa entender. O Pedro está muito machucado. Mas nada que o tempo não resolva. O que você fez, Júlia, foi muito grave. As desconfianças dele são apenas parte das conseqüências. Você precisa enfrentá-las com a mesma força vital que lhe impulsionou a provocá-las com suas ações. É assim que crescemos na vida. Encarando de frente os resultados ruins de nossas atitudes. A culpa ou a dor do arrependimento podem causar uma fuga de nossas responsabilidades. E aí deixamos de aprender com essas situações que nos convidam a nutrir nossa coragem, e podem promover nosso crescimento.  
- Eu estava certa que tudo havia acabado.
- Se você acreditar nisso, certamente terá acabado.
- Mas então você acha...
- Como eu disse, Júlia, eu torço por vocês. – Interrompeu minha fala, sorridente. Eu acredito sim que pode dar certo. Mas é você que precisa acreditar, se quiser realmente reverter esta situação.
Um grande sorriso dominara meu rosto até o início dos exercícios da sessão, uma alegria impossível de se conter, como se uma pontinha de esperança renascesse em meu coração. Pude me sentir ainda mais inteira e plena nos exercícios, feliz com as revelações de Adriano.
O sentimento que vinha forte naquela sessão de Biodança era limpeza e transformação que eu necessitava em minha existência. Não sei se por coincidência ou providência do universo, o facilitador nos convidou a realizarmos uma dança individual de transformação, na qual pudéssemos ser a própria música, com movimentos que denotassem a metamorfose que somos. O som dos instrumentos sinfônicos presente na música, facilitava o processo e fazia-nos experimentar uma sensação de completo e êxtase. Cada pessoa na sua vivência, no seu momento. E quando abri os olhos, fui surpreendida pela presença de Pedro, que dançava quase ao meu lado. Parecia ter chegado logo no início daquele exercício e se juntara ao grupo, na vivência. Meu coração disparou e me impulsionei a ir ao seu encontro, logo que o facilitador nos convidou a ficarmos em dupla, para um novo exercício.

CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 107

Maria Antônia procurava fingir não ligar para o gelo que meu filho vinha dando nela, mesmo quando a amiga Carola ressaltava sua percepção de que Nando tratou como se ela não existisse. No fundo, ficava furiosa, e depois de algumas vezes, partilhou seu incômodo também com a amiga. Afirmando a certeza de que ele fazia a propósito, talvez por medo de lhe enfrentar e se perder em seus discursos ideológicos. Contudo, verdadeiramente não sabia se era proposital ou se sua presença era realmente algo não percebível para ele, o que deixava claro nas indagações feitas à amiga.
- Será que realmente ele não viu? O que você acha?
Maria Antônia se via realmente afrontada por meu filho quando ele fingia não perceber sua presença, ao lado de Marluce, filha de Ceiça, e sua eterna apaixonada. A jovem a considerava uma puxa-saco de Nando, quase uma idiota, por não ter opinião própria, segundo ela, e estar sempre dizendo amém a tudo o que ele proferia. E mais, por estar permanentemente em sua presença, chegar e sair juntos, muitas vezes, da faculdade.
Todos dentro do centro de humanidades, comentavam da paixão de Marluce por meu filho, bem como ela não ser correspondida. Maria Antônia também formara opinião sobre o assunto. Acreditava que Nando alimentava a ilusão da imbecil, segundo ela, a fim de assegurar a manutenção de seu poder e se sentir capaz diante de todos, como aquele que apaixona e pode, o desejado, o inteligente, o todo poderoso.
- Esse cara é realmente um arrogante! Será que ninguém saca isso?
- Amiga, não te passou pela cabeça que ele não está a fim? Ponto. – Fora questionada por Carola.  
- Se liga, Carola. Todo burguesinho enrustido precisa de um saco de pancadas, um puxa-saco, pra ser mais precisa. Ele usa essa panaca como súdita dele. E isso me dá náuseas. Detesto quem não tem opinião própria!
Até o olhar apaixonado de Marluce enojava a Maria Antônia. Dali a pouco, já se incomodava com o jeito de falar, vestir ou qualquer expressão da moça.
- Maria Antônia, eu nunca te vi não gostar de alguém assim, gratuitamente. Fala sério, menina. O que essa Marluce te fez?
Realmente nada. O simples fato de ela existir e se mostrar apaixonada por alguém tão arrogante e insuportável, segundo ela considerava, como meu filho, já a motiva ao nojo, embora não expressasse.  A própria Carola lhe indagara também se não se tratava de ciúmes, para o repúdio da amiga.
- Ficou louca?!
Jamais admitiria aquilo, nem para si mesma. Convivendo com a mãe e o padrasto, Maria Antônia aprendera a detestar a figura de pessoas que se sentiam donas da verdade e demonstravam desprezo ou menosprezo por aqueles a quem consideravam de nível inferior. Nando, acabava por lhe lembrar tal arrogância, embora que no âmbito do conhecimento.
- Eu abomino tudo o que impõe, seja que idéia for, se são impostas, por si só, já são nocivas. – Dizia ela, indignada pelas lembranças da dura educação a qual recebera da mãe e as intervenções do padrasto. Mesmo que nunca tivesse baixado a cabeça e aceitado o autoritarismo o qual testemunhara o irmão e a tia se entregando.
Meu filho, por sua vez, flagrava-se freqüentemente lembrando da postura firme e impetuosa de Maria Antônia. O que lhe causava admiração, também lhe chegava como repúdio. Admirava-lhe a coragem e inteligência, e repudiava-lhe as idéias as quais defendia. Considerando-a imatura e arrogante por desrespeitar, segundo ele, uma ideologia de tal porte em função de seus caprichos de menina mimada, ou seja, a fim de superar seu professor.
Nando era consciente do incômodo que passara a causar a Maria Antônia ao ignorá-la fora da sala de aula, por isso investia cada vez mais em sua tática, como forma de punir a jovem e ensiná-la como respeitar seu professor. Este último objetivo fora inclusive questionado por Holanda, numa das inúmeras conversas travadas entre os dois sobre a “meninazinha arrogante da faculdade”, como se referia a ela, algumas vezes.
- Mano, será que não é você que está sendo arrogante, quando exige uma forma de postura dela em relação ao seu pensamento, somente por ser o professor? Por que punir alguém por discordar de nossas idéias?
A intenção de Holanda era apenas de iluminar a sua visão. E embora Nando não concordasse inicialmente com as colocações do irmão, ficara se questionando sobre sua postura enquanto professor e facilitador da construção do saber. Encontrava-se tão obcecado pela ideologia defendida em suas aulas, que se esquecia da didática ou do pensar sobre o processo ensino-aprendizagem. E de repente, lembrou-se de uma fala da própria Maria Antônia em que afirmara ser ele um professor do tipo que não admitia ser questionado pelo aluno.
A conversa com o irmão, pelo menos ajudara meu filho a refletir sobre sua postura, mesmo que somente na ausência de Maria Antônia. Ao se encontrarem e percebê-la, na sua visão, tentando chamar sua atenção, defendendo idéias contrárias às suas, voltava a enxergá-la com a mesma arrogância de antes, considerando-se tolo por chegar a pensar de forma contrária.   

CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 108

Meu filho Holanda vinha se cansando cada vez mais da relação forçada com Renato Brandão. Conseguira inclusive respirar mais aliviado depois de uma viagem juntos ao Rio, por alguns dias, a fim de participarem de reuniões importantes na matriz da WM, com o presidente Willames Macena e representantes das diversas filiais. Meu filho deixara seu parceiro, que aproveitaria para ficar um pouco mais de tempo com seus familiares, e voltara logo após os trabalhos. Aproveitando o tempo sozinho para refletir sobre a difícil situação.
Já não suportava mais o convívio e os ciúmes do parceiro. Renato enxergava traição até mesmo onde não havia. O que provocava o desgaste da relação ainda mais. No próprio dia da viagem para o Rio, imaginara um jogo de olhar entre meu filho e a recepcionista da empresa aérea. O suficiente para cobranças de respeito e mais uma discussão infundada.
A verdade era que Renato vinha percebendo a mudança no sentimento de Holanda, nos últimos anos, e fora também construindo uma imagem do parceiro como um homem mulherengo e mal resolvido em sua sexualidade. Em nenhum momento duvidara realmente do amor de meu filho para com ele, mas acreditava em suas traições como forma de compensação e culpa de viver uma relação homossexual. Aquela crença o motivava a lutar pela manutenção da união, embora estivesse certo de suas traições. Amava-o perdidamente e não estava disposto a perdê-lo.
Holanda sabia que o parceiro presenciara determinadas situações que o levara a estruturar a crença de traição a seu respeito. Contudo, não admitia as acusações, sobretudo por ser inocente e nunca ter cedidos às incontáveis tentações. Talvez fosse exatamente isso a sua maior raiva. Era acusado de algo que desejara intensamente fazer e não o fizera por falta de coragem e respeito a Renato.
Os dias afastado do parceiro e o convívio com Marina Pessoa, depois de ajudá-la a fugir do marido, compartilhando sua história de insatisfação dentro de seu casamento, faziam com que meu filho percebesse a transformação no que sentia por ele.
Holanda fora verdadeiramente apaixonado há cinco anos, quando conhecera Renato. Não se tratava somente do universo de conforto e ascensão profissional os quais pudera lhe proporcionar, nem do prazer intenso experimentado nas relações sexuais, mas do cuidado mútuo estabelecido na união, da magia encantadora da descoberta nos olhares e toque de mãos. Sim, fora completamente apaixonado por Renato Brandão e enxergava a intensidade daquele sentimento primeiro na fala de Marina acerca do marido. E aquilo o confortava ao mesmo tempo em que lhe tirava o juízo. O conforto se dava por se perceber como um homem honesto para com alguém a quem só lhe dera amor. O conflito, contudo, se fazia presente pela certeza de que o amor havia acabado.
Percebia claramente naquele instante, que seu problema não era por ser mal resolvido sexualmente, como Renato afirmava, mas por não experimentar o mesmo amor de quando o conhecera. Se naquele momento não se interessava mais por algum homem e sim por mulheres, era porque seu coração assim o queria. Talvez o que seu parceiro não teria alcance então, fosse de quão sublime era o amor, por conseguinte sem forma e sexo.
A tese de Holanda fora, deste modo, comprovada certa tarde, ao vir de moto do apartamento de Pedro Lucena, o cunhado de Marina Pessoa, onde a deixara. Ao parar em um sinal fechado, percebera-se fitar o corpo de um rapaz, sem camisa, no volante de um bugre, que aparentemente vinha da praia. Observara cada detalhe aparente do corpo bem definido e malhado do estranho ao veículo, sentindo-se atraído por ele.
Meu filho partira daquele sinal tomado de felicidade. Não era somente o fato de se vir atraído por um homem qualquer na rua, mas, sobretudo a possibilidade de envolvimento com qualquer pessoa, independente do sexo. Diferente do que pensava anteriormente, estava então certo de sua paixão inicial por Renato Brandão. Não era, daquele modo, um homem inescrupuloso o qual se envolvera com outro homem apenas para subir na vida. E mais do que tudo, sentia-se aliviado, feliz por si mesmo. Certificar-se de sua bissexualidade significava a redenção, depois de anos sofrendo por se considerar um crápula.

JÚLIA SERRADO
Capítulo 109

Aquela sessão de Biodança estava perfeita. E eu em dupla com Pedro para realizarmos um exercício. O convite da nova vivência era que fizéssemos um caminhar confiante, de olhos fechados, sendo guiados por nosso par, que caminharia bem atrás de nós. E depois pudéssemos inverter, para que quem guiara pudesse então ser conduzido e vice-versa. A proposta da consigna do facilitador era para vivermos a entrega, o se lançar na vida e a confiança no outro.
Para mim, não seria difícil aquele exercício, pelo contrário. Tudo o que eu queria era poder ser protegida por aquele homem, estar em seus braços e sentir o seu carinho, o seu cuidado. A sensação que eu tive foi de que estávamos sozinhos ali, que não havia mais ninguém, visto que ele me protegia de qualquer contato com outras duplas, como o facilitador havia frisado, anteriormente. A música instrumental e tranqüila fazia-me viajar em um universo escuro e acolhedor. A conexão com a vivência não me impedia de sentir o calor de Pedro ao meu lado, seu toque suave cuidando para que eu não esbarrasse em nada e nem em ninguém. Findamos com um caloroso abraço, a convite do facilitador. Com a cabeça em seu peito, pude ouvir as batidas aceleradas de seu coração. Estava ele também nervoso com aquele momento e eu, finalmente, podia sentir. Desejei que aquele instante não acabasse e pareceu de fato uma eternidade, como se não existisse mais nada em nossas vidas senão nós dois ali, abraçados, experimentando o calor um do outro.
Guiar o homem que eu amava por aquele salão seria para mim uma experiência redentora, muito significativa. Não somente cuidar de um companheiro de Biodança, mas me redimir por tudo o que eu lhe havia feito. Ele, no entanto, tentou se deslocar, já de olhos fechados, e teve uma certa dificuldade de entrega, desistindo do exercício. Tive vontade de sumir daquele salão! Não sabia se chorava, se insistia ou tentava lhe convencer do contrário. Tudo fora confuso e rápido. Olhei para o facilitador, que estava ao fundo, perto do som, como se procurasse desesperadamente por um socorro, sentindo-me acolhida por ele, através de seu olhar. Depois veio seu sinal para que eu me sentasse e aguardasse um pouco, talvez até que o exercício finalmente acabasse. Procurava fugir meu olhar de Pedro, sentado do outro lado do salão, quase defronte ao lugar onde eu ficara. Não me interessava saber como estava emocionalmente, queria apenas sumir dali e deixar de sentir a frustração que me consumia naquele instante. Por algum tempo senti raiva pelo que ele fizera comigo. Seria uma oportunidade para transcendermos a tudo aquilo e Pedro optara por não se render ao convite do momento.
Depois de ter o exercício com Pedro interrompido por ele, rezei para que a sessão acabasse logo. Não conseguia mais me concentrar em nenhuma vivência, senão no quanto havia me sentido ridícula por tê-lo procurado no salão e alimentado mais uma vez a esperança de que podia ser diferente e talvez até nos entendêssemos.
Foi Adriano Cordeiro, que na saída do salão, chamou-me para um canto, a fim de que pudéssemos falar a sós. Intercedendo pelo amigo, pediu-me para me colocar em seu lugar, no que representava aquele exercício para Pedro, depois de tudo o que vivera comigo, de experimentar a traição. De fato seria difícil para ele conseguir se entregar sem hesitar, sem trazer à memória toda a dor, a mentira, a sua frustração de ter seus sonhos quebrados por mim. Eu bem entendia a intervenção de Adriano. Torcia por nós e queria nos ver juntos mais uma vez, pelo menos que tentássemos. Ele só não conseguia compreender que não era mais a vontade de seu amigo.
Encontrei-me novamente numa situação um tanto constrangedora, com a aproximação de Pedro, já preparado para ir embora.
- Com licença. – Disse ele. Fitei a carteira e relógio que trazia na mão, como forma de desviar meu olhar e não ter que encará-lo. Não queria que percebesse as lágrimas que insistiam em inundar meus olhos. Ele completou: - Eu poderia falar com você só um instante, Júlia?
Nem acreditei quando ouvi aquela pergunta. O que queria comigo afinal? Tive vontade de me negar e sair dali, evitando qualquer contato. Adriano então saiu, deixando-nos sozinhos por alguns minutos.
- Se é sobre o que aconteceu no salão, não se preocupe, Pedro. Está tudo bem. Eu entendi o que aconteceu.
Não, não entendia coisa nenhuma, mas não queria dar o braço a torcer, piorar ainda mais aquela situação. Pelo contrário, queria acabar logo com aquilo e ir embora dali.
- Queria apenas que você soubesse que não seria fácil pra mim.
- Eu já entendi. - Falava sem conseguir erguer a cabeça.
- Olhe para mim então, Júlia. - Esperou que eu me voltasse a ele e, finalmente, tocou-me no queixo, ajudando-me a levantar a cabeça. - Não quero que se sinta mal com o que aconteceu há pouco. São questões minhas, não suas. Júlia, temos que estar inteiros no salão e eu não conseguiria, entende? Seria uma violência. Não seria bom nem para mim, nem para você.
E finalmente tive coragem de falar, embora que com a voz meio embargada pelo choro que insistia em se fazer presente:
- Eu queria apenas uma chance, Pedro, só isso.
- Cada um de nós tem seu tempo. Júlia, nós estamos em momentos diferentes. Falo de sintonia, entende?
Até aquela explicação me doía, pois era como se ele testemunhasse a nossa falta de sintonia, a diferença gigantesca de mundos que nos separava. E eu nada mais tinha a dizer. Foram em vão as tentativas de Adriano. Pedro estava de fato irredutível e eu estava cansada de ser pisada por sua indiferença.
- Claro, Pedro. Eu já entendi! Diz para o Adriano que eu deixei um beijo.
E quando ia saindo, ouvi a indagação:
- O Leonardo é a sua nova investida?

MARINA PESSOA
Capítulo 110

Pouco depois de meu aniversário, o primeiro passado distante de meu marido, após nosso casamento, fui surpreendida por sua presença no apartamento de Pedro, procurando por mim. Gelei ao abrir a porta e me deparar com ele, bem ali diante de mim, sem que ninguém soubesse. Pensei em fechar a porta e impedir sua entrada. Mas logo percebi a necessidade de enfrentá-lo. Por mais que eu o temesse naquele instante, ainda era meu marido. E precisávamos resolver nossa história de uma vez por todas. Não poderia passar o resto da vida fugindo, como no último mês. Coisas importantes haviam acontecido na vida de Donato, como a difícil eleição ao senado, que fazia poucas semanas. Para sua surpresa, tivera uma vitória apertada, por pouco não ficara de fora. O que o deixou um pouco abalado. E eu, ausente de tudo.
Afastei-me da porta e dei-lhe as costas, como se pensasse no que falaria ou procurasse de alguma forma uma proteção.
- Você está feliz com o resultado das eleições? – Era uma forma de quebrar o gelo. – Queria tanto ser senador.
- Fiquei feliz por conseguir a vaga no senado. Mas confesso ter ficado um pouco triste pelo número de votos. Nós esperávamos bem mais.
- Eu votei em você. – Lembrei do quanto havia sido difícil. Por muito pouco, não votava em outro candidato. Mas eu devia pelo menos aquilo a ele.
- Pensei que não votaria.
- Mas eu votei. Apesar de não acreditar mais em você.
- Fico muito feliz por ter feito isso.
- Eu não me sinto feliz por isso, Donato. Hoje existem coisas mais claras em minha cabeça. Você não é um representante do povo.
- Isso é idealismo, Marina. – Julgou, com desdém.
- Para mim não. E você me dizendo isso, eu me sinto ainda pior.
- Mas eu não vim aqui para falar de política. – Aproximou-se de mim. – Eu sei que agi muito mal, Marina. – Já podia senti-lo bem perto de mim. E então prosseguiu: - Mas eu te amo e preciso de você perto de mim. - Sua voz trazia uma certa tristeza. Uma verdade que nunca antes deixara transparecer em nenhum testemunho. Só então pude me voltar a ele, com meus olhos transbordando em lágrimas.
- Eu não consigo mais reconhecer o homem por quem eu me apaixonei!
- Esse homem ainda está aqui, disposto a lutar, com todas as suas forças, para salvar o seu casamento.
- Eu tenho medo de você!
Aquela afirmativa veio carregada de mágoa e tristeza, por tudo o que ele havia me feito nos últimos cinco anos.
- Eu te amo, Marina!
Pela primeira vez vi seus olhos nadarem em lágrimas. Finalmente a crosta de ódio e rancor a qual parecia nutrir em sua vida, era quebrada e se revelava a mim, um Donato Pessoa que eu nunca havia conhecido. Caí em prantos, mas precisava lhe falar.
- Você acabou com tudo! Todo o sonho, toda a magia foi sendo destruída por você, por sua ambição, por sua dureza. Eu não me reconheço mais nesse casamento, Donato!
E finalmente, uma lágrima solitária banhava seu rosto.
- A vida não foi muito generosa comigo, Marina...
Pausou um pouco para tomar fôlego e prosseguiu, deixando-se invadir pelas lágrimas.
- Tudo o que eu tenho hoje, tudo o que eu sou, eu devo a mim e meu esforço, com muita luta, muita dor, muita destruição deixada pelo caminho, muita saudade! Nada foi fácil. Eu perdi todos os que amava, assim, num piscar de olhos, bastava eu relaxar e dar as costas, a vida tratava de me tirar as pessoas que faziam parte da minha vida. Você nem pode imaginar o que significa isso pra mim.
Enfim, o homem que eu amava, estava ali, despido em sua verdade, pela primeira vez. Muita mágoa e ressentimentos se expressavam em suas palavras. E de repente, estava eu sentada, ouvindo toda uma história a qual eu clamara nos últimos cinco anos, para fazer parte. Donato Pessoa, bem diante de mim, falando com dificuldade, tomado pela amargura, mas com medo de me perder. Trazendo à tona segredos nunca antes revelados.
Donato fora abandonado por sua mãe ainda bebê na porta de uma casa, sendo criado por uma família humilde em Fortaleza. Crescera com o desejo de mostrar seu valor e despertar o orgulho daqueles que o criaram. Era ainda menino, quando presenciara a morte da mãe adotiva, assassinada por um assaltante, na esquina de casa. Bem como teve que aprender a lidar com a perda do pai, no ano seguinte, depois de um infarto fulminante. Fora então educado pela irmã mais velha, já casada na época, com quem vivera até os doze anos, para então morar num abrigo de menores. A irmã fora, segundo ele, obrigada pelo marido, que não suportava a sua presença, a abandoná-lo. No fundo, esperava que fosse mais corajosa e o enfrentasse.
Passou então a ser visitado pela irmã, pelo menos uma vez por mês, embora soubesse do esforço que ela fazia para ser possível aqueles encontros, sem que o marido descobrisse. Depois de completar a maior idade, pedira que não mais o procurasse, como uma forma de puni-la por tê-lo abandonado.
Falou-me daquilo com tanta dor, que as palavras pareciam não querer sair. Era uma parte de seu passado a qual de fato deseja esquecer, apesar de se fazer presente constantemente em sua vida, tornando-o incrédulo no ser humano e o motivando à superação permanente de si mesmo. Uma história ainda temperada com freqüentes situações de humilhações vividas por ele na época de escola, episódios que retratavam suas inúmeras tentativas de inserção em determinados grupos sendo fracassadas, com desdém por parte da turma.
A confissão de meu marido me fez enxergá-lo como uma pessoa simples, provida de problemas e confusões mentais como qualquer outra. Passei a percebê-lo não mais como uma máquina, mas como alguém necessitado de muito amor e proteção. Um homem clamando pela superação, não de sua condição social ou situação financeira, mas dos fantasmas de seu passado que o atormentavam e faziam dele uma pessoa desacreditada do mundo. 

Pensei no quanto havíamos precisado daquela conversa. Talvez se tivesse acontecido antes, tanta coisa ruim pelas quais estávamos passando, teria sido evitada. Todavia, sabia também que tudo tinha seu momento. Necessitávamos naquele momento decidirmos o que fazer, que caminho tomar. 

JÚLIA SERRADO
Capítulo 111

Como uma pessoa tão boa poderia se mostrar tão fria. Pedro intencionava na certa me atingir com aquela pergunta, e não apenas saber sobre meu relacionamento com Leonardo. Voltei-me então a ele com ódio, desejando agredi-lo.
- Deve ser por isso que você é tão infeliz e conseguiu ficar casado por doze anos com uma mulher que não ama, por ter uma mente imunda, encoberta por belos discursos e uma imagem de homem bonzinho!
A minha afirmativa não o desequilibrara por nenhum momento, como eu queria, não sabia se por ser frio e calculista ou por não fazer nenhum sentido para ele.
- Desculpe, Júlia, mas é que sei que continua se encontrando com Donato Pessoa. Não sei se ele é seu ex-parceiro ou se ainda trabalham juntos. E dele eu não duvido nada. Pode estar querendo alguma coisa também de Leonardo, não sei...
- E conseguiria através de mim?
- Como fez comigo.
Queria bater nele, por ser tão burro e não enxergar o que era óbvio, o meu amor por ele. Eu estava transtornada de raiva.
- Você de fato não é nada do que eu pensava! Além de burro é um cretino!
Deixei-o e então me veio a vontade de ainda completar minha afirmativa:
- Ah... e eu agora espero realmente que nós nunca mais nos encontremos!
Saí do instituto, completamente transtornada. Fui chorando até a parada de ônibus que ficava na Rua Costa Barros, ao lado, no quarteirão seguinte. Fora uma das viagens de volta para casa, mais longas que eu já havia feito. A indagação de Pedro ficava voltando segundo após segundo a minha cabeça, o que fazia com que eu nem me importasse com as pessoas, no ônibus, que me olhavam curiosamente. A única imagem que eu conseguia enxergar era a do homem que eu amava perguntando-me se Leonardo era a minha nova vítima.
Foi então que eu tomei a decisão de viver a verdade sempre, independente da situação e da pessoa, como fora antes de perder minha filha e conhecer Donato Pessoa. Deste modo, o meu primeiro encontro com Leonardo, depois daquele dia com Pedro, foi marcado por muitas revelações. Se eu queria viver a verdade, não poderia omitir coisas tão importantes da minha vida para alguém com quem eu estava construindo uma amizade. E diferente do que Pedro pensava, eu não tinha nenhum interesse além do que uma amizade verdadeira com Leonardo.
Para a minha surpresa, Leonardo também me fizera grandes revelações. Estava eu diante do dono da RTN, uma das maiores emissoras de televisão do país. Eu já tinha desconfiado que era um homem importante, mas não que se tratava de um dos maiores empresários de Fortaleza, ou de maior destaque. Por isso tinha tantas reservas em andar em lugares públicos, obrigara-se a estar comigo desprovido de seu grupo de seguranças particular, para que eu não desconfiasse de nada. Chegara a pedir a Olívia que nada me dissesse acerca de sua verdadeira identidade.
- Desculpe-me, Júlia. Eu me tornei um homem conhecido, poderoso. – Eu não conseguia definir se o tom de Leonardo era de uma simples explicação ou de vaidade. – Isso fez de mim uma pessoa visada, alvo de pessoas interesseiras.
- Você achava que eu havia me aproximado de você por conta de seu dinheiro? – Procurei saber, meio indignada. – Eu não acredito, Leonardo!
- A questão não se resume a você, Júlia. Mas a todas as pessoas.
- Você está equivocado. – Sentenciei.
- Não, minha querida. As pessoas querem estar perto do poder, ficam cegas por sua causa. E isso me amedronta.
- Leonardo, você fala das outras pessoas ou de você mesmo?
Se Leonardo estivesse falando dele mesmo, era uma faceta que eu não conhecia naqueles meses de amizade. Experimentava então uma pontinha de decepção.
- Claro que se trata das outras pessoas, Júlia. – Ele foi enfático. – Eu construí um império. O que atrai os olhares de muita gente. Diversas pessoas já tentaram se aproveitar, de mim, da minha família. O dinheiro, o poder é muito importante para muita gente neste país, Júlia.
- Leonardo, eu jamais me interessei por posição ou me aproximei de alguém para tirar alguma vantagem. – lembrei de Pedro e do acordo com Donato Pessoa. Logo, corrigi: - Exceto no caso de Pedro Lucena. Mas a minha intenção não era o poder, o dinheiro. Era apenas encontrar a minha milha.
- Hoje eu sei. – Deixou escapar aquilo como se já soubesse de toda a minha história, mas somente naquele momento tivesse certeza de minhas intenções.
- Espera aí, Leonardo. – Eu precisava saber. – Você já sabia de tudo?
Ele fez que sim com a cabeça.
- Infelizmente um homem na minha posição precisa tomar algumas precauções, Júlia.
- Você me investigou?
- Foi necessário, minha querida.
Por um instante, senti-me traída, exposta.
- Eu não acredito! – Desabafei.
- Lamentavelmente, este tipo de medida faz parte de minha vida, Júlia. Já foram muitos tombos. Tento apenas me proteger.
- Para mim esse tipo de coisa não parece real. É como se fosse uma ficção.
- Mas é necessário.
- Leonardo, não é um exagero?
- Não. Não se trata apenas do meu dinheiro, da minha importância dentro da sociedade de Fortaleza. Eu sou dono de uma das maiores emissoras de televisão do país. O poder não se resume no dinheiro, mas também na imagem. Para muitas pessoas ela é mais importante do que qualquer coisa. E eu tenho em minha mãos um instrumento de construção e propagação de imagem, compreende?
- É estranho ouvir você falar assim. Parecia não se importar com esse tipo de coisa. Nunca falamos sobre isso.
- Não havia necessidade ainda. E eu precisava me resguardar.
- Ouça, Júlia. Minha família e eu já fomos vítimas de diversas investidas de pessoas interesseiras. Isso fez com que eu passasse a tomar alguns cuidados. Não investiguei sua vida por mal. Acredite. Tentei apenas me proteger. Estou sendo sincero.
- Sim. Apenas me vejo distante desse universo descrito por você.
- Por isso hoje você é tão importante para mim. Júlia, não tenho muitos amigos. Minhas relações são bem restritas. O poder tirou muito de minha privacidade.
A única coisa que eu achava estranha era um tom meio vaidoso que se presentificava em sua fala quando ele se considerava detentor de todo aquele poder. Antes, Leonardo não parecia dar nenhuma importância a questões materiais, embora eu já tivesse percebido que se tratava de uma pessoa bem relacionada e de ótima condição financeira.
- Ao ponto de investigar as pessoas para poder se relacionar com elas?
Definitivamente não se tratava de uma atitude natural, ao meu ver.
- Pode parecer uma atitude extrema, Júlia. Mas eu quero apenas estar seguro de onde estou pisando. Essa é a minha história.
Leonardo parecia estar sendo honesto comigo. E aquilo me tranqüilizava um pouco. Fazia tempo que eu não experimentava confiança mútua. De certo, seríamos grandes amigos e eu me via extremamente feliz com aquele passo na relação com Leonardo. Sua primeira providência foi pedir ajuda a um amigo, que era repórter investigativo da RTN, sem que eu soubesse, para descobrir o paradeiro de minha filha. Estava verdadeiramente empenhado em ajudar a encontrá-la. Tanta felicidade não cabia em mim quando ele me trouxera as primeiras informações sobre Clara. Nem podia acreditar que alguém estava do meu lado e me ajudaria a encontrar minha filha, depois de quase um ano, que o roubo havia acontecido.

CELINA GONDIM
Capítulo 112

João Henrique estava em casa, tomando um banho, sem conseguir tirar da memória todos os momentos anteriores passados ao lado de Alexandre. Vivia uma mistura de êxtase e tristeza simultaneamente. Chorava e ao mesmo tempo saboreava o prazer da lembrança de ter estado abraçado com o amigo, carregando-o para a cama, sentindo o calor de seu corpo embora que molhado. Podendo estar tão perto, próximo a sua fonte de desejo e prazer. Sofria pelo mesmo motivo. O que acontecera outrora era fonte de alegria e ao mesmo tempo de pesar. Como sentir aquilo por um homem? E pior ainda, pelo melhor amigo, de quem Carola confiara a proteção.
O jovem João Henrique Gondim considerava-se um doente, por se possibilitar a vivência de tal absurdo. Chorava a dor de seu castigo. Assim tomava o desejo que sentira por homens desde a infância. E se perguntava por que, indagando de Deus qual o motivo daquela aberração, de ser portador daquela doença.
Meu sobrinho procurara se resguardar por alguns dias, até fugindo de Alexandre, sem atender suas ligações. Achava que poderia ele ter percebido algo e se lembraria de como o olhara no quarto, depois do banho ou ainda sua excitação e nervosismo ao tirar-lhe a calça, sua ereção, ao carregar o corpo do amigo, que certamente ele deveria ter sentido de relance, quando o colocava na cama.
- João, preciso falar com você sobre aquela noite da festa. – Anunciou Alexandre, no primeiro encontro com meu sobrinho. Deixando-o apavorado. Tinha a certeza de que o amigo lembrava de tudo. Assim, estaria perdido!
- O que você quer saber? – Quase não saiu a fala de meu sobrinho. Seria a hora da verdade. – Pode perguntar. – Mas seria melhor que não perguntasse. Podiam fingir que nada havia acontecido. E ficaria tudo bem.
- Cara, eu fiquei maluco com aquela noite.
João Henrique tinha as mãos úmidas pelo nervosismo.
- E por quê? – Até sua voz estava trêmula.
- E você acha pouco o que aconteceu?
- Alexandre, eu posso explicar.
- Não. Não precisa explicar nada. Isso é loucura, meu!
- Eu também tinha bebido um pouco, cara. Acho que eu não estava em mim. – Menti. Nunca tive tanta consciência de algo.
- E o que isso tem a ver?
- Eu... – Tentava encontrar as palavras certas. Como explicaria? – Eu não sabia direito o que estava fazendo. – A voz de João Henrique vinha carregada de tenção. – Eu juro, Alexandre!
- O que tu tem a ver com isso, meu?
- Como o que eu tenho a ver com isso? Fui, fomos nós.
- Nós o quê, maluco? Do que tu tá falando?
- Espera aí, você está falando de quê?
- Da Carola. Ela pediu um tempo, tu acredita?
João Henrique sentou na poltrona da sala, com as mãos na cabeça, dando graças a Deus pelo que estava ouvindo. Alexandre não falava do que havia acontecido no quarto entre os dois, ou melhor, do que meu sobrinho tinha feito com ele, enquanto dormia. Na certa, nem lembrava. Ou não tinha se dado conta realmente.
- E qual o motivo? – Procurou saber meu sobrinho.
- Quer pensar melhor a relação. – Arremedou a moça, desdenhando da atitude. – Vê se pode, cara. Disse que a gente vai ficar longe até que eu tome juízo. Isso é uma merda! Ela pensa que eu não sei o que ela tá querendo.
- E o que é que você acha?
- Con-tro-le. – Disse soletrando, como se ostentasse um letreiro com a palavra no ar. – Saco, cara! Já não basta a mamãe em casa, agora a Carola também tentando me controlar. Isso é forçação de barra.
- Alexandre, eu penso que não é por aí.
- Como não? Tem que ser do jeito dela. Não é assim, João.
- A Carola tem investido na relação de vocês. Ela gosta de ti. Só não concorda com o tipo de vida que você leva, entendeu?
- Não. Se ela gosta de mim, tem que ser do jeito que eu sou. Senão ela não gosta de mim. Ela gosta do que eu posso ser.
- Não é nada disso, cara. – Tentou explicar João Henrique. – Ela só acha que você não tem investido na relação como ela. A Carola sempre quis algo sério.
- Eu também, meu. Eu adoro essa gata.
- Mas não é o que parece. E ela tem percebido isso.
- Percebido o quê, cara? Você não vazou nada pra ela, vazou?
- Claro que não. A Carola quer apenas que você tenha um pouco mais de responsabilidade. 
- Como a minha mãe. Não falei?
João Henrique tentava abrir os olhos de Alexandre. A própria Carola já o havia procurado, falando de seu afastamento e que só reataria com ele se percebesse alguma mudança ou promessa da mesma, a partir de qualquer atitude que fosse, como voltar à faculdade.
Só havia uma forma de João Henrique se redimir, segundo ele, pelo acontecido no dia da festa, na casa de Alexandre, seria ajudando a reatar o namoro dos amigos. Sua missão naquele instante, seria então convencer o rapaz a voltar a freqüentar a faculdade, para aí conseguir com que Carola repensasse sua decisão.  

CELINA GONDIM
Capítulo 114

Minha enfermeira Dulce estava decidida a convencer o namorado Djair a reconsiderar sua atitude de manter a relação dos dois em segredo. Dizia encontrar-se cansada de viver aquela relação clandestina, sustentada supostamente pela sogra que nem a conhecia, e desejava ver o filho, segundo ele, servindo somente a Deus. O que eu achava no mínimo curioso era ela nem desconfiar daquela história, sendo o Djair um homem com uma idade média de quarenta anos. Se ele quisesse realmente entrar para um seminário, e fosse da vontade de sua amada mãe, como afirmava, com certeza já seria padre e não um motorista. Cheguei a questionar aquela história, mas logo o malandro, indagado por ela, inventara mais uma de suas desculpas absurdas, dizendo ter sido um chamado da mãe, depois de um grave problema de saúde que ele tivera há uns três anos, pouco antes de começar a trabalhar em nossa casa.
Para qualquer deslize, Djair encontrava imediatamente uma desculpa, embora que estapafúrdia, alcançando seu intento. Certa vez até indaguei a Dulce se realmente falava sério, quando me expunha uma dúvida acerca da honestidade do namorado, no que dizia respeito ao caso da suposta promessa de sua mãe. Ora, deveria me perguntar sobre a honestidade dele como um todo e não apenas naquele caso.
- Não sei não, viu? Essa história está me cheirando à mentira, e das brabas! - E quando eu pensava que ela finalmente estava caindo na real: - Acho que ele tem algum problema de saúde e não quer me contar. Só pode ser... que ele me ama eu tenho certeza. A não ser que essa mãe dele seja uma megera... Não sei não, viu?
Meu Deus, que cabeça pequena aquela! A ingenuidade de Dulce me deixava abismada. E aí vinha uma série de histórias de sua família ou de alguma amiga que haviam vivido situações semelhantes às suas suposições. Casos contados simultaneamente, como de costume, sem que eu pudesse realmente separar uma história da outra. Quando eu pensava que ela falava de uma pessoa, já estava citando outra. Depois, sem que eu pudesse me dar conta do exato momento e que acontecia, já entrava em outro exemplo ou voltava aos anteriores, causando uma confusão em minha cabeça. E o mais interessante, era ela não se perder em nenhuma de suas conversas.

* * *

Certa tarde, Dulce se deparara com algumas coisas do jardineiro Zeca na mesa da cozinha. Ele parecia ter deixado lá, para atender a um chamado urgente de Lorena, a mando de Maria Eugênia. Junto com algumas compras, produtos de higiene pessoal, estava uma carta da tal namorada, com quem se correspondia, e entre as três páginas da correspondência, supostamente, uma foto da mesma. Sem que ninguém percebesse, pegara o documento e levara consigo. Em seu quarto, ela absorvera rapidamente todas as informações ali contidas naquelas folhas, bem como fitou, curiosamente, por um bom tempo, a foto.
Dulce queria compreender o que existia naquela relação que deixava o jardineiro arrogante e apaixonado, segundo ele mesmo afirmava. Bem como a diferença a qual o próprio Zeca ressaltava freqüentemente entre sua namorada e ela, e tanto a incomodava.
A mulher era realmente bonita, como o rapaz afirmava e parecia em suas declarações, extremamente apaixonada por Zeca, falando da saudade e do repúdio ao que os impediam de estar juntos. O que aguçou fortemente a curiosidade de Dulce.
- Não sei não, viu? Eu preciso descobrir que segredo é esse, o que esse jardineiro arrogante esconde de todos nós.
Para Dulce, descobrir o que sustentava a separação daquele casal seria naquele momento um grande objetivo, talvez para fugir da realidade enfrentada por ela em sua relação com Djair. Parecia na verdade, sentir um pouco de inveja por não viver uma relação com tantas declarações de amor, quanto à de Zeca e a moça da carta, de quem não descobrira o nome, por assinar-se apenas como “seu grande amor”.
Quando Dulce retornou à cozinha para devolver a carta ao lugar de onde havia pego, a confusão estava armada. Zeca voltara para pegar suas coisas e se deparara com a falta da correspondência de sua namorada. Encontrava-se furioso, enquanto Mena e Djair tentavam lhe acalmar e cogitar supostos lugares onde ele teria esquecido o que procurava. Contudo, sua fúria se nutria por ter a certeza de que havia deixado a tal carta ali, juntamente com suas compras, para atender o chamado de Maria Eugênia. Minha enfermeira tratara de esconder os papeis dentro da roupa e aproximou-se da confusão.
- Que barraco é esse aqui? Não sei não, viu? Tem funcionário que não se enxerga. Está pensando que é dono aqui, é?
Procurava disfarçar, embora não parecesse tão espontânea, como de costume.
Zeca voltou-se a ela, como se soubesse quem tinha pego a carta.
- Se eu descobrir quem fez isso, eu acabo com a raça.
Dulce olhou para um lado e outro rapidamente, pensando numa boa resposta, mas sabia que naquela situação não tinha razão.
- Arrogante como sempre! Não entendo como essa sua tal namorada diz que te ama tanto, um troglodita desses.
- Como é? - A afirmativa de Dulce o deixara ainda mais desconfiado. - Como sabe do que ela sente por mim ou o que ela fala pra mim?!
Já estava bem perto de minha enfermeira, como se quisesse realmente lhe intimidar. 
- Sei lá... - Saíra de perto, para não ter que o olhar nos olhos, procurando encontrar um rápido subterfúgio que a tirasse da enrascada que ela mesma se colocara. - Não sei... você... você deve ter me dito... foi isso, você deve ter me dito. Arrogante como é, deve ter me dito, para cantar de galo.
Dulce conseguira escapar, embora tenha deixado Zeca e Mena num alto nível de desconfiança de que fora de fato ela a responsável pelo roubo da carta. A própria Mena, depois daquele episódio, lhe indagara se realmente não havia cometido a besteira.

JÚLIA SERRADO
Capítulo 115

Fui apresentada por Leonardo a Tancredo Flores, um excelente repórter investigativo que fizera carreira numa grande emissora, no Rio de Janeiro e há pouco fora contratado a peso de ouro pela RTN, voltando a Fortaleza, sua cidade natal, de onde saíra há mais de vinte anos, para cursar a faculdade de jornalismo. Com sua experiência consagrada estava a minha esperança de reencontrar minha filha. 
O repórter Tancredo Flores descobrira que Clara ficara com um casal, numa casa em Aquiraz, por algum tempo, até que o verdadeiro casal que havia pago por ela, viesse buscá-la. Era na verdade, um casal de holandeses. O homem aparentando uns cinqüenta anos e a mulher uns quarenta. Tancredo já estava providenciando um retrato falado dos dois, a fim de que a polícia pudesse localizar seu paradeiro. Tudo indicava que nunca haviam saído do Brasil. O problema era que as pessoas que deram a ele todas essas informações tinham sumido da cidade misteriosamente, há alguns dias. O objetivo então era primeiro achar o casal nordestino, para depois chegar aos holandeses. E finalmente eu teria minha filha de volta.
Tancredo trabalhou duro tentando achar pistas do casal de Aquiraz, através de parentes e amigos dos mesmos, na cidade. Descobriu por uma moça, que parecia ter tido um caso com o senhor que ficara o tempo com Clara, que os dois, marido e mulher, haviam se mudado para Maracanaú, cidade da família da senhora do casal. Após descobrir o endereço da mãe da referida senhora, finalmente poderia procurá-la. Até então, não estava envolvendo a polícia, a fim de que, pudesse obter todas as informações de que precisava, sem afugentar as suas fontes. A mulher chamava-se Dorotéia e resistira um pouco em dar qualquer informação, como fizera outrora, e só concordara em o fazer, depois de ser ameaçada de cadeia.
Tancredo pode perceber que Dorotéia estava com muito medo, tinha perdido o marido há pouco mais de um mês, ou pelo menos achava que tinha perdido. Expedito saíra de casa, para comprar pães e não mais voltara. Depois se soube na vizinhança que haviam ouvidos uns tiros e a descrição da vítima batia com a de seu marido. Ela ficara sabendo que os assassinos pegaram o corpo e levaram consigo. Não tinha certeza então se era realmente o marido ou não. O fato é que nunca mais o tinha visto. E temia também por sua vida.
Tratava-se na certa de uma quadrilha. Dorotéia sempre se referia ao responsável pela venda de minha filha como “eles”, e temia que algo pudesse lhe acontecer como a seu marido. Contara a Tancredo, contudo, que o casal de holandeses só viera pegar Clara, alguns meses depois do roubo e que fora apenas contratada para cuidar da criança, mesmo sem saber ao certo do que se tratava. O pouco que sabia, fora de conversas ouvidas atrás da porta e que seu marido era envolvido com “eles”.  A informação mais importante que dera a Tancredo havia sido a do taxista que levara os holandeses de Fortaleza a Aquiraz, por se tratar de um homem conhecido do dono de um comércio na esquina onde moravam. Dorotéia parecia tê-lo visto conversando com esse senhor, perto de sua casa, e percebia que os dois se tratavam de forma íntima.
Uma nova pista que fez com que Tancredo descobrisse o nome do taxista. Chamava-se Ulisses e fazia ponto em frente a um hotel, na beira-mar de Fortaleza. Pelo menos já estava descartada a hipótese do casal de holandeses ter se hospedado no referido hotel, onde o taxista fazia ponto. O pior fora também constatar que Ulisses simplesmente havia deixado de aparecer no hotel, e já tinha algum tempo. Procurando então se informar com seus colegas taxistas ali de frente, Tancredo ficara sabendo da localização de sua casa. A estratégia era procurar Ulisses e obter informações sobre o casal de bandidos que comprara a minha filha. 
Cada notícia que Tancredo ou Leonardo me trazia, lembrava-me da proteção Divina, do quanto eu tinha sido descrente e naquele momento Deus se mostrava a mim, sem nenhum esforço de minha parte, como se me confirmasse o caminho errôneo que eu havia escolhido inicialmente na ânsia de encontrar minha pequena. Nada, nada vale a pena quando não temos fé.
Eu então estava certa de que a verdade deveria prevalecer a todo custo, independente do que pudesse acontecer. Fora um momento de fraqueza no qual eu havia me perdido de mim mesma, enchendo-me de soberba ao achar que poderia ser eu a responsável por meu destino. Como se fosse minha a força maior. Naquele instante eu concluía que somos responsáveis por nossa história, não pelo nosso destino, e que nos afastamos de nossa essência quando nos aproximamos do desejo de possuir a nossa vida, trazendo-nos transtornos irreparáveis.

* * *

Estava perto de me reencontrar com Clara e aquilo me aproximava ainda mais de Leonardo. Partilhávamos o assunto mais importante de minha vida, o qual passara a ser também prioridade para ele. Era o que me encantava em nossa amizade, a disponibilidade, a preocupação, a vontade de me ver bem e feliz. Falava de Clara como se tivesse a certeza que a encontraria e a traria de volta pra mim. E eu lhe seria grata para sempre. Como um homem tão ocupado, com tantos compromissos e tão importante, poderia destinar tanto tempo a mim, uma simples professora de dança? Mais um de meus modelos mentais era desfeito por Leonardo. Eu começava a perceber que o dinheiro não era necessariamente o que definia as relações entre as pessoas, mas o afeto nutrido entre elas. O dinheiro até poderia impedir o encontro, mas depois desde acontecer, não seria ele o responsável por seu direcionamento. E isto faz de todos iguais.
Compreendia, daquele modo, como temos discursos de igualdade, mas somos nós os primeiros que mitificamos os portadores de fama e dinheiro, destinando-os a um universo pertencente à outra dimensão. E então, quando nos deparamos com nosso mito bem diante de nós mesmos, percebemos que ele não passa de nossa própria imagem refletida em um espelho. O que eu havia percebido em relação a Pedro e naquele momento também com Leonardo.
Chegava a pensar algumas vezes que nunca temos tudo o que queremos. Perdi minha filha e havia encontrado um grande amor, do qual então me distanciava cada vez mais, exatamente no instante em que voltava a ter esperanças de me reencontrar com Clara.

CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 116

Holanda permanecia chateado por eu ter retirado a queixa contra seu pai e tê-lo trazido novamente para casa, por isso ficara um tempo afastado. Era Nando e a prima Tony quem ouvia seus desabafos.
- Eu estou decidido a pôr um ponto final na minha história com o Renato. – Holanda revelou ao irmão e à prima.
- Você tem certeza, mano? – Procurou saber Nando.
- Você está louco, Holanda! – Constatou Tony. – O Renato é um homem maravilhoso, faz tudo o que você quer.
- Mas eu não o amo mais. – Holanda completou simplesmente. – Tony, eu nunca estive com o Renato pela ajuda que ele me deu profissionalmente ou pelo dinheiro dele. Ele foi o primeiro homem com o qual eu me envolvi. Eu me apaixonei por Renato. Certo que ele me apresentou um universo que mudou a minha vida. Mas não é isso que define nossa relação.
- Besteira, cara. – Tony se mostrava contra a decisão. – Pode até ter rolado sentimento sim. Mas esse mundo que o Renato te apresentou deu um brilho a mais à relação de vocês. E colaborou pra aumentar esse sentimento que você diz sentir por ele.
- Tony, você pode até ter razão. Mas não é isso que sustenta a minha história com o Renato. Não é o que vai sustentar. – Explicou Holanda.
- Eu só acho que você deve ter certeza do que vai fazer para não se machucar, nem ao Renato. – Colocou Nando. – Ou melhor, estar certo de como vai fazer. Que você não gosta mais dele, isso é óbvio, mano.
- Definitivamente eu não concordo. – Esclareceu Tony. – Além do Renato ser um cara legal é rico, lindo e apaixonadiiiiiiíssimo por você. Daqui a pouco você não vai ser somente o diretor superintendente da WM de Fortaleza, mas dono. DONO. – Repetiu com ênfase. Sabe o que isso significa, Holanda?
- Tony, pega leve, não é? – Disse Nando, achando absurda e até engraçada a colocação da prima.
- Pega leve nada. – Retrucou ela. – A gente tem que ser esperto, meu filho. E um outro peixe como o Renato Brandão não vai cair assim tão fácil na rede do Holanda não. – Voltou-se a Holanda. – Você tem que segurar esse com toda a sua força, meu filho. Não deixa ele escapar.
Holanda apenas sorriu, balançando a cabeça.
- Pela Tony eu estaria balançando a bolsinha no Passeio Público. – Ironizou.
- Balançar a bolsinha não combina muito com você. – Tony deitou-se no colo do primo. Sempre tiveram uma relação de muita proximidade e afeto. – Você é muito machão pra isso.
- Eu machão? – Holanda deu uma gargalhada. E os dois riram. – Ah, priminha, você é mesmo maluca.
- Cuidado com esses conselhos. – Preveniu Nando.
- Pode deixar. – Holanda respondeu com largo sorrindo.
- Pode deixar nada. Eu não vou permitir que você faça nenhuma besteira. – Avisou Tony, deixando o colo do primo. – O Nando não é uma boa companhia.
- Não é? – Perguntou o próprio Nando. 
E eles riram novamente. 
- A minha decisão está tomada. – Afirmou Holanda. – Eu não posso mais permanecer dentro de numa história pautada na mentira de sentimentos. Eu não amo mais o Renato. E tem mais: quero estar livre para viver outras histórias, outros encontros.
- Eu não vou permitir. – Finalizou a prima.
Era compreensiva a postura de Tony. Gostava muito do primo e torcia para que crescesse profissionalmente. Na verdade, ela lhe era grata por tudo o que ele havia feito, pela proteção quando ainda morava conosco e depois pelo apoio ao tentar a vida fora de nossa casa. Holanda representava seu porto-seguro e ainda o único familiar dentro do universo o qual ela desejava participar. Em sua presença, Tony não se sentia tão abandonada.
Graças a Deus meu filho não dera ouvidos à prima. As questões profissionais jamais lhe impediriam de pôr um ponto final da história com Renato, ou cavar uma transformação. Sentia um carinho profundo, além da gratidão, sem falar no respeito por tudo o que haviam vivido juntos. O que lhe era suficiente para manterem uma relação de amizade.

* * *

Holanda foi pegar o parceiro no aeroporto e estava decido a terminar a relação logo que chegassem em casa. Este, por sua vez, além de movido por uma intensa saudade, encontrava-se desolado pelo estado de saúde da mãe, que havia descoberto um câncer no seio e provocara um clima de comoção dentro da família. Renato chegara a chorar dentro do carro, a caminho de casa, ao falar no assunto, afirmando necessitar intensamente de seu apoio e amor.
Meu filho tivera razão em adiar a difícil conversa. Não era momento para se terminar uma relação, precisava estar ao lado do companheiro, dando-lhe forças naquele momento, embora que apenas inicialmente. Seria egoísmo de sua parte se desconsiderasse a situação e pusesse o tão esperado ponto final. Antes de mais nada, Renato era um grande companheiro, e aquilo seria o mínimo a ser feito, depois de tudo o que os dois viveram nos últimos cinco anos.
Foram dias sufocantes os que se seguiram depois de meu filho não poder acertar os ponteiros com o companheiro. A cada “bom-dia”, a cada beijo, a cada exposição da necessidade de carinho por parte de Renato, Holanda se sentia ainda pior, forçado a uma situação a qual desejava não mais experimentar. Contudo, mantinha-se firme na sustentação momentânea do relacionamento, em nome do respeito a toda a história vivida por eles durante os últimos anos. 
Quem vibrou com a situação de Holanda foi Tony, que torcia por seu relacionamento com Renato. Não que lhe desejasse mal, mas por considerar verdadeiramente o melhor para o primo.

CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 117

Eu me tranqüilizava quando sabia de Tony na presença de Holanda, como se a sentisse mais próxima e protegida ao mesmo tempo. Seu relacionamento e parceria com Guel Serrado causavam-me pânico.  Desde a primeira vez que o havia visto, meu coração palpitara não se tratar de um bom homem, como se pudesse sentir a maldade em seu coração, envolta na beleza e charme aparente.
Mamãe sempre dizia: “Me digas com quem andas e eu te direi que és”. Eu bem sabia da revolta que minha sobrinha carregava consigo, por algo o que eu não tinha o alcance de perceber. E isto poderia ser potencializado na companhia de alguém a quem sintonizasse a sua amargura. O que eu temia, era exatamente ser Guel a pessoa que ela procurava para dar vazão ao seu lado impuro.
E eu estava certa. Guel Serrado e minha sobrinha faziam então um belo par de golpistas, os quais tinham em Olívia Cordeiro a vítima perfeita. E esta por sua vez, já havia caído na armadilha, encontrando-se extremamente envolvida no jogo de sedução de Guel, pensado por eles.
Depois de alguns dias e muita ansiedade por parte de Olívia, após um jantar de reencontro, ela se entrega a uma noite de prazer ao lado do golpista. Era de fato um profissional e sabia como fazer para enlouquecer uma mulher na cama. O quarto de seu apart-hotel fora o cenário perfeito para proporcionar a Olívia uma noite de amor intensa que há muito não experimentava. Ele fazia-se parecer o homem mais apaixonado na entrega e sedução simultânea, bem como no cuidado com cada detalhe, a fim de tudo parecesse perfeito e mágico. O ambiente, tivera, claro, o toque de Tony, pouco antes de chegarem ali, deixando velas acesas pelo caminho até à cama, champanhe e tudo o que encantaria a vítima, fazendo-a acreditar ser a mulher mais amada do mundo.
Mais uma tacada de mestres maquiavélicos. Olívia se desfizera dos escombros que a soterravam, deixados pelas frustrações e fracassos dos relacionamentos anteriores e começava pensar nesse novo homem permanentemente, nutrindo a possibilidade de um novo amor. Guel, por sua vez, mostrava-se cada vez mais apaixonado e empenhado em realizar as suas vontades. Bastava que Tony descobrisse um desejo da vítima, através das produtivas conversas com Izaíra, para a sua realização por parte do grande sedutor.

* * *

A cada passo dado no plano, Guel e minha sobrinha comemoravam as vitórias à base de gim-tônica, sua bebida preferida, além de tórridas noites de sexo. Os dois pareciam extravasar todos os seus sentimentos reprimidos nas relações subseqüentes de prazer e dor.
Tony se realizava na cama, com Guel, como jamais conseguira ao lado de nenhum outro homem. O mesmo era então desafiado permanentemente por ela a mostrar suas habilidades sexuais e superá-las a cada transa, como forma de provar os dons que afirmava ter. Para os dois, valia tudo naqueles momentos. Tapas, mordidas e empurrões esquentavam os encontros, mas de uma forma que não lhes deixassem marcas, para não se prejudicarem no instante em que precisassem usar seus corpos com outros parceiros.
Certa vez a parceria de Tony e Guel quase fora destruída por uma de suas transas. Minha sobrinha fora acometida por uma crise de loucura, depois de um violento tapa do amante, por mordê-lo vorazmente, numa relação sexual oral. Os dois chegaram a se agredir mutuamente, no instante seguinte ao ocorrido, como se exigissem um determinado limite não acordado dentro da relação.
Tony ficara totalmente transtornada, como se aquela atitude do amante lhe tocasse em algum ponto não acessível aos outros. Recorrera a mim, numa ligação inesperada, aos prantos, pedindo-me colo. Senti tanta pena! Desejei poder lhe ajudar, saber do que se tratava e confortar seu coração. Parecia uma menina desprotegida, correndo para os braços da mãe ao ter se machucado. E aquilo me deixou angustiada, principalmente por não me dizer o que lhe havia acontecido e não me deixar ajudá-la, como tantas vezes ela o fizera. 
Minha menina escondia algo em seu coração, a quem não permitia ninguém se aproximar. O que lhe provocava dor e isolamento do mundo, motivando-a a buscar um caminho de superação e realizações materiais, como se, de quebra, punisse o meio a sua volta, por sua dor. Aqueles telefonemas foram constantes logo que saíra de casa e aos poucos, tornaram-se esporádicos.

JÚLIA SERRADO
Capítulo 118

Certamente Pedro vivia uma grande confusão acerca de seus sentimentos por mim, como afirmava D. Clarinda de Holanda e até seu amigo Adriano Cordeiro. Numa manhã, fui acordada por Raquel com a notícia de que ele estava me aguardando na sala. Precisava, segundo ele, ter uma séria conversa comigo. Alimentei a esperança de que tivesse voltado atrás e me perdoado, imaginando, durante todo o tempo em que tomava banho e me arrumava para recebê-lo, como eu agiria e o que lhe diria frente seu pedido de reconciliação. Em alguns minutos, já estava diante do homem que amava, desejando abraçá-lo e acabar logo com aquela angústia.
- Bom dia, Júlia. Me desculpe por vir sem avisar...
- Não se preocupe!
O interrompi, ansiosa para que resolvêssemos logo nossa situação.
- E então?...
Meu coração estava acelerado e eu não conseguia esconder meu sorriso ansioso. Na certa, tudo estaria bem entre nós.
- Júlia, eu vim aqui por conta de Leonardo. – Disse ele sem rodeios. Não entendi bem aquilo, mas sabia que havia algo errado. O fato era que o início da conversa já não me dava a entender que teria vindo por uma reconciliação, como eu esperava. Talvez fosse somente uma forma de começar, não sei... E ele completou: - Estou verdadeiramente preocupado com meu amigo. O que você realmente quer com ele? Tem de fato algo a ver com Donato, essa sua aproximação de Leonardo?
Nem acreditava no que ouvia. Meu sorriso foi aos poucos se desfazendo. Senti meu sangue subir-me a cabeça.
- Então você veio aqui para me acusar novamente?! – Estava trêmula de raiva.
- Não estou aqui pra te julgar, acusar ou coisa parecida. Estou apenas tentando entender. Júlia, esse homem é perigoso e tenta de todas as formas conseguir o controle da RTN. Pode até estar envolvido na morte de meu pai, você sabe disso. Eu me preocupo com Leonardo, é uma pessoa sozinha, vulnerável, seria uma vítima fácil.
Eu procurava me controlar para não permitir que o choro tomasse conta de mim, embora que com bastante esforço.
- Então você acha realmente que Leonardo é uma nova vítima minha?
- Não sei. Estou apenas tentando descobrir. Eu quero apenas a verdade. Voltei ao Brasil em busca da verdade, seja ela qual for. – Respondeu ele. Voltei-me para uma janela, a fim de desviar um pouco meu olhar e ele não perceber as lágrimas que insistiam em se manifestar. Continuou: - Júlia... você acha que para mim é fácil olhar para o meu melhor amigo e descobrir que ele na verdade foi o maior inimigo de meu pai?
- E a sua preocupação maior é com Donato?
- A minha maior preocupação é a busca da verdade. Eu preciso dela!
- Sai daqui, Pedro. - Falei ainda voltada para a janela, sem conseguir fitá-lo.
- Entenda bem, eu não vim aqui para lhe agredir, estou apenas...
- Sai daqui! - Já era um grito. E não mais conseguia controlar o choro.
- Júlia...
- Pedro, saia daqui, por favor! - Era outro grito e Pedro ainda pensou em se aproximar de mim, hesitou um pouco e decidiu deixar-me sozinha. Senti-me uma completa idiota por pensar que ele teria me procurado a fim de me perdoar. Caí em prantos ali mesmo no sofá, sem perceber que ele ainda não havia saído.
- Idiota!... - Ainda sussurrei antes de me tocar de sua presença. Pedro não suportara me ver daquela forma, emocionada, sentando-se ao meu lado. Tocou-me os cabelos com certo cuidado, como se temesse a minha reação.
- Me desculpe. Eu... não quis lhe magoar. - Disse ele, meio desconsertado.
Voltei-me a Pedro, ainda em prantos, jogando-me em seus braços. Queria apenas um pouco de colo. Ele então me abraçara, ainda receoso. Podia sentir seu coração acelerado, como no outro dia, no salão de Biodança. De repente, estávamos ali em minha sala, sentados, abraçados fortemente como se tentássemos recuperar todo o tempo em que estivemos separados, numa fração de segundos. E, naquele instante, eu tinha a certeza de que era mútuo, de que ele também queria e sentia-se envolvido. Sua respiração ofegante arrepiava-me o pescoço. Estávamos tomados por um forte desejo e pude sentir seus lábios tocar-me a pele lentamente, como se ainda resistisse aos seus instintos. Mas logo nossas bocas se encontraram, fundindo-se uma na outra, num beijo intenso. Meu corpo parecia estar dormente, conseguindo apenas sentir seu calor, o tremor de suas carnes comprimidas contra as minhas. Um instante transformando-se numa eternidade, num momento de plena entrega e desejo. 
A dúvida já não era mais presente acerca de nossos sentimentos. Tínhamos então a plena convicção de nosso amor. De certo Pedro não beijava Mirela, mas a mulher por quem naquele momento estava verdadeiramente apaixonado. E aquilo fazia de nosso beijo ainda mais intenso, inteiro, delineando a nossa presença.
Por um instante, Pedro parecia ter trazido à memória as lembranças de nosso primeiro encontro, bem como as condições pelas quais nos conhecêramos, quebrando a magia a qual experimentávamos naquele momento, num impulso arrependido.
- Desculpe-me! Nós não podíamos! Não podíamos! - Levantou-se meio atordoado, procurando a saída de minha casa.
- Pedro, espera! - Ainda tentei impedi-lo. Mas estava tomado pelo arrependimento e seguro de seu erro, como se de repente uma nuvem de dúvidas e confusão cobrisse seu coração e o fizesse desistir. Procurava compreender o que havia nos acontecido, como chegáramos naquele beijo, e não conseguia lembrar ou raciocinar acerca do caminho o qual havíamos percorrido naquela manhã.  Eu estava aos gritos, expulsando-o de minha casa, e não mais que de repente, envoltos em desejo, num beijo ardente de paixão.
Como eu, Pedro passara todo o resto daquele dia sem conseguir tirar de sua cabeça o que havia nos acontecido. E aquilo o incomodava. Como estava certo de sua indiferença para comigo, a responsável por sua dor, por tê-lo enganado da forma mais sórdida, e num piscar de olhos, entregue em meus braços, disposto, numa fração de segundos, a desconsiderar todo o seu sofrimento e assumir seu desejo, sua paixão? A dúvida e a falta de respostas o deixava irritado, chegando a causar seu descontrole até mesmo no trabalho, onde costumava mostrar um equilíbrio inabalável. Como na maioria das reuniões, Pedro e Donato Pessoa discordavam em muitos pontos, mas nada que o tirasse do eixo e provocasse alguma situação desconfortante, como naquela tarde.

MARINA PESSOA
Capítulo 119

Encontrava-me confusa. No último mês, havia decidido pôr um ponto final em meu casamento com Donato, e de repente, depois que Donato abrira seu coração para mim, tal atitude já não tinha mais sentido. Passara os cinco anos em que estivemos casados, desejando aquela abertura por parte de meu marido, e então, finalmente a tinha. Não obstante, se fazia necessário um pouco de cautela e ponderação. Talvez não fosse tão fácil. Nosso casamento fora marcado pelo ciúme e controle, dos quais fui vítima, desembocando naquela relação insuportável que havia se transformado a nossa união.
Propunha, daquele modo, o estabelecimento de referenciais que orientassem um novo convívio, como forma de condição para que pudéssemos retomar nossa relação. Exigi um pouco mais de tempo para nutrirmos o afeto dentro de nosso casamento, já que ele estaria com um pouco mais de tempo, após as eleições, bem como que eu pudesse acompanhá-lo em todas as suas viagens à Brasília, como fazem a maioria das esposas de políticos com atuação na Capital brasileira. Meu intuito era de estar um pouco mais perto e partilhar mais do universo de meu marido, assim como de seus interesses.
A outra exigência dizia respeito ao meu direito de ir e vir, minha liberdade propriamente dita. Antes, estava privada de sair sozinha, sem a presença de meu marido, bem como de me comunicar ou estabelecer qualquer tipo de relação de amizade com quem quer que fosse. Queria poder desfrutar de meu tempo de uma forma mais útil, procurar fazer algum tipo de aula, de trabalho alternativo, coisa que preenchesse meu tempo e exorcizasse de mim aquela sensação permanente de vazio e inutilidade.
Queria garantir ainda o direito de me relacionar com minha família, propondo uma trégua entre Donato e Vanessa. Era chegado o momento de acabar de uma vez por todas com aquela desavença, tanto de uma parte, quanto da outra. Dispunha-me a ajudá-lo a enfrentar todas as adversidades, seus medos e fantasmas internos, assumindo verdadeiramente o papel de companheira e cúmplice.
Estávamos com infinitas possibilidades diante de nós. Poderíamos dar uma guinada em nosso casamento, ou destruí-lo definitivamente. Era na verdade, uma oportunidade de crescermos juntos enquanto casal. Teríamos apenas que apostar e nos entregarmos àquele novo caminho proposto. Depois de uma breve hesitação, Donato aceitou o desafio, propondo-se a mudar e lutar para refazermos nossa união. Sua única condição foi que eu retornasse com ele para casa imediatamente, afirmando estar enlouquecendo sem a minha presença. O que suou como uma brincadeira afetiva. E então estávamos ali, abraçados, rindo e felizes, com nossos olhos transbordando em lágrimas.

* * *

Minha volta para casa não foi tão ruim como pensava que seria. Embora aquele apartamento tivesse sido cenário de meu cativeiro, fora também o aconchego de nosso amor desde quando havíamos retornado ao Brasil, casados. Era meu canto e ali, estava muito de minha/nossa história.
D. Deise parecia ter ficado feliz com meu retorno, apesar de sua costumeira expressão fechada. Procurara saber de minha alimentação, se havia me cuidado. E até comentara estar me achando um pouco mais magra. Suas colocações traziam um ar de preocupação e cuidado.
Já Luísa, esta não conseguia esconder sua decepção, estampando em seu rosto um sorriso amarelo, meio forçado, como se por seguir instruções de seu patrão. Ela para mim era ainda uma incógnita. Não sabia verdadeiramente o que se passava em sua mente, qual tipo de sentimento alimentava a meu respeito. O que me fazia temer. Soava-me falsidade, embora não dispusesse de nada concreto que me fizesse acreditar naquilo. Tratava-se apenas de sensações. Algo inexplicável.
Ah, se eu tivesse lembrado, teria também exigido a saída de Luísa de nossa casa. Seria também uma forma de estarmos mais juntos, vivendo um pouco mais de intimidade sem a intromissão de ninguém. Mesmo que eu soubesse se tratar apenas de uma funcionária, como era D. Deise e Flávio, os quais também moravam em nossa casa, não me sentia totalmente tranqüila como ela.
Embora não fosse de meu conhecimento o romance mantido por meu marido e Luísa desde a época em que ele fora casado com Maria Eugênia Gondim, e então prosseguia bem debaixo de meu nariz, eu desconfiava que ela escondia algo em seu olhar. Além do que, a via com um nível de cumplicidade para com Donato, o qual me incomodava profundamente. Vê-la fora dali, seria um graça alcançada. Contudo, era tarde para exigir mais alguma coisa, principalmente algo que afetaria diretamente o trabalho de meu marido. Não, eu não poderia mais exigir nada. Havia perdido a oportunidade e teria de esperar o momento certo, um contexto em que nos mostrasse a necessidade do afastamento daquela mulher de nosso lar.
Eu estava certa, mesmo sem saber. Meu retorno ao lar causara um pouco de decepção a Luísa, que esperava na verdade, com a minha ausência, finalmente uma chance para assumir seu relacionamento com Donato. No fundo, não compreendia o que o impedira de lhe dar o posto de mulher oficial após sua separação de Maria Eugênia. Aquilo mexia profundamente com a minha rival, pois mesmo após o fim de seu casamento, ele ainda vivera com ela, sem assumi-la legalmente, por mais três anos, até me conhecer, oficializando mais uma vez o seu posto de amante. O meu regresso representava para ela, mais uma derrota em sua árdua batalha silenciosa de conquista a meu marido.
Acreditava que muitos de meus problemas perdessem seu poder, sua força após o meu retorno para casa, com as condições que eu impunha. Isso, por imaginar que fosse o tipo de relação limitada vivida com Donato a responsável por minhas crises depressivas. Na verdade, apostava todas as minhas fichas na tentativa de reconstrução de meu casamento, mas agora balizado por novas regras de convivência.

CELINA GONDIM
Capítulo 120

Como Dulce explicaria o roubo de uma carta? E se Zeca lhe processasse, como prometera que o fazia, se descobrisse quem cometera o roubo? Não! Não poderia correr o risco. Daria um jeito de devolver a correspondência e a foto somente depois que a poeira tivesse baixado. Enquanto a oportunidade não chegava, lia e relia aqueles papeis e observava aquela foto, como se esperasse ali descobrir algum segredo, alguma informação não explicitada, que lhe desse uma pista que fosse acerca do motivo que os impediam de estar juntos.
Dulce fixava-se também na leitura da parte da carta em que a namorada de Zeca afirmava ser ele o melhor homem do mundo, por sua integridade, lealdade, fidelidade e romantismo. Repetia compulsivamente a palavra “fidelidade”. E pensava: “Não sei não, viu? Você é uma idiota de achar que existe realmente homem fiel.” E Depois ela mesma chegava a duvidar: “Será?!” Aquilo a estava perturbando permanentemente e fazendo até com que exigisse de Djair que lhe confessasse se realmente era um homem fiel. Cobrava também do namorado, mais atenção e mais romantismo, bem como atitudes que testemunhassem seu amor, como um cartão apaixonado, ou uma “carta” de amor.
Certamente, Djair estava longe do que Dulce esperava de um homem, depois do contato com aquela carta e do tipo de relação amorosa exposta ali. Ele estava mais preocupado de fato em nunca permitir que ela ou Lorena descobrissem que namoravam o mesmo homem.
Numa noite, Dulce saíra do quarto e fora à cozinha tomar um copo de leite. Assustou-se ao ouvir um barulho do outro lado da mesa, onde estavam exatamente Djair e Lorena numa situação um tanto constrangedora: o motorista já completamente sem roupa, transando com a secretária da patroa. Como a luz do ambiente encontrava-se desligada, minha enfermeira não tinha uma visão nítida de quem estava ali ou fazendo exatamente o quê. Viu, contudo, por conta da luz interna da geladeira, o rosto de Djair, atônito, a pouco mais de dois metros de distância, já erguido, embora que sem roupa e completamente excitado.
- Djair!...
Estava completamente surpresa, fitando o namorando e em que estado se encontrava. Para ele seria o fim. O que tanto tentara esconder finalmente viria à tona. E pior, Lorena também ficaria sabendo de tudo, que ele também mantinha um caso com Dulce. As duas descobririam a traição dupla. Estaria ele perdido. Na certa, achava ele, que Lorena providenciaria sua demissão junto a Maria Eugênia. E naquele instante se arrependera de ter começado aquela história.
Foi então que teve uma idéia. Djair correu para os braços de Dulce, demonstrando alívio por encontrá-la ali. E quando a mesma lhe indagara sobre seu estado físico, a falta de roupas e o que fazia ali na cozinha, ele lhe afirmara ter sido vítima de mais uma crise de sonambulismo.
“Mas que sonambulismo?!”
Nunca ouvira falar que o namorado fosse sonâmbulo. Segundo ele, era mais um de seus segredos que ela ficara sabendo. Desconfiada, Dulce deixou o amante e se precipitou para o outro lado da mesa, onde ele estava, quando chegara à cozinha. Para o malandro, tudo estaria acabado então. Bastava que ela visse quem estava ali, deitada, enquanto o mesmo tentava ganhar tempo.

* * *

Por incrível que parecesse, aquela história de Dulce e sua dificuldade de encarar a realidade, enxergando o que era óbvio e estava bem diante de seus olhos, me fizera perceber a minha própria fuga de não encarar o desafio e aceitar, mesmo como fonte de inspiração, participar da empreitada da RTN na série sobre a deficiência física. Estava então claro para mim o quanto eu me escondia do mundo enquanto a vida me chamava a me fazer presente.

JÚLIA SERRADO
Capítulo 121

Toda a direção da RTN estava reunida para decidirem alguns contratos, como o de um partido político, o qual pretendia contratar uma série de reportagens dentro do Revista Notícia – A Máquina da Informação, o principal telejornal da emissora, para denegrir a imagem de um determinado candidato adversário. Tratava-se de um contrato milionário, embora que de ideologia contrária a da empresa. Os diretores questionavam o que seria ético e não-ético diante da proposta, como a RTN deveria se portar frente àquela situação. Para Pedro, aceitar o contrato poderia representar um grande risco de perder toda a credibilidade a qual a emissora havia conquistado nos últimos anos, como um canal sério e imparcial, disposto a mostrar as mais diferentes faces da notícia para o telespectador, a fim de que este mesmo pudesse construir a sua própria ideologia. Donato Pessoa, apoiado por alguns dos diretores, fiéis parceiros em suas negociações, defendia a aprovação da proposta, chamando a atenção para os muitos milhões de reais envolvidos na transação, como forma de amenizar a difícil situação financeira pela qual a emissora estava passando. Taxando ainda de utópicas as idéias defendidas pelo colega. Havia sido o primeiro descontrole do mesmo numa reunião, desde que assumira a vice-presidência da RTN.
- Honestidade e coerência com uma missão não é utopia, é dignidade, o que está faltando a muitos no Brasil, nos dias de hoje! - A fala de Pedro Lucena carregava consigo o peso de sua indignação, não somente pelas idéias de seu adversário expostas na reunião, mas por sua desonestidade a seu pai e a ele mesmo durante todo o tempo em que foram amigos. Complementando: - Nós bem sabemos das artimanhas que muitos desses partidos políticos que hoje estão no poder, fazem para se manterem onde estão, da sujeira vivenciada por eles a fim de derrubar, massacrar idéias que ameacem a sua vida, e perpetuar a sua hegemonia. Eu sou contra, inteiramente contra a qualquer pacto ou relação desta empresa, a qual eu confio o meu nome enquanto vice-presidente, com qualquer facção ou grupo específico que alijem a missão a qual nos propomos a desempenhar no âmbito social!”
- Ora, caro Pedro, não falamos de negarmos a nossa missão... - Tentou Donato retrucar, sendo interrompido por seu adversário:
- Como não? – Respondeu Pedro prontamente. - Uma reportagem comprada carrega em si a intenção de quem a está patrocinando. Este canal de televisão é hoje um dos maiores e mais assistidos do país, apesar de ter sua matriz fora do eixo Rio-São Paulo. E cresceu propondo-se a desenvolver uma proposta diferenciada de programação, com o intuito de educar e estimular a criticidade. Ganhou credibilidade em todo o país carregando consigo a marca da imparcialidade.
- Falo de números. – Disse Donato. - A imparcialidade não paga nossas contas, os salários dos milhares de funcionários. Tem razão quando diz que esta idéia ajudou a fazer da RTN uma das emissoras mais assistidas e respeitadas do país. Sabemos, no entanto, do valor que investimos em nossa programação, para chegarmos à audiência em que chegamos. E eu posso garantir a todos, senhores, que o preço é alto. - Sorria com ironia, olhando sorrateiramente para Pedro, deixando-o ainda mais enfurecido. E então prosseguia: - Temos uma dívida que não é divulgada junto ao nosso slogan. Se não pensarmos em estratégias que dêem conta desse buraco, sinto muito, mas logo, logo estaremos com nossas portas fechadas... - Voltou-se então a Pedro, complementando: - ...distribuindo educação e criticidade por um megafone e não através de um sinal televisivo.
- Ainda assim não podemos nos submeter a sermos engolidos pela bandalheira a qual juramos ao público desmascarar. Uma “utopia” que desenhou o nosso sucesso, alavancando um canal regional para o hall das maiores emissoras de televisão do país. - Pedro procurava olhar para cada diretor, em especial para Leonardo Gondim, o presidente, bem como para Donato Pessoa. E continuou: - Em se tratando de atitudes, podemos julgar e classificar qual a melhor, frente a determinadas situações. Mas tratando de princípios, ou se tem ou se não tem! - Voltou-se inteiramente a Donato. - Lamento, mas cedermos não está entre as nossas opções.
Sua intenção era exatamente de expor o adversário diante de todos, sacramentar sua imagem desonesta e impedir a adesão dos diretores àquelas idéias suicidas. Compreendia a preocupação de Donato acerca das dificuldades financeiras da emissora, mas acreditava que não se poderia baixar a cabeça e ceder frente às primeiras adversidades, vendendo-se justamente aos ideais contrários a tudo aquilo que fundamentara o nascimento e propagação da missão daquela empresa.
Leonardo, por sua vez, tinha uma leitura clara de tudo aquilo. Alimentara aquele sonho descrito por Pedro, juntamente com seu amigo, Alberto Lucena, embora se sentisse pressionado pelas circunstâncias. Encerrara a reunião, pedindo ponderação a todos, ao classificar o momento de delicado. Almejava na verdade pensar um pouco mais e somente então tomar uma decisão, ainda que tivesse a maioria de seus diretores convencidos da proposta de Donato Pessoa, inclusive a filha, Maria Eugênia, de quem estava sofrendo a maior pressão.
Pedro compreendia a difícil situação em que se encontrava Leonardo, mas não poderia cruzar os braços e permitir que o pior acontecesse. O procurara, a fim de que pudessem unir forças junto à diretoria e optar pela verdade dentro da RTN. O amigo queria apenas um pouco mais de tempo para ter certeza e optar pelo melhor caminho para a emissora.
- Leonardo, eu quero apenas que você saiba que eu compreendo o que nós estamos passando. Mas é necessário lembrar de não nos escravizarmos por nossas necessidades financeiras. Isso é um caminho sem volta, e você sabe melhor que ninguém, como se dão esses jogos de poder. Aceitar esse contrato talvez seja a saída mais fácil nesse momento, mas não a mais inteligente.
- Sei bem do que está falando, Pedro. Alberto, seu pai, pensava da mesma forma. Eu já estou quase decidido, quero apenas um pouco mais de tempo. Não é fácil, fazer da RTN o que ela é hoje.
- Só não vale a pena continuar, se não cumprirmos com aquilo que nos propomos. Eis a nossa perdição, amigo.
- Nos afastamos do propósito para mantermos o poder.
- Como se o poder fosse em si o propósito
- Seu pai se orgulharia de você, vendo-o falando assim.
E os dois riram.
Pedro confiava na decisão de Leonardo, acreditava que prevaleceria a missão da empresa e que juntos encontrariam um caminho, uma saída para resolver os problemas financeiros da RTN. E aquilo até lhe deu forçar para ir a fundo nas investigações acerca do tal dossiê de seu pai contra Donato Pessoa. Talvez contivesse naqueles supostos documentos algo que inspirasse uma saída para a RTN. Lembrara de procurar então seu Caetano, o caseiro de sua propriedade no Porto das Dunas, a fim de descobrir algum indício dos documentos.

CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 122

O caso com Guel Serrado logo estava resolvido. Dentro de alguns dias minha sobrinha e o rapaz voltaram às boas, inclusive ao intenso prazer sexual, depois de firmarem algumas regras de cuidado para a relação.  
Uma questão puramente pessoal não poderia atrapalhar seus planos. Além do mais, os golpistas necessitavam superar mais um obstáculo para se anteciparem ao sucesso de seus objetivos. Alexandre, o filho de Olívia, se mostrara inteiramente contra a relação, exigindo a proibição da presença de Guel em sua casa. O rapaz dizia não acreditar nas intenções do namorado da mãe. Talvez por puro ciúme, ou quem sabe, seria a providência divina, para protegê-la.
O fato é que Tony e o comparsa precisavam pensar rapidamente em algo que mobilizasse o jovem e o tirasse de seu caminho. Minha sobrinha recorrera, claro, a Izaíra, descobrindo sobre as desconfianças de Olívia acerca do filho estar envolvido com drogas. Talvez fosse aquela a saída para os dois.
Guel e Tony grudaram em Alexandre, por dias seguidos, a fim de descobrirem algo que os ajudasse a controlar o rapaz e despontecializar a intervenção do mesmo junto ao namoro da mãe. Não demorou muito e ficaram sabendo de uma dívida do jovem a um fornecedor de drogas, depois de segui-lo até o morro Santa Terezinha. Juntando esta informação com os desabafos de Olívia acerca das exigências do filho para conseguir mais dinheiro que o convencional, perceberam estar ali a solução para aquele problema.
Alexandre fora procurado pelo namorado da mãe, o qual ofereceu-lhe ajuda financeira. Os três mil reais fariam falta à conta bancária de Guel, mas encarara junto à parceira de golpe como um investimento para a concretização de seu plano. Aos poucos, o namorado de Olívia, fora se mostrando amigo e cúmplice do rapaz, mostrando-se parceiro em seus embates com a mãe. Antes mesmo do que esperavam, Guel já estava novamente freqüentando a casa da namorada.

* * *

Tudo estava perfeito e pronto para dar o bote a Olívia Cordeiro, a qual se encontrava cada vez mais apaixonada. O passo seguinte era então envolvê-la mais intimamente na suposta vida profissional de Guel Serrado, a fim de conquistar sua confiança e se aproximarem ainda mais do ponto alto do golpe.
Para Olívia, Guel era um corretor de imóveis, com formação em educação física, sonhando em ter sua própria academia. Trabalhara a vida inteira, de todas as formas, juntando tudo o que podia, a fim de montar o tão sonhado negócio. Deste modo, passava para ela a imagem de um herói, um batalhador, como ela própria fora a vida inteira. E aquilo a encantava, como tudo o que dizia respeito àquele homem.
Tony conseguira a ajuda do amigo Kleber, que se passaria por um suposto sócio de Guel na academia. A idéia seria de deixar Olívia pensando que os dois montariam o negócio juntos. E assim o fizeram. O golpista tratara de deixar a namorada a par de todo o processo de sociedade, bem como das negociações, compra de máquinas e espaço para o funcionamento da empresa. O objetivo seria de envolvê-la o bastante para o momento decisivo.
E então, ao perceberem que havia chegado o dito momento, Guel a deixara sabendo que o terreno o qual seria comprado para o empreendimento, fora vendido a outra pessoa, por um valor bem acima do oferecido por ele e Kleber. Deste modo, só lhes restavam a compra de um novo espaço, cento e cinqüenta mil reais mais caro, por conta da localização. O que se fazia necessário a entrada de um novo parceiro, mais um sócio à empreitada. Visto que Kleber, sócio majoritário, não dispunha naquele momento do referido valor, não seria possível a negociação.
A isca estava lançada. O que restava à minha sobrinha e seu comparsa era esperarem que Olívia a mordesse, motivada por uma dose de melodrama, expondo o quanto ele ficara abatido pela possibilidade de ver o sonho de sua vida fugindo por entre os dedos.
Sem fazer idéia do que estava por trás do projeto da academia luxuosa, Olívia se apaixonara pela proposta, além de se comover pelo sofrimento do namorado diante da possibilidade de não vê-lo se realizar. A única saída seria ela mesma entrar de sócia na empreitada, lançando mão dos duzentos mil reais exigidos por Kleber, o suposto sócio majoritário do negócio. E então, o caminho para o golpe final de Tony e Guel estaria aberto.

CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 123

Acabei por ficar sabendo das armações de minha sobrinha e seu comparsa para separar Nando de Olívia. Marluce acabara por me revelar o acordo estabelecido com Tony a fim de armarem o flagrante responsável pelo término do namoro dos dois. Como era de se esperar, Marluce se decepcionara com os resultados, por não obter o que tanto esperara, o amor de meu filho. Pediu-me encarecidamente que eu não lhe falasse nada, para não deixá-la em situação pior. Pois sabia que se ele descobrisse sua participação na trama aí sim não teria realmente mais nenhuma chance.
A revelação de Marluce fazia-me perceber sua imaturidade e o quanto estava distante do que meu filho almejava para si. Por mais que ela se esforçasse e me pedisse ajuda, eu nada poderia fazer. Nando a considerava exatamente como eu a via naquele momento, infantil, inconseqüente e obsessiva.
Chegava a ser constrangedor alguns dos encontros de meu filho e Marluce. Por mais que Nando procurasse ser gentil, se obrigava a colocar limites em muitos momentos, pelas atitudes invasivas da moça, fazendo-se presente nos mais diversos locais onde ele estaria. O que vinha o incomodando profundamente, naqueles últimos tempos, por sentir-se vigiado permanentemente.
As atitudes sem limites de Marluce, procurando se fazer perceber por Nando, segundo ela mesma, e sua paixão desenfreada por ele, preocupavam cada vez mais sua mãe. Ceiça torcia que a filha esquecesse definitivamente aquela história e pudesse conhecer alguém, de modo a vivenciar verdadeiramente uma história de amor.

* * *

Minha vizinha, contudo, estava naquele instante mais decidida era em desmascarar a vagabunda aproveitadora de seu filho, segundo ela. Pedira ajuda ao marido, mas Rubinho não concordava em se meter na vida do filho, ainda por cima acreditava na inocência da moça, considerando-a apenas um pouco extravagante. O que despertava ainda mais o desejo de minha vizinha em provar a tese de que a namorada de Dorival nada mais era que uma mulher de vida fácil.
Mesmo contra a vontade de Rubinho, Ceiça passara a vigiar cada passo de Salete e sua amiga Vera Sheila. Esperava mais cedo ou mais tarde encontrar algum indício que comprovasse suas desconfianças. Constatara que na ausência de Dorival, momentos à tarde, outros à noite, Vera Sheila sempre acompanhava um rapaz moreno, de boa aparência à casa da amiga, onde passavam horas. E que, como de costume, os dois saiam e ainda passavam um bom tempo conversando dentro do carro, estacionado na frente da calçada. Da porta do mercadinho, minha vizinha não tirava o olho e a atenção. Desejava ser uma mosca e descobrir o que se passava ali do outro lado da rua, por traz das portas fechadas da casa de Salete. Acreditava que no mínimo a dama da orgia, como também a chamava, estava traindo seu filho, talvez “trabalhando”, como sempre desconfiara. Precisava encontrar uma forma de provar suas desconfianças.
Antes mesmo de encontrar qualquer prova concreta contra Salete, minha vizinha não suportara a pressão e contara ao filho sobre o rapaz que vinha freqüentando a casa de sua namorada em sua ausência. Mesmo sem o apoio de Rubinho, esperava convencer Dorival ou pelo menos despertar suas desconfianças acerca da honestidade da namorada, até então imaculada.
Para a frustração de minha amiga, o filho mostrara-se resistente à idéia de traição, defendendo seu amor e a fidelidade de Salete. Percebia então o quanto Dorival encontrava-se iludido com a “sirigaita”, segundo ela. Lamentando o fato de um homem tão inteligente, lindo e corajoso como seu filho se transformar em um paspalho diante da vulgaridade daquela mulher.
O que Ceiça realmente conseguira com a revelação, fora apenas queimar seu cartucho. Salete alegou tratar-se do namorado de Vera Sheila, um amor proibido, por isso os dois se encontravam em sua casa. Por via das dúvidas, a moça passara a ter mais cuidado, evitando a presença do tal rapaz em sua casa, nos dias que se seguiram. Minha vizinha teria de esperar uma outra oportunidade para provar a traição de Salete. Para sua tristeza. Deixara escapar a oportunidade. E ainda tivera de agüentar as piadas da moça, quando esta fora fazer compras no mercadinho, vangloriando-se para a amiga ser mais esperta do que as megeras mexeriqueiras da rua.
Só restava a Ceiça engolir a soberba de Salete e aguardar um novo momento para pegá-la no flagra. O que acontecera umas duas semanas depois. Numa madrugada, o rapaz deixara o carro estacionado na outra rua e fora para a casa de Salete, acompanhado de Vera Sheila. Minha vizinha flagrara, pela janela de seu quarto, o exato momento em que os dois entraram. Pronto! A dama da orgia voltara a agir. Era o que precisava para provar que estava certa e ela traía seu filho. Precisava apenas pensar num plano, numa forma de entrar na casa da frente e flagrar a pouca vergonha.
Conversando com a vizinha de Salete, que fazia compras, no dia seguinte, Ceiça ficara sabendo que o muro que separa os quintais das duas casas havia caído com as chuvas do inverno naquele ano e que até então não fora consertado por falta de interesse de Salete no assunto. Dona Ana, a vizinha, estava indignada, não somente com a história do muro, bem como com o barulho à noite, da casa de Salete. Dizia ser grandes gargalhadas, alto volume de som e até gemidos. E o mais interessante para Ceiça, tudo acontecia exatamente na ausência de Dorival, nos plantões policiais do rapaz.

JÚLIA SERRADO
Capítulo 124

Pedro ficou sabendo, através do caseiro, de uma viagem de seu pai a Natal pouco antes de sua morte, para rever Carlos Paulino, um velho amigo de infância, respeitado auditor federal, então aposentado. Pedro desconfiava que poderia este homem ter algum tipo de envolvimento com as descobertas do pai acerca de Donato dentro da RTN. Tratara, deste modo, de ir ao seu encontro, em Natal. Alguma coisa lhe dizia que poderia resolver parte dos problemas da empresa, de posse do suposto dossiê.
Carlos Paulino dera respostas vagas a Pedro, diante de suas indagações pouco claras. Este tentava saber se o amigo do pai tinha conhecimento de suas investigações, sem lhe dizer ao certo do que se tratava. Estava diante, contudo, de um homem discreto, de um profissional sério e respeitado, como sempre fora, jamais quebraria o sigilo de um trabalho, sem um motivo plausível. E quando já estava quase desistindo, Pedro resolvera abrir o jogo e contar-lhe por que realmente o havia procurado. Falara-lhe inclusive de suas desconfianças sobre a morte do pai. O que comoveu aquele homem de aparência dura e inabalável.
Mesmo não tendo sido Carlos Paulino o responsável pelas investigações resultantes do dossiê, ele sabia de sua existência. Alberto Lucena o procurara pouco tempo antes de sua morte, para que ele pudesse analisar o material que dispunha. Estivera ele com todos os documentos em suas mãos por dois dias, confirmando a Alberto o que ele já sabia, mas insistia em não acreditar. O velho homem não quisera entrar em detalhes sobre o conteúdo do dossiê, mas entregara a Pedro a indicação de um nome. Marcos Medeiros fora o profissional responsável pela captação de quase todo o material dentro da empresa. Teria ele, segundo Carlos Paulino, mais informações do que poderia ele me dar.
Se esse Marcos Medeiros havia conseguido elencar todos os documentos necessários à composição do dossiê contra Donato Pessoa, só poderia ser ele um funcionário da RTN, ou alguém que tivesse livre acesso à empresa, a fazer uma espécie de auditoria, sem que ninguém percebesse. Pedro estava certo. Descobrira junto ao setor pessoal da empresa, o registro de Marcos Medeiros como funcionário da emissora, por sete anos, tendo sido demitido então dois anos antes daquela descoberta, ou seja, bem antes da composição do dossiê, pouco mais de um ano antes da morte de Alberto Lucena. 
Alguma coisa não batia e Pedro não conseguia entender bem o quê. Como o tal Marcos conseguira trabalhar dentro da RTN, tendo sido ele demitido antes das investigações a Donato Pessoa?  Descobrira então, através de D. Jandira, sua secretária, a qual também havia trabalhado com seu pai, que se tratava de um funcionário aliado de Donato no setor contábil da RTN, e mais, que este fora despedido por atos ilícitos dentro da empresa. “A corda sempre quebra do lado mais fraco”, disse D. Jandira, sem entrar em muitos detalhes.
Uma charada a qual necessitava ser desvendada por Pedro, se quisesse encontrar o tal dossiê. Persistiu então nas investigações, descobrindo com a ajuda de D. Jandira, uma ex-namorada de Marcos Medeiros no setor contábil da empresa, a qual trabalhava na parte de pessoal, até o rapaz ter sido demitido da emissora. D. Jandira ficara sabendo ainda que Marta, a moça em questão, fora transferida de setor, a pedido de Alberto Lucena.
Pelo menos estava explicado como Marcos conseguira reunir os documentos que compunham o dossiê acerca de Donato. O fizera com a ajuda da namorada e o aval do pai de Pedro. O rapaz parecia querer se vingar de seu chefe, por lhe abandonar, ao serem descobertas suas falsificações na contabilidade da RTN para encobrir supostos desfalques. Marcos Medeiros estava foragido da polícia e possivelmente teria procurado Alberto Lucena, propondo-lhe desmascarar Donato Pessoa.
Pedro precisava então apenas descobrir o paradeiro do tal Marcos Medeiros, para chegar ao dossiê. No entanto, Marta, a ex-namorada do rapaz, nada sabia a seu respeito, a não ser do endereço de uma tia do mesmo, coincidentemente, em minha rua. Tratava-se de D. Ceiça, a dona do mercadinho da esquina, próximo a minha casa. Contudo, nenhuma informação ele conseguiu através de minha vizinha. Foi Salete, a namorada de Dorival, o filho da dona do mercadinho, quem lhe dera as informações necessárias. A moça parecia não se dar bem com a sogra e ao ouvir a conversa da mesma com Pedro, resolvera ajudá-lo, “somente para contrariar a megera”, segundo ela. Descobrira com o namorado, o primo de Marcos, que o mesmo estava trabalhando na prefeitura de Monsenhor Tabosa, município do interior do Estado, a quase trezentos quilômetros de Fortaleza. Um bom esconderijo para alguém inimigo de poderosos.
Pedro não hesitou em procurar o rapaz que poderia lhe dar informações valiosas sobre a verdade que envolvia os tais documentos reunidos pelo pai antes de sua morte. Este, por sua vez, ainda relutou em confessar alguma coisa, mas lhe deu uma nova pista, ao ser ameaçado por ele de lhe denunciar à polícia. O rapaz disse-lhe para procurar saber de Caetano, o caseiro de sua propriedade no Porto das Dunas , se este guardava algo de Alberto, em sua casa.
Seria possível o dossiê estar tão perto há tanto tempo? E se estava com Caetano, sendo ele um homem de confiança do pai de Pedro e, conseqüentemente, também de sua confiança, como poderia esconder uma informação tão importante, sabendo que procurava documentos de seu pai desde que voltara ao Brasil?
Pedro voltara para Fortaleza, ainda mais confuso, dirigindo-se imediatamente a sua casa de praia. Queria ele tirar aquela história a limpo e acabar de uma vez por todas com aquele jogo de esconde-esconde. E se Marcos estivesse mentindo? Aí entraria em contato com a polícia.
Seguindo a orientação de Marcos Medeiros, Pedro fizera a pergunta a seu Caetano exatamente como o rapaz havia lhe dito. Era uma espécie de código, o qual o colocara diante de um cofre, atrás de um quadro, na parede da sala de estar da casa de seu Caetano. Quando Pedro o indagou por que não havia lhe contado sobre aquele cofre antes, o humilde senhor de cinqüenta anos, magro, cabisbaixo, respondeu-lhe dignamente que seu querido patrão o havia orientado a nunca revelar aquilo a ninguém, nem mesmo a ele. Contudo, ao ser indagado diretamente por Pedro, percebera ser o momento de trazer à tona o segredo.
No entanto, o velho caseiro não dispunha da chave e a combinação que abriria aquele cofre e colocaria Pedro, talvez, diante do último desejo de seu pai, a revelação da verdade, o que poderia, inclusive, ter sido a causa de sua morte. Passara dias pensando, lembrando do cofre e como o abriria. Certa noite, refletindo sobre o caso, lembrara de repente de uma chave, achada no bolso de um paletó de seu pai, no armário. Episódio ao qual não dispensara nenhuma atenção. Procurara então Carminha, a empregada de seu apartamento, responsável pela arrumação das coisas de seu pai, quando se desfaziam das mesmas. Disse-lhe ela ter guardado a chave junto a outros pertences pessoais de Alberto Lucena, numa gaveta do escritório.
A sorte estava lançada. De posse da chave, Pedro pegara seu carro, correndo ao Porto das Dunas. Nem conseguira apreciar a paisagem das dunas, só pensava em qual segredo, combinação seria a do cofre. Chegando à casa de seu Caetano, arriscara numa velha combinação a qual conhecia desde a infância. Seu coração estava acelerado. Poderia tudo estar resolvido ou não. Só dependia do que estivesse dentro daquele cofre e se conseguiria abri-lo. 
Estava certo. Finalmente Pedro abria o segredo de seu pai.

MARINA PESSOA
Capítulo 125

Certa manhã, alguns dias após meu retorno para casa, ainda no café, depois da saída de Donato e Luísa para a RTN, fui surpreendida por D. Deise anunciando-me uma visita. Precipitei-me até a sala, onde estava o tal rapaz anunciado por ela, sem que desse chance de entrar em maiores detalhes, como se meu coração acusasse de quem se tratava. Deveria dar mais atenção a minha intuição. Era realmente Holanda, parado de costas, fitando alguns porta-retratos meus e de meu marido, num móvel da sala.
- Você?!
Estava surpresa e ao mesmo tempo feliz. Holanda voltara-se a mim, trazendo-me uma rosa branca, bem como me abrindo seu belo sorriso. Eu havia vivido fortes emoções nas últimas semanas e ele era um ícone das transformações por mim experimentadas naquele período. Sua presença, portanto, muito representava em minha vida.
- Pensou que estava livre de mim?
- Não, não é isso. – Sorri, desconcertada. – É que não esperava.
- De fato, minha vinda aqui não fazia parte do texto. Mas resolvi reescrevê-lo. Não gostou da mudança?
- Bobo. Claro que gostei.
- Ah, que alívio. Começava a achar que não era bem-vindo.
- Que história, Holanda...
- É muito bom ver você novamente.
Inicialmente, senti um pouco de vergonha, como se não pudesse ter tomado a atitude que tomei em relação a Donato, sem antes saber o que Holanda pensava a respeito. Parecia que tínhamos um pacto não revelado de cumplicidade, o qual me obrigava a lhe dar satisfações. Fora ele mesmo quem me deixara mais a vontade, perguntando-me se eu estava feliz. Então percebia tê-lo subestimado mais uma vez acerca de sua lealdade e preocupação sincera para com o meu bem-estar.
Repetidamente, Holanda vinha provando sua amizade e cuidado, por isso estava ali, certificando-se se eu estava verdadeiramente feliz. Não sabia responder se feliz completamente, mas me encontrava bem, esperançosa que tudo desse certo. Se não desse, me depararia com o fim de uma história de cinco anos e aquilo me doía só de pensar.
Convidei Holanda para tomar café comigo e acabamos conversando por horas, rindo de histórias por nós vivenciadas. Era uma companhia agradável que me tirava completamente de meu mundo de dúvidas e preocupações. Sua simples presença me proporcionava não somente um certo conforto, mas uma confiança em mim mesma. Perto de Holanda, sentia-me mais fortalecida, pronta pra enfrentar qualquer situação. Talvez tenha sido exatamente a sua força, passada para mim involuntariamente, que me fizera tomar coragem de impor minhas condições a Donato e dar-nos uma nova chance.
Ao lembrar de meu marido, entrei em contato também com a necessidade de lhe contar sobre Holanda e nossa amizade. De certo não o tinha feito ainda por medo de sua reação. Um medo que desaparecera diante de meu amigo. Se não fazíamos nada demais, não tinha porque da minha preocupação e receio. Meu marido teria que aceitar aquela amizade.  E seria exatamente o que eu faria logo que chegasse em casa, contar-lhe-ia da existência de um amigo, o qual, mesmo sem saber, havia me dado forças para me lançar a uma nova tentativa de reestruturação de nosso casamento.
Entretanto, experimentava ainda, no fundo, uma pontinha de apreensão acerca de como Donato reagiria àquela amizade. Mas era algo que eu teria de viver, se desejava realmente construir uma relação verdadeira e plena com meu marido.
Que Deus me ajudasse naquele intento! 

CELINA GONDIM
Capítulo 126

Começava a compreender porque Pedro havia citado a parte da letra da música de Raul Seixas, dizendo que “...a água viva ainda está fonte.”. Realmente ele tinha razão ao afirmar haver um forte pulsar dentro de mim, procurando desesperadamente um raio de luz. Entrava em contanto com meu entusiasmo expresso espontaneamente ao me deparar com toda aquela equipe trabalhando, deixando sua criatividade fluir.
Percebia a cegueira de Dulce em relação a sua atitude dentro do relacionamento com Djair, como se fugisse da vivência de uma verdadeira história com alguém, que realmente a amasse e se fizesse amar. E aquilo me ajudava a enxergar o quanto eu também fugia de meu próprio destino, e não só, mas o quanto a maioria de nós seres humanos, cedemos aos nossos medos e fantasmas e nos deixamos entregar a modelos pré-estabelecidos de comportamentos, os quais julgamos atender às nossas necessidades e nos escravizam diante da simples possibilidade de expressão, tornando-nos estéreis de nós mesmos.
Decidi então procurar Gonzalles, o diretor da série e confirmar as entrevistas, nas quais lhe falaria e aos autores do trabalho acerca de meu processo adaptativo enquanto tetraplégica. Fiz tudo silenciosamente, para não criar alardes como da vez anterior, bem como não gerar nenhuma expectativa em ninguém. Fora também uma forma de me sentir mais à vontade, sem tantos olhos encima de mim.
Dali a dois dias, recebi novamente a equipe da série Tente Outra Vez, contando-lhes como reagi desde o primeiro momento em que havia me dado conta do que tinha me acontecido e a meu marido, ainda no hospital até àqueles dias. Chorava em alguns momentos, vivenciando novamente a dor, mas me mantive firme na proposta. Precisava verdadeiramente vomitar aquilo de dentro de mim, aniquilar com o que me matava permanentemente. Era também uma forma de esvaziar um reservatório de veneno escondido em minha alma, responsável por minha morte em vida.

* * *

Na noite depois daquela tarde de partilha de velhas lembranças, experimentei o sono mais tranqüilo dos últimos três anos, desde o acidente. Parecia ter me livrado de toneladas fixadas em minhas costas, impostas por mim mesma, talvez pela culpa da morte de Vinícius e pela dor da perda de meus movimentos, bem como por não me sentir digna de ser realmente feliz, depois de causar tanta dor e sofrimento na vida das pessoas a quem eu amava.
Estava caminhando à noite, pelo jardim de nossa casa. Não existia nenhuma dificuldade em meus movimentos. Sentia-me leve e a própria liberdade da auto-locomoção me proporcionava uma sensação de êxtase e bem-estar. Ao longe, perto da piscina, avistei a imagem de Vinícius apreciando a água. Ele estava rodeado por uma luz branca e vestia uma camisa de algodão azul claro e uma calça branca. Combinação que ele gostava por lhe fazer experimentar uma sensação de leveza. Os pés descalços se revezavam ao brincar com a água, criando pequenas ondas.
- Vinícius?!
Meu sono não poderia me promover felicidade maior que aquele encontro com o homem a quem eu amava. E ele simplesmente voltou-se a mim, iluminando-me com seu sorriso. Continuava lindo. Os cabelos negros crescidos sendo jogados pelo vento. Aproximei-me, mas com certo cuidado, por receio que aquele momento acabasse.
- Estava aqui te esperando, Celina. - Vinícius estendeu os braços para mim, convidando a me aproximar, com seu sorriso encantador. Eu experimentava um misto de felicidade e surpresa. Parecia tão real e ao mesmo tempo mágico. Logo ao chegar diante de meu marido, ele enxugou-me uma lágrima que gritava ao mundo a minha dor e felicidade de estar naquele instante vivendo aquilo.
- Eu precisava te ver há muito tempo, Vinícius. – Estava radiante de tanta felicidade. Podia sentir a maciez de sua mão, tocando-me carinhosamente o rosto.
- Por que não veio antes? – Perguntou ele.
- Porque você não queria. – Respondeu imediatamente, sorrindo.
- Mas como não queria? Tudo o que eu mais queria era estar mais uma vez com você, Vinícius! Poder sentir teu toque, como agora.
- Você esteve longe de mim, nos últimos anos, minha querida. Quis tanto te encontrar! Mas sempre que eu me aproximava, você mais se distanciava. – Trazia doçura em sua fala.
- Eu não entendo... Sempre quis muito te ver e nunca consegui.
- Agora verdadeiramente você me chamou, Celina. Antes se escondia, não queria que eu visse teu rosto.
- É tão bom, poder te sentir mais uma vez! - Fechava os olhos para saborear seu toque, seu calor. E ele ria. Trazia-me uma tranqüilidade jamais experimentada por mim nos últimos anos. - Eu queria poder ficar junto de você mais uma vez, Vinícius.
- Você estará junto de mim sempre que ouvir as batidas de seu próprio coração. Nunca deixe de ouvi-las, é a melhor música.
- Eu sinto tanta a sua falta! Queria te dizer tantas coisas...
- Psssssssssiu... - Colocou a mão delicadamente em minha boca. - Não precisa me dizer nada, posso sentir o seu coração, minha querida. – Estava com a mão tocando meio peito.
- Eu queria que me perdoasse...
- Você precisa redescobrir o amor que existe em sua alma, Celina.
- Dói!
- Perdoe-se, minha querida.
- Hoje eu estive relembrando o momento em que saiu de minha vida.
- Eu nunca saí.
- Mas eu te matei.
- Você me deu a vida, quando te amei.
- E o acidente?
- Um instrumento.
- Sinto-me culpada, nem sabe o quanto!
- Somos um canal, Celina, sempre. Necessitamos apenas compreender a interdependência entre todos os seres e as situações da vida.
- Não consigo entender, aceitar...
- Minha querida, nada acontece por acaso. O desapego é o nosso maior aprendizado e um impulso para nossa evolução. Se entendemos a vida como um grande convite, compreenderemos nosso papel aqui enquanto missão, sendo esta apenas um ponto da grande rede. E somente então, Celina, saberemos que não somos deuses, mas convidados do grande chamado do universo.
- Não poderia prosseguir sem você, Vinícius.
- Estarei sempre ao seu lado, basta ouvir seu coração.
- Falo da presença física.
- Viva o amor.
Com um grande sorriso, Vinícius tomou-me no colo, fazendo-me experimentar uma sensação ainda maior de leveza e liberdade. Podia sentir todo o seu amor e presença. Suas doces palavras ecoavam em meu coração, selando a tranqüilidade daquele sono curativo e restaurador, proporcionado a mim naquela noite.

Despertei na manhã seguinte recebendo a energia revigorante dos raios de sol que entravam, como de costume, pela janela de meu quarto. Embora sem realizar os movimentos desejados por mim, podia sentir uma alegria e uma vontade de estar viva tomando conta de todo o meu ser. Uma felicidade de tocar as pessoas, logo percebida por Dulce, ao entrar no ambiente.
- O que aconteceu para estar com esse sorriso?
- Ah, Dulce, nada. Apenas estou feliz, não posso?
- Não sei não, viu? – Disse ela, surpresa. E eu não conseguia parar de sorrir e esbanjar a felicidade que me dominava naquele instante. Levando-a a completar: - Bem que eu falei que este trabalho ia lhe fazer bem. Eu não disse?
E eu sorria, sorria muito.
Certamente o trabalho me fizera muito bem, mas não era somente aquilo. A própria atitude de me permitir a partilhar minha dor, minha história, fora também meu bálsamo. Eu, Celina Gondim, sabia que muita coisa em minha vida mudaria a partir dali.
     
 JÚLIA SERRADO
Capítulo 127

Leonardo via em minha companhia um bálsamo, um aconchego para fazê-lo esquecer suas angústias. Gostava de minha presença e nossas conversas sobre meu trabalho, as novidades acerca das buscas de Tancredo Flores ao paradeiro de Clara, e até os comentários feitos sobre a saudade que sentíamos da década de oitenta. Como se eu lhe proporcionasse o contato com um mundo o qual ele guardava dentro si e nunca antes fora oportunizado tocar. Juntos, falávamos bobagens, brincávamos, ríamos muito. E diversas vezes ele parava, fitava-me os olhos e agradecia pela oportunidade de experimentar a felicidade, tendo-a encontrado na simplicidade de nossa relação.
Certo final de semana, viajamos juntos, Leonardo e eu, à serra de Guaramiranga, a pouco mais de cem quilômetros de Fortaleza, onde sua família tinha uma casa. Uma bela propriedade à beira da estrada, guardando a beleza e o frio da serra. Um gigantesco jardim constituído de muito verde e diversas Flamboyants revezando a beleza de seus vermelhos, amarelos e rosas, e um lago repleto de cisnes fazendo seu passeio matinal, antecediam a bela arquitetura da mansão, que lembrava um chalé. Tudo charmoso e de muito bom gostoso. Ele parecia ter cuidado da decoração pessoalmente. O assoalho do salão de entrada, em tábua corrida, levava a uma lareira ao fundo. Diversas porcelanas brancas com detalhes azul e dourado, se espalhavam por cima de um extenso móvel de madeira maciça que ficava à direita do espaço, abaixo de duas grandes prateleiras portadoras de inúmeros quadros familiares. Do lado esquerdo, três telas ao longo da parede, de pinturas abstratas, em molduras douradas, contrastando com a decoração rústica do lugar. Ao meio, defronte à lareira, um jogo de três sofás, repletos de almofadões amarelo e laranja, além de duas cadeiras de balanço, em couro escurecido. No andar térreo da casa, encontrávamos uma enorme sala de refeições, com uma extensa mesa de vinte lugares, a cozinha e dependência de empregados, uma sala de televisão e som, com um piano ao fundo, e varandas contornando toda a estrutura, além da sala de entrada. As nove suítes ficavam no andar superior. Tudo soava conforto e beleza. Um refúgio para seus descansos.
Almoçamos, depois de um passeio a cavalo. Leonardo até parecia estar me preparando para uma revelação. E realmente estava. Já tomando um café, na sala, após o almoço, iniciou a difícil conversa a qual vinha se preparando para ter comigo e ainda não havia tido coragem.
- Exatamente quando parece estar perfeito e temos a oportunidade de saboreamos a felicidade, nos deparamos com a dura realidade que nos puxa sem misericórdia rumo à vida real. O que eu experimento hoje com você, Júlia, há muito eu não sabia o que era, que sabor e cor tinha. - Olhava para a porcelana contendo seu café, como se ali encontrasse a coragem para contar-me a verdade. E eu já não mais me agüentava de curiosidade. O que teria Leonardo para me dizer de tão importante, para tantos rodeios?
- Não compreendo o que está querendo dizer, Leonardo.
Ele deu um suspiro e prosseguiu sua fala:
- Falo de mim, de como levei minha vida até hoje. Depois de tantos anos, percebo que a minha felicidade foi despertada de um sono profundo, pela simplicidade vivida em nosso encontro, a cada dia. Júlia, eu pertenço a um mundo de luxo, dinheiro, imagem, aparências, onde nos perdemos de nós mesmos e nos tornamos escravos de nosso desejo de possuir. - Colocou a xícara em cima da mesinha que ficava no centro do jogo de sofá, levantou-se e caminhou até um dos quadros da sala, depois voltou-se a mim novamente, continuando: - Pensamos, equivocadamente, que é essa ânsia de determos o controle das coisas, situações e pessoas, ou seja, de termos um determinado poder, que fará de nós pessoas felizes. - Direcionou-se a mim, curvando-se para tocar minhas mãos. - Hoje percebo que não, não é esse poder, o controle, essas relações de dominação, as quais eu passei a vida inteira buscando, que me fará feliz. E justo quando eu começo a experimentar a delícia de viver essa descoberta... - Tomou o fôlego mais um vez e prosseguiu: - ...tomo conhecimento de que poderei perder tudo isso.
- Do que você está falando afinal, Leonardo?
Começava a ficar com medo. Percebia que suas mãos estavam trêmulas e frias. Sentia-o frágil naquele momento. E aquilo me fazia tentar adivinhar do que se tratava. O que teria Leonardo a me dizer que pudesse acabar com toda a magia de nossa amizade?
- Há algum tempo eu descobri que estava doente. – Disse ele. Aquele ensejo foi como uma punhalada em meu coração. E prosseguiu: - Na última semana, fiquei sabendo que... - Suspirava e olhava um pouco para o lado, como se procurasse forças para prosseguir. - Na última semana, fiquei sabendo que esta doença se agravou. O fato é que eu só tenho alguns meses de vida, Júlia.
Parecia aliviado depois da revelação. Eu, no entanto, queria desaparecer. Fui tomada por uma tristeza profunda, uma revolta, uma dor em meu peito, que parecia se alastrar por todo o meu corpo e fazia latejar a cabeça. Nem sabia ao certo o que falar, se dizia algo. O que dizer frente a uma situação daquelas? Me entristecia ver um homem forte e poderoso como Leonardo Gondim fragilizado bem diante de meus olhos. E então, compreendia todo o seu discurso.
Em se tratando da vida e da morte, o poder nada mais é que uma condição social, estabelecida dentro das relações, a qual pode ser exercida em função da expressão do ser humano ou como forma de dominação sobre as coisas, situações e pessoas. Lamentavelmente a maioria de nós só se dá conta deste fato ao se deparar com a experiência da perda, da impossibilidade de expressão. E então tudo o que é controle fica pequeno e sem sentido. É exatamente quando conseguimos compreender a Divindade em nós.
- Você tem me ensinado o caminho da felicidade, Júlia. E agora que eu estou aprendendo, eu não quero perder. – Completou ele. Via os olhos de Leonardo nadar em lágrimas e o abracei, num impulso.
- Você não vai perder! Tudo ficará bem!
- Case comigo, Júlia.
Ouvi-o sussurrar e não acreditava realmente que era aquilo que eu havia escutado. Afastei-me um pouco, e pedi que repetisse.
Era exatamente o que havia ouvido. Leonardo me pedira em casamento. Levantei-me num impulso de fugir daquela situação, mas contive um categórico “não”, o qual insistia em ser pronunciado. Como casar? Não poderíamos! E a amizade que vínhamos construindo? Tudo mentira? Antes que pensasse em questioná-lo, ele tratou de ressaltar a nossa amizade, a grande relação de respeito e cumplicidade a qual havíamos construído. Não negava, contudo, o amor que vinha nutrindo em seu coração e que o motivava a prosseguir sua caminhada naquele momento difícil de sua vida.
- Estou completamente apaixonado por você, Júlia!
Experimentava um misto de alegria e decepção, ao ouvi-lo declarar-se a mim. Sabia o quanto era especial e estava sendo importante em minha vida, no entanto, eu não sentia mais que amizade, carinho, consideração e respeito, o que não se fazia suficiente para um casamento.
Lembrando de meu comprometimento de viver a verdade custasse o que custasse, indaguei:
- Sabe que eu não o amo, não sabe?
- Sei. - Respondeu-me sem rodeios. Aproximou-se de mim e prosseguiu: - Sei que ainda ama Pedro Lucena. Juro que não espero que venha a me amar como homem. Quero apenas ficar o pouco de vida que me resta ao seu lado.
Desejei abraçá-lo mais uma vez, e o fiz. Parecia frágil, necessitando de colo e cuidado. Não poderia, ainda assim, ser falsa com meu coração. Um casamento com Leonardo não era o que sonhava para mim. Amava a Pedro e queria ficar ao seu lado.


CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 128

Com a ajuda da vizinha, Ceiça finalmente desmascararia a namorada do filho e o livraria da vergonha popular. Pelo menos, era o esperado. Numa das madrugadas em que o rapaz entrara na casa de Salete com Vera Sheila, minha amiga saíra de casa determinada a acabar com a situação. Passara para o quintal de Salete, pela casa da vizinha. Daquela vez a sorte parecia estar do seu lado, encontrando a janela dos fundos da quase nora, entreaberta. O que uma mãe não é capaz de fazer pela felicidade de um filho? Mesmo com dificuldade, enfrentando o pânico dos sapos ali do quintal, pulara a janela, estando prestes a conseguir o tão esperado flagra.
Ceiça experimentava certo nervosismo, por não saber o que encontraria pela frente, mas estava determinada. Podia ouvir ainda da cozinha, as gargalhadas, os sussurros vindos do quarto, que iam ficando cada vez mais nítidos ao aproximar-se de sua fonte. Caminhando orientada pelas vozes vindo do quarto e pela penumbra estabelecida na cozinha através da abertura da janela, possibilitando a claridade da lua, assim como por uma réstia de luz fraquinha, provavelmente propagada de um abajur do mesmo ambiente de onde vinham os sussurros, que parecia quase desaparecer ao final do corredor ao qual entrava.  No exato momento em que chegara na porta do quarto, percebera que o celular que seria usado para tirar as fotos, as provas que livrariam seu filho das garras daquela devassa, encontrava-se desligado. Não poderia perder tempo. Tratou então de ligar o aparelho o quanto antes, enquanto continuava ouvindo as conversas, nas quais Salete e Vera Sheila elogiavam o desempenho do rapaz, afirmando ter ele se superado naquele instante. Os três riam e festejavam, brindando o acontecido, até então desconhecido, embora imaginasse bem do que se tratava. 
E finalmente, ao conseguir ligar o aparelho celular, Ceiça surpreendera Salete e os amigos na cama, ainda sem roupas.
- Finalmente, sua vigarista!
Procurava tirar as fotos, as quais serviriam de provas da infidelidade da mulata erótica, como também a chamava. O rapaz e as moças procuravam se esconder nos lençóis.
- Pára com isso, sua megera louca!
Finalmente Salete seria desmascarada e Dorival estaria livre de suas garras, segundo Ceiça. Quando aquelas fotos chegassem às mãos de seu filho, tudo estaria acabado e a aventura de detetive findaria.
Ceiça estava coberta de razão acerca de Salete e sua traição, porém a via muito mais determinada em provar sua força, seu controle junto ao filho, do que realmente zelar por sua felicidade. Não sei se seria diferente com qualquer outra moça. O rapaz já passava dos trinta anos e nunca conseguira levar nenhum relacionamento mais sério a fundo. Sua mãe estava ali, sempre apontando os defeitos, as diferenças gritantes, segundo ela, que distanciavam a candidata do jeito de ser de Dorival, tratando de acabar com a possibilidade de união. As namoradas do rapaz deveriam atender aos seus próprios anseios, não os do filho. Deste modo, ficava cada vez mais difícil de vê-lo casado. E, sobretudo, de pensar sequer na hipótese de um dia Dorival sair de casa. Ah, isso não! Jamais concordaria em se separar de seu pupilo, seu predileto.
Para mim, mamãe estava certa. Dizia ela criar os filhos para o mundo, não para si. Precisamos apoiá-los, proporcionar-lhes estrutura e manutenção para o seu crescimento físico, intelectual e psicológico, mas só. Cada pessoa tem sua própria vida e não temos o direito de tentar roubar a vida de nossos filhos, para que eles vivam o que não conseguimos viver. Quando o fazemos, nos afastamos do amor incondicional. E isso certamente era o caso de Ceiça. Cheguei a lhe questionar algumas vezes, como amiga que sou, sua postura acerca do filho. Tudo em vão. Jamais reconheceria o controle, assim como a maioria das pessoas, camuflando as atitudes manipuladoras de manutenção de seu reinado através dos belos discursos de cuidado, proteção e preservação da felicidade do filho.
Em relação a essa questão, filho meu não poderia jamais reclamar. Por mais que eu sofresse com a distância de Holanda, pelas brigas com o pai, ou pelos longos períodos sem saber notícias de Ronie, proporcionava-lhes toda a liberdade possível em nossa relação, procurando me afastar de qualquer atitude de controle que almejasse uma aproximação forçada, fora da vontade natural de estar perto e saborear a presença da relação familiar. E como mamãe havia me ensinado, nunca considerei ser menos amada por meus filhos, por conta da distância estabelecida em nosso convívio.

JÚLIA SERRADO
Capítulo 129

A proposta de Leonardo era, na verdade, que nos casássemos a fim de que estivéssemos mais perto um do outro, nos meses seguintes, para que provasse ainda mais da felicidade sentida ao meu lado, antes de sua partida. Nada demais precisaria acontecer entre nós, ou seja, permaneceríamos somente amigos, embora que com um tempo maior na companhia um do outro.
- Eu sei que pode parecer loucura, Júlia. Mas na situação em que eu me encontro, todas as loucuras me são permitidas. Eu jamais me perdoaria se não atendesse ao último pedido de meu coração. - Leonardo aproximou-se de uma janela que dava para o lago, na frente da casa. De lá, podia avistar os cisnes nadando, como se aproveitassem plenamente toda a natureza a sua volta. Pensara ser daquela forma que queria estar nos últimos meses de sua vida. - Cansei de me privar do que realmente me deixa feliz! - Voltou-se então a mim. - E o que me deixa feliz hoje... é a sua presença!
Estava confusa, o que não me permitiria uma resposta imediata. Necessitava de um tempo para colocar as idéias em ordem e decidir que atitude tomar, como me livraria daquela situação e diria a Leonardo que não era aquela a melhor solução, sem magoá-lo e tirar-lhe a esperança de viver o que então considerava como possibilidade de felicidade nos meses restantes de sua vida.
Mal eu ficara sabendo da doença terminal de meu melhor amigo e já havia sido pedida em casamento por ele, o que me deixara meio perturbada nos dias que se seguiram. Parecia realmente loucura, como o próprio Leonardo taxara. E mais uma vez eu me via numa situação complicada, tendo que escolher entrar ou não numa relação indesejada, como na época em que havia sido convidada por Donato Pessoa a participar do plano de sedução a Pedro, para conseguir o dossiê a seu respeito. Somente aquela lembrança já me dava motivos mais que suficientes a me negar à proposta de meu amigo.
Necessitava, contudo, encontrar uma forma de expor meu sentimento a Leonardo, sem causar-lhe mais sofrimento, o que estava me tirando o sono. D. Clarinda e Raquel se mostraram completamente contra a idéia. Não admitiam um casamento sem amor, embora que este fosse somente uma fachada, um faz de contas. Roguei a Deus uma luz em minha decisão.

* * *

A única coisa que realmente me tirou do foco da proposta de casamento que eu havia recebido, fora uma visão, mais que inusitada, alguns dias depois do final de semana em Guaramiranga. Ao sair da Mirage, após uma noite de trabalho, avistei Olívia Cordeiro entrando num carro, em frente à boate. Carro este, com Guel Serrado, meu cunhado, em seu volante.
O canalha finalmente voltara. Depois de quase um ano de seu crime, o roubo de minha filha, Guel aparecia. Talvez fosse a peça que nós precisávamos para saber do paradeiro de Clara. Melhor que isso, eu poderia colocar aquele monstro na cadeia. O que eu realmente não estava tendo a compreensão era qual relação teria ele com minha chefe. O que não seria muito difícil descobrir ao sondar sua secretária, Izaíra, já que esta adorava uma fofoca.
Segundo Izaíra, Guel Serrado era o novo namorado de Olívia e já vinham mantendo uma relação sigilosa há algum tempo. O objetivo de nossa chefe era apostar numa nova história, longe dos holofotes dos fofoqueiros de plantão, afim de que tivesse um pouco mais de sorte, diferente dos diversos relacionamentos fracassados que experimentara a sua vida inteira.

Além da dura resposta que teria de dar a Leonardo, pondo um fim a sua esperança de passar seus últimos meses casado comigo, eu tinha então mais uma grande responsabilidade. Olívia era uma boa pessoa e precisava estar ciente, infelizmente, de quem era Guel Serrado e do que era capaz.

CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 130

Eu provava freqüentemente da amargura da saudade de minhas crianças. Um sentimento que se potencializava diante da presença sinistra de meu marido, sobretudo, quando bebia. O que acontecia quase sempre. A relação amistosa experimentada logo após sua saída da cadeia, já não se fazia mais presente. Por mais que fossem situações constrangedora e não naturais os encontros com Alceu, quase vinte e quatro horas por dia, na época em que voltara para casa, pelo menos eu me sentia mais segura, achando que não me agrediria, depois de ter sido preso.
Mas já não tinha mais tanta certeza de minha segurança. A cada saída de Nando para o trabalho, o que acontecia diariamente, e o dia inteiro, entrando muitas vezes pela noite, restava-se o desassossego causado pelo medo de meu marido. O que eu me obrigava a guardar somente para mim. Apostava na recuperação de Alceu, embora sem ter mais muitas esperanças e não poderia correr o risco de contar aos meninos, que tanto fizeram para que eu não mais vivesse aquela situação, e na certa agiriam contra o pai, pela minha proteção. E se aquilo acontecesse eu jamais me perdoaria. Além do quê, estaria eu contribuindo para a quebra de minha promessa. Consciente disso então, contar aos meninos, seria manipulá-los a fazer o que eu verdadeiramente desejava e faltava-me coragem. Contudo, poderia eu enganar aos meninos, a Alceu, menos a mim mesma e a Deus. Com esta atitude estaria a promessa quebrada e seria eu, mesmo que indiretamente, a total responsável.
Certa noite, depois de passar o dia inteiro jogando e bebendo na companhia de Quaresma, como de costume, Alceu entrara no quarto eu já estava dormindo. Acordei com meu corpo sendo apalpado por aquele homem asqueroso. Após trinta e seis anos de um casamento infernal chegava a sentir nojo quando era tocada por ele. Minhas carnes pareciam repugná-lo por elas mesmas, como se eu não pudesse dominá-las. Pensei em fingir continuar dormindo, mas se o fizesse ele poderia me agredir, chamar a atenção de Nando, que dormia no quarto ao lado. Abri então os olhos e me voltei a ele, como queria. Abominei o sorriso em seu rosto transfigurado de tanta bebida. O cheiro de cachaça exalado por ele me embrulhava o estômago. Graças a Deus não procurava me beijar a boca, limitando-se em apartar-me o corpo enquanto saciava seu desejo de sexo. Um momento rápido, cinco minutos no máximo, que parecia uma eternidade. A mim, restava apenas fitar a luz do teto de nosso quarto, que ultrapassava, sem piedade, o lustre velho remendado com cola. A luz impiedosa seria Alceu, para mim, bem como o forte lustre, que há muito poderia ter ido para o lixo, era como meu corpo. Ele, porém, poderia até me penetrar com sua carne imunda, mas jamais me corromperia a alma. Como o velho lustre, mesmo remendado, permaneceria ali, firme no meu propósito.
Precisava apenas não contrariar Alceu e assim evitar qualquer agressão. Como ele mesmo colocara muitas vezes, meu destino estaria nas minhas mãos. Por um instante senti nojo de mim mesma em pensar daquela forma. Era como se me visse, de algum modo, sendo corrompida, procurando acreditar no que não acreditava a fim de facilitar a minha vida. E então, o velho lustre estaria despedaçado. Não! Não seria eu a responsável pela minha integridade física em se tratando de Alceu. Percebia naquele instante a minha própria fuga. Encontrava-me à procura de subterfúgios que explicassem a situação e amenizasse a dor de minha própria alma, na qual tinha em mim mesma a sua principal autora. Seria mais fácil aceitar o meu calvário caso conseguisse inocentar aquele homem. Quantas armadilhas nós mesmos não criamos para nós?
O fato era que eu havia apostado numa mudança de vida por parte de Alceu e ele mesmo vinha procurando me provar a cada dia, naqueles últimos meses, o meu grande fracasso. Restava-me somente arcar com as conseqüências da manutenção daquela promessa que me acompanhava vida a fora.
Vivia então aterrorizada, por temer sair da linha, de uma conduta estabelecida silenciosamente por Alceu e ser obrigada a pagar, punida pelo não cumprimento daquilo ao qual eu nem tinha consciência. Eram regras que poderia mudar a cada dia, dependendo de seu humor ou necessidade. Não obstante, o universo se encarregava de dar uma forcinha, como de outras vezes.
Alguns dias depois daquela última noite, na qual me obriguei a saciar as necessidades sexuais de meu marido, recebi uma ligação inesperada de Adriano Cordeiro. Jamais esqueceria aquela voz, perguntei de quem se tratava somente por uma questão de costume ou por procurar ganhar tempo e raciocinar o que dizer, o que fazer, frente aquela surpresa. Creio que se tivesse alguém na sala de nossa casa, além da bagunça de cortes de roupas espalhados por sobre a mesa e sofás, logo perceberiam o quanto fiquei vermelha, aflita com a ligação. Havia passado meses desde a última vez em que havíamos nos visto. Episódio responsável pela alteração de Alceu e o desequilíbrio que o levara a me espancar.
- Sou eu, Adriano, Clarinda. Tudo bem com você?
Bem até estava antes da ligação. E nem sabia responder-lhe. Me odiava por parecer uma boba, diante de uma situação tão comum. Uma simples ligação. Na certa, queria saber alguma coisa de Júlia, e eu engasgando, nervosa nem sabia ao certo por quê.
Tratou-se de um telefonema rápido, no qual realmente queria saber como faria para falar com a minha vizinha, pois precisava entrar em contato com ela urgentemente, sobre algo relacionado a Pedro Lucena. Nem entendi ao certo do que se tratava, não sei se por ele me explicar rapidamente ou se por eu não conseguir ouvi-lo, por conta de meu nervosismo. E quando procurara saber de mim ou sobre os meninos, respondi-lhe com monossílabos, deixando-o numa situação um tanto constrangedora, sem assunto ou sem dar sentido ao que me falava. Logo agradeceu, falou-me ainda carinhosamente de sua saudade, por nossa falta de contato e finalmente desligou.
- Quem era ao telefone?
A pergunta veio como uma punhalada em minhas costas, fazendo-me deixar cair o telefone, pelo susto. Alceu estava bem detrás de mim, trazendo em seus olhos a mesma fúria dos momentos em que me agredia, durante todos os anos em que estivemos casados.

Senhor, o inferno voltaria a acontecer!



Parte IV
Dezembro de 2006


JÚLIA SERRADO
Capítulo 131 

Fazia quase um ano que minha filha havia sido tirada de mim. Muita coisa acontecera com meu impulso de encontrá-la. E em nenhum momento eu perdi as esperanças. Rezavas todos os dias, em todos os momentos para que isso acontecesse. 
Entrando o mês de dezembro de 2006, Leonardo Gondim me deu mais uma grande ajuda no caso de Clara. Requisitando uma série de reportagens especiais sobre crianças desaparecidas, durante uma semana, no Revista Notícia – A Máquina da Informação, principal telejornal da RTN. Fui entrevistada, e o caso de minha filha ficou no ar por mais de vinte minutos, em horário nobre. Acreditávamos que com aquela reportagem conseguiríamos achar uma pista do paradeiro de Clara.
Deus ouviu minhas preces!
O relógio do lado da mezinha de cabeceira  do meu quarto marcava cinco e quarenta da manhã quando o meu celular tocou. Acordei meio atordoada, sem olhar direito o número no visor.
- Alô, Júlia?
- Sim. Quem é? – Respondi ainda com voz de sono.
- Tancredo. – Disse do outro lado a pessoa.
O repórter investigativo da RTN que o Leonardo havia pedido para tentar desvendar o caso de Clara.
- Oi, Tancredo. – Falei mais atenta. Poderia ser alguma noticia importante sobre minha filha. Fazia dois dias que o desaparecimento de Clara havia sido exibido na televisão. – Alguma novidade?
- Muitas, Júlia.
Senti meu coração quase pular. Levantei da cama num impulso.
- O que aconteceu? O que você descobriu?
- Há uma meia hora fui procurado por uma mulher, no apart-hotel onde estou hospedado. – Revelou Tancredo do outro lado. – Ela afirmou estar com sua filha, Júlia.
Senti todos os meus cabelos arrepiados e um frio na espinha.
- Você tem certeza?
- Foi o que ela me disse.
- E onde ela está agora?
- Foi embora. Ficou de me ligar em meia hora, para saber de minha decisão.
- Que decisão, Tancredo?
- Ela não quer a polícia envolvida no caso. Disse que se avisarmos a polícia, nunca mais teremos notícia de Clara. Eu não poderia resolver sozinho. O que você acha, Júlia? Avisamos ou não?
O   que responder? Era injusto que os criminosos responsáveis pelo roubo de Clara ficassem impune. Foi tirado de mim o direito de conviver com minha filha por um ano inteiro. Cometi loucuras por causa daquilo. E agora, não ficar sabendo quem tinha orquestrado o crime? O que eu achava mais estranho era  a venda ao ter sido efetuada. E se o casal de holandeses não havia ficado com Clara, Guel não teria então recebido o pagamento.
- Ah, Tancredo... – Hesitei. – Não sei o que fazer.
- Por isso eu liguei.
- O que você acha? – Precisava de uma opinião.
- Por mim, nós ligávamos sim. Não podemos deixar essas pessoas impune, Júlia. Esse é o risco que corremos, caso não chamemos a polícia.
- Mas eu fico com medo, Tancredo. E se essa mulher desaparece? Se ela some para sempre com minha filha?
- A minha idéia seria que nós deixarmos a polícia pensar numa estratégia. Eles têm pessoas treinadas para isso, Júlia.
- Eu fico com muito medo.
- Compreendo.
- O Leonardo sabe?
- Sim. Liguei para ele logo em seguida.
- O que ele acha?
- Também tem medo.
- Está tomada a decisão, Tancredo.
- E então?
- Espere que essa mulher ligue novamente. Consiga minha filha para mim. Se chamarmos a polícia agora, posso perder Clara para sempre. Não quero correr esse risco. Vou pegar um táxi e ir para seu apart-hotel agora.
- Está bem. Farei como me pede.
- Tancredo?
- Sim?
- Eu confio em você.
- Obrigado, Júlia. Não se preocupe. Logo estará com sua filha.
Desligamos o telefone e tratei de me arrumar imediatamente. Não poderia perder tempo. Minha idéia era de pegarmos minha filha de volta e depois acionarmos a policia. E aí deixaríamos que ficasse por conta da justiça.
Agradeci os anjos que Deus colocou em meu caminho. Leonardo e Tancredo tudo fizeram para me ajudar a encontrar Clara. Sentia que em breve eu estaria com minha filha de volta em meus braços.
No trajeto até o apart-hotel de Tancredo, no Meireles, assisti a um filme em minha cabeça: A perda de Clara um ano antes, a morte de Joel, o acordo com Donato Pessoa, o encontro e as mentiras com Pedro, a descoberta de uma irmã que não cheguei a conhecer, a amizade de Leonardo. Chorei por toda a dor que eu sentia com a ausência de Clara.
Como minha filha estaria? Teria então dois anos e três meses. Certamente já andava e falava. Doeu não ter em minhas lembranças suas primeiras palavras. Nunca mais ninguém me tiraria de perto de Clara. E naquele momento, ainda o medo de dar tudo errado, da mulher estar blefando ou desistir de entregar minha filha. Pensava se não teria sido melhor avisar a polícia, como Tancredo havia sugerido. Não seria mais uma atitude errada de minha parte? Que Deus estivesse comigo então! Preferi seguir minha intuição e proceder como combinara com Tancredo.
Quase não encontrei o dinheiro para pagar o táxi, na porta do prédio onde Tancredo estava hospedado, na Av. Abolição. O elevador pareceu demorar uma eternidade para chegar. Eu estava muito nervosa, preferi não ligar mais, por medo de receber alguma notícia negativa. Mas certamente não tinha dado nada errado ainda, visto Tancredo também não ter ligado.
Meu coração quase saiu pela boca quando o elevador parou no décimo sétimo andar, onde ficava o apartamento de Tancredo. Rezei que ele tivesse boas notícias ou que Clara estivesse a salvo. Antes que eu tocasse a campainha, a porta se abriu. Era o anjo que estava me ajudando a encontrar minha filha.
- E então, Tancredo? – Era notório meu nervosismo.
Tancredo sorriu.
- Entre. – Abrindo caminho para que eu passasse.
- Por favor, Tancredo, me diz o que aconteceu.
Temia ouvir o pior, embora ele tivesse sorrido. E eu me deparei com Pedro, sentado no sofá.
- Pedro?
- Olá, Júlia. – Levantando-se, com um sorriso. – O Tancredo me ligou e eu queria estar aqui.
Olhei para Tancredo, como esperando uma explicação. O que tinha Pedro a ver com aquela história?
- Júlia, eu vim para a RTN pelas mãos de Pedro. Foi ele que sugeriu ao Leonardo que me contratasse. – Revelou Tancredo.
- Mas o Leonardo me disse que a idéia inicial de lhe contratar foi para ajudar a procurar minha filha. Sendo você um investigador nato, segundo ele.
- E foi. – Completou Tancredo. – Mas a idéia partiu de Pedro.
O homem que eu amava estava empenhado em me ajudar a encontrar Clara. Até então ele nunca havia demonstrado interesse ou preocupação. Nossos encontros eram sempre regados a desentendimentos constantes.
Uma grande surpresa.
- Eu queria estar aqui com você, Júlia. – Revelou Pedro. – Se foi a Clara que fez com que nós nos encontrássemos, eu queria estar presente no momento que você a encontrasse.
Meu coração pulava de alegria. Não contive as lágrimas. A indiferença de Pedro acerca do caso de Clara, que eu pensava existir, na verdade não passava de fantasia. Como um anjo, silenciosamente, ele havia feito tudo o que podia para que eu encontrasse a minha filha.
- Obrigada. – Minha fala quase não se fazia ouvir, pela minha emoção. Foi Pedro quem se aproximou e me abraçou. Por alguns segundos relaxei em seus braços, acolhida por seu calor. Percebia que ele sorria.
- Nós temos uma surpresa para você. – Contou Pedro baixinho, como quem conta um segredo bom. Foi quando saí do aconchego de seus braços. Ele estava com grande sorriso, assim como Tancredo.
- Do que vocês estão falando? – Procurei saber, tremendo de ansiedade.
- Venha comigo até quarto. – Disse Pedro, estendendo a mão. Tratei de segurá-la, seguindo-o. Talvez a mulher da qual Tancredo falara ao telefone estivesse ali com notícias de Clara. E quando entrei no ambiente, guiada por Pedro, avistei uma criança dormindo na cama logo à frente.
Todos os problemas de minha vida pareciam estar resolvidos ao ver aquela imagem. Uma linda menina, de cachinhos ruivos, entregue a um sono profundo, agasalhada nos lençóis de Tancredo, como se protegida de perigo.
Senti como se estivesse em um outro universo, na presença única de Clara. A imagem de minha filha dormindo logo ali diante de mim se distorcia por conta de minhas lágrimas. Toquei em seu rostinho tranqüilo como em uma pedra preciosa, tomada pela emoção de reencontrar minha filha, depois de um ano distante, sem nada saber a seu respeito, furtada do direito de vê-la crescer, aprender a falar e dar os primeiros passos. Ela estava enorme, diferente.
- Clara dormiu pouco antes de você chegar. – Explicou Tancredo, da porta do quarto. – Chorou um pouco, mas nada que Pedro não desse conta. – Completou, sorridente.
Olhei para Pedro, agradecida. E ele também sorria.  
- É linda sua filha. – Disse Pedro.
- Ela está muito diferente! – Respondi, sem saber ao certo o que eu sentia. Era tudo muito estranho, novo. Havia passado o último ano lutando para encontrar minha filha, e de repente, ela estava ali, bem diante dos meus olhos, crescida, com um rostinho diferente.
- Já passou um ano, Júlia. – Tentou explicar Pedro. – Neste período eles mudam muito. – Completou com a experiência de quem já é pai de um garotão.
Voltei-me para Clara e continuei acariciando seu rosto miúdo. Ela nunca mais sairia de perto de mim. Talvez o que estivesse estranhando, fosse a força da distância entre nós duas naquele último ano. Eu havia perdido um bebezinho e me deparava com uma linda menina. Tive vontade de abraçá-la, hesitei por não querer acordá-la, mas não me contive. A dor permanente que me acompanhara no ano de 2006, com a distância de Clara e ausência total de notícias, era naquele instante amortizada com a presença daquela criança.
Finalmente encontrava minha filha.


MARINA PESSOA
Capítulo 132

Passei minha vida inteira sonegando a mim mesma o direito de sentir ou de fazer algo que eu verdadeiramente quisesse por puro medo de ser rejeitada, primeiro por minha irmã, depois por meu marido. Chegava o momento de eu tomar coragem de lutar por uma coisa que eu considerava importante em minha vida.
O que de melhor havia me acontecido naquele ano de 2006, tinha sido o encontro com Holanda. Era pela sua presença em minha vida, que eu devia lutar. Precisava apenas contar a Donato de nossa amizade, do quanto aquele amigo me era importante. Sendo ele a única pessoa com quem eu vinha construindo uma relação de amizade nos últimos anos.
- Donato, eu preciso lhe contar uma novidade. – Aproveitei o bom humor de meu marido ao chegar em casa.
- Notícias boas? Ótimo. – Disse ele depois de me beijar, indo para o escritório, sem me dar muita importância.
Tratei de acompanhá-lo.
- Pela primeira vez em muitos anos eu consigo fazer um amigo. – Revelei, ansiosa. Estava trêmula. Temia sua reação.
- Um amigo? Que bom, minha querida. – Respondeu novamente sem dar muita importância, procurando alguma coisa em cima da mesa do escritório. – Marina, você sabe onde está aquele meu pen-drive preto?
- Donato, eu estou falando de um grande amigo. – Insisti.
- Não podemos falar sobre ele depois?
- Não, Donato. – Comecei a me irritar. Era uma cena que se repetiu o nosso casamento inteiro. Eu e minhas questões sempre sendo deixadas para depois. – Tem que ser agora.
- Muito bem. – Sentou-se, oferecendo-me a atenção de que eu precisa. – De quem está falando? De D. Deise?
Eu sempre me magoei com a pouca importância dada por Donato às questões que diziam respeito a mim. Era como se fizesse pouco de mim e de meus sentimentos.
- Não, Donato, não é de nossa emprega que eu estou falando. – Meu tom era de impaciência. – Falo da pessoa que me ajudou naquele dia que eu fugi daqui.
Vi os olhos de meu marido mudarem. Agora ele me daria atenção. Talvez eu tenha dito aquilo exatamente para provocá-lo.
- De quem você está falando, Marina?
- De Francisco de Holanda, o diretor superintendente da WM.
Estava gelada, mas firme. Enfrentava não somente o controle de meu marido sobre mim, mas o medo de me expressar, a mim mesma. Deixei Donato perplexo.
- O que esse Francisco de Holanda tem a ver com aquele dia?
Contei como tudo havia acontecido. Corria o risco de meu marido odiar Holanda de cara por ele ter me ajudado, me escondido. Mas precisava ser honesta. Donato teria que conhecer toda a história, para perceber a importância daquele rapaz em minha vida.
- Marina, o que é isso? Algum tipo de brincadeira? – Donato naquele momento era pura atenção. Olhava-me como se não me reconhecesse naquela atitude ou na forma natural com o qual narrei a história de minha fuga. – Você não está querendo que eu acredite que agora você se tornou amiguinha de um indivíduo que conspirou contra a harmonia do meu lar, está?
- Holanda não é um “indivíduo”. – Precisava defendê-lo. Usei a história da fuga para ganhar a atenção necessária para aquela conversa. A estratégia então seria limpar a barra de Holanda. – Ele foi a única pessoa que me ajudou no momento que eu mais precisei.
- Fazendo a sua cabeça contra nós? – A pergunta de Donato tinha um tom de ironia. Ele se ergueu, como se tentasse me intimidar.
- Não. – Respondi no ímpeto, aproximando-me ainda mais dele. Pela primeira vez o enfrentava de igual para igual. – Pelo contrário. Ele até questionou a minha atitude. Se dependesse de Holanda, eu teria voltado para casa no mesmo dia em que saí.
- Jogo. Puro jogo desse rapaz. – Contornou a mesa me cercando. – Primeiro faz você pensar que está do nosso lado, depois vai pondo dúvidas na sua cabeça ao poucos, sem que você perceba.
- Como julga alguém desse jeito, sem mesmo conhecer? - E eu bem sabia. Aquela era uma estratégia do próprio Donato. “Comer pelas beiradas”, como ele muitas vezes dizia. “Soprar para depois morder.” Meu marido fizera aquilo a vida inteira. Não tinham, deste modo, como pensar que alguém seria diferente. - Holanda não é maquiavélico como você diz.
- Todos nós somos, assim necessitemos.
- Pronto, chegamos ao ponto, Donato. – Seria a minha saída. – Você considera a relação com todos as pessoas como um jogo de ganhar ou perder. Assim todos são seus inimigos. Bem como, para você, as pessoas consideram umas às outras como tal. Mas na vida real, a coisa não é bem assim. As pessoas criam vínculos, envolvem-se umas com as outras, preocupam-se mutuamente com seu bem-estar, ajudam o próximo sem esperar nada em troca.
- Pura filosofia, Marina. São essas as tolices que esse rapaz está incutindo em sua cabeça.
- Não são tolices! E não é o Holanda que me faz pensar assim! – Meu tom já estava irritado. Donato nunca acreditou em mim como uma pessoa autônoma capaz de pensar e ter idéias próprias. E pior, me fazia também acreditar naquilo. Ou seja, seu julgamento acerca de meu relacionamento com Holanda não passava de projeção da estrutura de nosso próprio casamento. Exatamente por isso pensava ser possível que meu amigo estivesse fazendo o mesmo. – Talvez eu sempre tenha pensado assim, Donato. Mas somente agora estou tendo coragem de assumir.
- E quem está lhe encorajando? Só pode ser ele.
- Não se trata de Holanda, eu já disse! – Aquela afirmativa veio quase como um grito. – São sentimentos meus.
- Que não são saudáveis para nosso casamento. E até agora estavam adormecidos. Esse é o problema, minha querida.
- O único problema se resume ao fato de que eu nunca tive coragem de deixá-los sair. – Procurei conter o choro. Não queria demonstrar fragilidade. Era sempre nesse ponto que meu marido conseguia me calar. E isso eu não permitiria. – Eu cansei, Donato. Só isso. Eu cansei!
- Bobagens, minha querida. – Aproximou-se acariciando meus ombros. – Nós precisamos apenas nos afastar de pessoas más como esse rapaz, e tudo ficará bem, votará a ser como era antes.
- Como era antes?
Veio-me os anos de silêncio, a verdade da minha alma sendo abafada a vida inteira, o medo de me expressar. Não! Eu não queria que voltasse a ser como era antes. Ou seria uma nova história ou não seria mais nada.
- Marina, nós nos amamos, isso é o que importa. Todo o resto é tolice, uma infantilidade de momento. – Novamente se aproximou, tocando meu queixo e o conduzindo de forma a me fitar os olhos. – Minha querida, você está iludida com bobagens. Esse rapaz percebeu a sua ingenuidade e se aproveitou disso. Mas não se preocupe, eu vou dar um jeito em tudo, como sempre fiz. – Acariciando o meu rosto. – Você é ainda muito menina. Pessoas mal-intencionadas podem se aproveitar dessa pureza.
“...eu vou dar um jeito em tudo, como sempre fiz.”
Essa frase ficou ecoando em meus ouvidos.
Encontrava-me farta da postura de Donato frente a mim. Como se me sentir fraca o fortalecesse.
- Donato, o que eu sempre quis foi que você me ouvisse. – Era meu último apelo. Pronunciei aquilo quase sem esperanças.
- Mas eu estou ouvindo. – Sorria com o mesmo descaso e tom sarcástico de tantos anos. – Apenas é uma tolice. Como a pessoa mais madura da relação, eu tenho a obrigação de lhe orientar. É uma tolice, Marina. – Donato ria, balançando a cabeça negativamente, desdenhando de meu apelo.
“Tolice.” Ouvi isso em todos os ano em que estivemos casados.
E naquele momento eu deixei de ouvir meu marido com seus argumentos que desconsideravam qualquer possibilidade de autonomia de minha parte, colando-me numa redoma, afastando-me do resto do mundo.
Por um instante vi o menino de meus pesadelos ali na sala, perto da janela, com o rosto sendo escondido em intervalos de segundos pelas cortinas que eram jogadas de um lado para o outro pelos fortes ventos da Beira Mar. Pela primeira vez ele trazia no rosto um olhar ameno.
O som da fala de Donato era substituído inteiramente pela música da clareza de minha alma. E eu me senti feliz. Não por saber de minha vida uma grande prisão, projetando em meu marido o algoz escondido dentro de mim mesma, mas por conseguir enxergar aquilo depois de anos e ter a certeza de não ser preciso prosseguir.
Talvez tenha sido esta síntese que aquele garotinho tenha tentado me dizer em todos os pesadelos os quais protagonizou.
Tolice foi achar que eu encontraria a felicidade em alguém. Não! Nem Donato, nem ninguém me entregaria a felicidade, nunca!
Movida pela minha verdade que eu descobria, num surto de silêncio restaurador, deixei a sala, tomando o corredor que dava para nosso quarto, sem perceber que Donato me seguia, justificando talvez o total isolamento no qual eu vivi dentro daquela relação, numa fala que eu não conseguia ouvir. Tudo era silêncio. Peguei uma bolsa de viagem no armário de nosso closet, deixando-a em cima da cama. Ali coloquei algumas peças de roupas, calçados, pertences pessoais.
- Marina, o que você está fazendo?! – A pergunta de Donato era um grito. A única forma de se fazer ouvir.
Talvez tenha me faltado a força de gritar durante aqueles cinco anos.
Prendi o cabelo num coque, desfazendo a aparência impecável que mantive, por orientação de meu marido, por todos aqueles anos. Sorri e fechei o zíper da bolsa.
- Agora é um outro momento, Donato. – Falei tranquilamente.
- O que você está querendo dizer? O que significa esta bolsa? – O tom de Donato era de quase desespero. – Eu estava falando com você e parecia que você não me ouvia. Você está surda?
- Não. – Respondi simplesmente. – Pelo contrário. Estou ouvindo a mim mesma pela primeira vez em minha vida.
- Você não está em seu estado normal, Marina.
- Errado, Donato. Eu não estive em meu estado normal por cinco anos.
- Para onde você está pensando que vai?
- Nós precisamos de um tempo.
- O quê?
- Ou melhor, eu preciso de um tempo.
- Do que você está falando?
- Eu necessito saber mais de mim, Donato. Você ou qualquer pessoa não pode se apaixonar por mim porque eu não êxito.
- Que loucura é essa, Marina?
Percebia naquele instante que eu havia me anulado em função de meu marido. Talvez por medo ou covardia. E que era quilo minha maior prisão. Não meu casamento ou as exigências de Donato, mas a minha fraqueza diante daquelas exigências. Eu tinha me perdido e precisava desesperadamente me encontrar.
Voltei-me para meu marido e toquei em seu rosto com carinho. Donato não era culpado por seu desejo de poder, mas era eu a única responsável por minhas escolhas. Assim como todos nós.
- Talvez em outro momento quando eu souber verdadeiramente quem sou nós possamos nos encontrar. – Desabafei.
Beijei seus lábios delicadamente, deixando-o. Peguei a bolsa e saí do quarto, da casa que ostentava uma decoração exageradamente luxuosa, pensada por Donato,  e que nada me traduzia.

CELINA GODIM
Capítulo 133

Estava quase no final do expediente quando Lorena, a secretária de minha irmã Maria Eugênia anunciou uma pessoa, dizendo ser importante recebê-la. A vice-presidente da RTN surpreendeu-se ao ver a imagem de Ronie em seus escritório. Audácia! Como um garoto de programa de sua lista secreta de prazeres ousava procurá-la em seu local de trabalho? Certo que aquele rapaz e ela tinham tido muitos momentos juntos nas semanas anteriores. O que não lhe dava jamais o direito de uma atitude daquelas. E o que ele queria? Foi o que primeiro perguntou.
- Eu queria conhecer onde você trabalhava. – Respondeu Ronie com a maior cara-de-pau, brincando com o crachá preso no bolso do blazer que era o único que tinha e só usava em ocasiões especiais.
- Você não tem noção do perigo, rapaz. – Falou minha irmã, indignada, já preparando-se para chamar a segurança pelo telefone.
- Epa! Não faça isso, a senhora vai se arrepender. – Advertiu rapidamente o rapaz. – É melhor a senhora me ouvir.
Só poderia estar blefando. O que um verme daquele teria contra uma mulher como ela? Pensava. Mas resolveu atendê-lo para depois expulsá-lo como um cachorro. Sentou-se, apontando para a cadeira à sua frente, para que ele fizesse o mesmo.
- Muito bem. – Fez sinal que estava a ouvi-lo.
- Pode ver isso? – Perguntou Ronie, entregando um CD a Maria Eugênia.
- Do que se trata?
- Veja com seus próprios olhos. – Disse o rapaz, sorridente.
Ela pegou o disco e colocou no drive do notebook em cima de sua mesa. Aguardou um pouco o procedimento da máquina até abrir o arquivo. E veio a imagem, deixando a poderosa Maria Eugênia Gondim perplexa. Ronie até podia ouvir os sussurros e gemidos do vídeo. Era a voz de minha irmã e de alguns homens.
- Como conseguiu isso? – Foi a única coisa que pensou em perguntar. Estava chocada. – Como gravou, onde encontrou?
Ronie deu uma gargalhada.
- Surpresa, D. Maria Eugênia Gondim?
Minha irmã não respondeu, apenas tirou o CD do computador e quebrou.
- Pronto. – Disse ela.
- E a senhora acha que não existem outras cópias? – Perguntou triunfante.
- Quanto você quer?
- Vamos conversar. Nós teremos bastante tempo.
- Você está brincando com coisa séria, rapaz. – Advertiu ela, debruçando-se sobre a mesa, apoiada pelas mãos, como se demarcasse seu espaço.
- Pelo contrário. Sei muito bem. Existem mais cópias desse vídeo, de suas sacanagens em um lugar seguro, com uma pessoa de minha confiança. Caso me aconteça algo, toda a sua família, esta empresa, toda a Fortaleza ficará sabendo que Maria Eugênia Gondim não passa de uma vaca! – Era agora ele que se debruçava na mesa, enfrentando-a. – É isso que a senhora quer?
Minha irmã suspirava de raiva.
- Muito bem. – Procurou ela se conter. – E o que você quer?
O rapaz se levantou, contornando a mesa, até as costas de Maria Eugênia. Falando baixinho em seu ouvido:
- Você... – Deu uma pausa. – Seu dinheiro... – Mais outra. – E muita, muita sacanagem. Mas só comigo.
- O quê?
Ela teve vontade de agredi-lo, mas se conteve. Sabia do perigo.
- O que você ouviu. Nada mais de listinhas no Mukifo. Eu quero a senhora agora só pra mim, entendeu?
- Não.
- Então quer que eu desenhe?
- Quem você pensa que é? – Perguntou ela com tom de superioridade.
- Agora seu dono. – Respondeu, tranquilamente, roçando-se na empresária.
- Nós estamos em meu trabalho. – Advertiu minha irmã, para que ele parasse com os gestos obscenos. 
- Quem dá as cartas do jogo agora sou eu, entendeu? – Continuando com o ato vulgar. – A senhora só obedece. – Deixou-a ali, tratando de trancar a porta. Ronie se posicionou na frente de Maria Eugênia, tirando o blazer. – Quem vai me dar prazer agora é a senhora.
- Você deve estar louco!
- Não. Apenas fazendo com que a senhora prove do seu próprio veneno. E daqui para frente vai ser assim.
- Você não sabe com quem está lidando, seu ordinariozinho!
Mal terminou de falar e minha irmã já foi surpreendida com um tapa.
- Cala a boca! – Gritou ele. – Tira já a minha roupa, vagabunda!
Ronei estava diante de Maria Eugênia, entre sua pernas, dando a ela o mesmo tratamento recebido por ele e seus colegas de trabalho do Mukifo durante anos. Tinha agora o poder sobre minha irmã, coisa que ninguém nunca havia conseguido. E tudo graças à sua maior fraqueza.
Uma jogada de mestre, destituindo Maria Eugênia Gondim de seu poder absoluto sobre tudo e todos.
CELINA GONDIM
Capítulo 134

Foi a Pedro Lucena que papai primeiro comunicou a decisão de não aceitar o acordo da RTN com a coligação política de Donato Pessoa. Seu vice-presidente tinha razão, fazer aquele conchavo poderia acabar com o nome da empresa e do próprio Leonardo Gondim.
A decisão do presidente da RTN se fortaleceu também depois de conseguir uma nova injeção de capital por parte do governo federal. Papai preferiu encarar a verdade frente à imprensa. Pois sua decisão seria explorada certamente, por conta do investimento do poder público.
Era mais uma batalha perdida por Donato Pessoa e Maria Eugênia dentro da empresa. O que deixava mais acirrada a rivalidade com Pedro Lucena, bem como o desejo de meu ex-cunhado pelo cargo de vice-presidência da emissora. Nem mesmo as tentativas sigilosas de Donato para vetar o empréstimo junto ao governo funcionaram. Papai era um homem também influente. Não tinha sido à toa que ele chegara onde chegara, construindo um império em Fortaleza, com projeção nacional.
O grande empresário brasileiro Leonardo Gondim se saía mais uma vez vitorioso no mundo dos negócios e provava ao mesmo tempo de mais uma frustração amorosa, como mais tarde eu ficaria sabendo.
O pedido de casamento a Júlia Serrado fora negado.
- Nós somos grande amigos, Leonardo. – Tentou explicar ela.
- Essa união seria uma forma de nós nos ajudarmos mutuamente, só isso.
- Meu primeiro casamento foi um erro. Eu casei exatamente com um amigo. Não posso repetir o mesmo erro. Você não merece, eu não mereço.
- Júlia, eu tenho certeza que nós podemos ser muito felizes. – Ainda tentou convencê-la. – Eu preciso muito de você.
- Sou muito grata por tudo que você fez para encontrar a minha filha. Mas não podemos fazer isso com as nossas vidas.
- Eu preciso de você! – Repetiu ele.
- Eu vou estar sempre do seu lado. Mas como amiga.
- Eu não tenho muito tempo, Júlia. – Era a última tentativa.
- Podemos lutar juntos por mais tempo. Eu vou ficar do seu lado, eu prometo.
Júlia Serrado estava decidida e tranqüila. O que deixou papai desolado. Naquela tarde de sábado quando houve a conversa entre os dois, ele chegou e tratou de se trancar no quarto das espadas, seu refúgio. Ali tomou algumas doses de uísque curtindo suas peças. Era como se recuperasse suas forças em meio à sua coleção.
Papai tirou uma das espadas do suporte na parede, uma em tamanho original, fazendo algumas posições de luta.
“Do meu jeito, eu consigo tudo o que quero.”
Ouviu o próprio pensamento se transformar em palavras. E sorriu.

CELINA GONDIM
Capítulo 135

Meu sobrinho João Henrique e o amigo Alexandre ficaram até tarde da noite tomando cerveja na piscina de nossa casa. Eles haviam feito uma pequena confraternização entre colegas, e os outros já tinham ido embora. Como de costume, Alexandre exagerara na bebida, sendo carregado pelo amigo até o quarto.
João Henrique ajudou o rapaz, ouvindo suas declarações de amor a Carola. Deitou-o na cama, tirando seus sapatos, depois a camisa. E o outro, sem parar de falar da ex-namorada e do quanto a amava. Para meu sobrinho significava o limite. Da última vez que cuidou de Alexandre numa situação parecida, teve a oportunidade de se aproximar dele e tocar pela primeira vez no corpo de um homem da forma que desejava. Agora, com a fala repetitiva do rapaz acerca do amor pela namorada, era como se demarcasse um espaço, o espaço de seu coração.
Meu sobrinho ficou sentado na cama, ouvindo o outro por mais de uma hora, até que ele começasse a trocar as histórias e dormisse. Para ele, não era nenhum sacrifício. Apesar do tipo de conversa, lembrando-o de sua condição de amigo, podia desfrutar do simples prazer de ouvi-lo. Ficava encantado, apreciando os gestos, a fala, o jeito descolado e malandro do outro. E ás vezes, achava que Alexandre fazia de propósito um olhar que o provocava em seu desejo. Mas talvez fosse apenas fantasia, pensava.
Depois de ver o amigo dormir, João Henrique foi ao banheiro, tomando um demorado banho. Queria controlar seu desejo e não se aproveitar de Alexandre, em sua cama, inerte, sem nada poder fazer para impedi-lo.
Dessa vez seria diferente!
Sua provação estava logo ali em seu quarto, deitado em sua cama. E ao vê-lo não resistiu. Mais uma vez se aproximou cuidadosamente, fitando todo o corpo do rapaz, nu da cintura para cima. Tocou em seus pés, como forma de saber se ele perceberia. Alexandre não respondeu. Trêmulo, caminhou com a mão pela perna do outro até o zíper, abrindo-o bem devagar. Achava que seu coração sairia pela boca. Estava muito nervoso. Aos poucos, parte da imagem do golfinho azul tatuado na pélvis de Alexandre foi deixando aparecer, à medida que meu sobrinho baixava-lhe a calça e a cueca de uma sé vez. Antes ainda de despi-lo totalmente percebeu sua ereção. Sim, Alexandre também estava excitado! Podia sentir o pulsar de seu membro enrijecido por cima da roupa íntima. Aquilo o deixava sem ar, tomado excitação e nervosismo. Sentia-se quente, sem que o ar-condicionado de seu quarto equilibrasse a temperatura.
Podia fazer mais do que teve coragem da outra vez.
João Henrique ouviu um barulho na porta. E quando olhou, viu a irmã, perplexa diante da cena. Pulou com o susto, tentando esconder com a mão a ereção que se fazia perceber pelo roupão. Maria Antônia saiu, deixando-o com a visão de Alexandre seminu em sua cama, e com a vontade de se enterrar num buraco, sem que ninguém pudesse encontrá-lo nunca mais.
“Por que, meu Deus? Por que aconteceu isso comigo? Por quê?”
Estava desesperado. O que contaria à irmã, como explicaria aquela cena? Sentia-se perdido, exposto, envergonhado. Era um doente e agora todos ficariam sabendo. Não! Maria Antônia não teria coragem de contar a ninguém. Ou teria?
Meu sobrinho tratou de vestir uma roupa e bater na porta do quarto da irmã. Ela também encontrava-se constrangida.
- João, eu queria te pedir desculpas por entrar sem bater. – Foi Maria Antônia quem quebrou o silêncio inicial criado no quarto.
- Eu queria te explicar aquilo. – Ele estava visivelmente nervoso.
- Olham se você não quiser falar, não precisa.
- Mas eu quero falar. – Disse subitamente. – Não é o que você está pensando... – Fez uma pausa. – E estava apenas tirando a roupa do... – outra pausa. – Tirando a roupa do Alexandre... – Mais uma. – Para ele dormir, sabe?
- João... – Levantou-se da cama, tocando-lhe o rosto. – Você não precisa me explicar. Eu entendi tudo.
- Não. Você não entendeu. Você está pensando que...
- Eu não estou pensando nada.
- Está sim.
- O que aconteceu?
- Nada. Eu estava apenas cuidando do Alexandre para ele dormir, só isso. Só isso, eu juro! Falava rapidamente, demonstrando seu nervosismo. 
- Tudo bem. Eu sei que era isso. – Maria Antônia procurou amenizar.
- Pois é, era só isso.
- Certo. Eu entendi. Fica tranqüilo, tá?
- Tá. Eu vou voltar pra dormir. Dormir.
- Tudo bem. Boa noite.
Claro que Maria Antônia entendia o que flagrara no quarto do irmão. Mais do ele podia imaginar. Muita coisa estava explicada. Optara, no entanto, por acatar aquela versão. Assim o protegeria e evitaria mais sofrimento e constrangimento para João Henrique, visto que não aceitava sua própria condição. Compactuar com aquela mentira momentaneamente seria uma forma de zelar pelo irmão, até que um dia pudessem assumir a verdade.
Mesmo sem saber, meu sobrinho teria a partir dali a cumplicidade de Maria Antônia.
João Henrique deixou o quarto da irmã ainda desnorteado, prometendo repetidamente que nunca mais faria aquilo, que era apenas amigo de Alexandre. Para ele tudo teria sido um castigo de Deus, por ceder àquela tentação.
“Nunca mais, meu Deus, eu Juro! Nunca mais!”
Deitou-se ao lado de Alexandre ainda repetindo a promessa mentalmente.
Naquela mesma madrugada acordou tomado de desejo, tratando de excitar o amigo novamente. No escuro, pôde desfrutar de todo o corpo do outro, que respondia apenas com gemidos e suspiros. Levando-o depois de muito prazer, ao orgasmo.
João Henrique sentiu-se realizado, feliz.
Pediu perdão a Deus e prometeu que seria a única e última vez que aquilo aconteceria.    

CELINA GONDIM
Capítulo 136

Aproximei-me de minha enfermeira Dulce, sentada numa das cadeiras da piscina de nossa casa. Ela estava tão entretida lendo um papel que nem se deu conta do som produzido pelo motor de minha cadeira de rodas em movimento. Ao chegar perto vi do que se tratava. Era a carta da namorada de Zeca, o nosso jardineiro, a correspondência que havia sido roubada do rapaz.
- Por que você fez isso, Dulce?
Minha enfermeira se assustou com o flagrante, tentando inventar uma história qualquer. Mas eu sabia da verdade, e ela percebia que não me enganava.
- Ah, tudo bem, Celina. Fui eu sim. Fui eu quem roubou a carta desse jardineiro arrogante. Mas foi por uma boa causa. Eu precisa ter certeza se era mesmo verdade o namoro dele com essa tal mulher misteriosa.
- E o que você tem a ver com isso?
- Ele me provoca o tempo inteiro. Achei que podia descobrir alguma mentira. Só isso.
- E descobriu?
- Não. Tudo era verdade. – Ela falou com um tom de lamentação.
- E isso não é bom?
- Acho que não. Esse Zeca se acha todo superior a mim, diz que eu tenho medo de ter uma relação verdadeira com alguém, que meu namoro com o Djair não passa de uma farsa. Eu queria que saber se a vida dele também não era uma farsa, entendeu?
- Ah, então você concorda que a sua vida é uma farsa?
- Não! – Assustou-se com a pergunta. – Claro que não. Que história é essa? Não sei não, viu? Você, hein...
- Dulce, foi você quem falou que deseja descobrir se a vida dele “também” era uma farsa. Esse “também” lhe coloca em pé de igualdade com esse julgamento.
- Asneira desse ridículo. Só. – Levantou-se, erguendo a cabeça. – Minha vida é maravilhosa.
- E sua relação com o Djair também?
Ela hesitou.
- Acho que sim. Só falta a gente assumir pra tudo mundo, sabe?
- E será que um dia ele vai assumir? Será que o Djair te ama mesmo como você acha? Será que você o ama realmente?
- Ai, Celina. Não me faz pergunta difícil. Não sei não, viu? Nós nos damos muito bem. Sem falar que o Djair tem um fogo... – Sorria meio envergonhada.
- E é o suficiente?
- Por que essas perguntas?
- Por que você não consegue respondê-las?
- Bobagem, Celina. Você anda muito criativa pro meu gosto. Não sei não, viu? A única coisa que está faltando é o Djair me assumir...
- E você responder para si mesma por que realmente roubou a carta de Zeca.
- Celina, o que você está querendo dizer com isso?
- Dulce, o que estou querendo dizer eu sei. Resta saber o que você está querendo esconder? Mas essa é uma pergunta que você deverá fazer para você mesma.
- Não sei não, viu?
Ouvi ainda sua famosa frase, quando a deixei com seus questionamentos.
“A única coisa que eu preciso é de casar.” Disse ela para si mesma.

JÚLIA SERRADO
Capítulo 137

Participar de meu reencontro com minha filha até tirou Pedro Lucena do foco do dossiê, que esperava encontrar dentro do cofre na casa de Caetano, empregado de sua família no Porto das Dunas.
O cofre estava vazio.
Voltava ao ponto zero da procura. A dica do homem que havia ajudado seu pai a elaborar aquele dossiê de nada adiantou. Aonde Alberto Lucena teria afinal escondido os documentos?
Pedro olhou para Caetano, frustrado. E ele, por sua vez, apenas balançou a cabeça negativamente, como se respondesse previamente que nada podia fazer.
- Esses documentos deviam estar aqui, Caetano. – Explicou Pedro.
- Seu Pedro... – Caetano tinha um tom afetuoso, de quem o havia conhecido ainda menino, e o viu crescer. – Será que isso que o senhor procura realmente existe?
- A pessoa que ajudou meu pai a elaborar esse documento me disse que eu encontraria aqui, que estaria na sua casa, nesse cofre, que bastava eu lhe perguntar, como eu fiz.
- Mas está vazio. – Concluiu Caetano.
- Só se alguém pegou. – Pensou Pedro em voz alta.
- Não! Ninguém mexeria numa coisa de seu pai, seu Pedro. – Caetano foi categórico. – Aqui na minha casa ninguém faria isso!
- Mas pode não ter sido alguém de sua casa.
- Ninguém entrou aqui.
- Você tem certeza, Caetano? Será que na sua ausência...
- Não. – Nem deixou que Pedro concluísse. – Eu tenho certeza, seu Pedro.
- Donato vinha aqui ás vezes quando meu pai era vivo. Será que depois de sua morte, ele não veio em algum momento?
- Não. A última vez que eu vi o seu Donato, seu pai ainda era vivo.
Pedro só estranhava o nervosismo na fala de Caetano.
- Tudo bem, Caetano. Eu vou encontrar esses documentos de qualquer forma, custe o que custar.
Pedro voltou para casa naquele dia carregando consigo uma grande desconfiança acerca da sinceridade de um homem que viveu a lealdade com sua família a vida inteira. Guiava seu carro pelas Dunas, de volta a Fortaleza, trazendo à memória a imagem daquele cofre aberto, vazio. Contudo, Pedro reafirmava dentro de si a certeza de continuar procurando aqueles documentos e concluir o que seu pai não havia conseguido fazer.

* * *

O caseiro da família Lucena recebeu um telefonema, logo após a saída do patrão de sua casa.
“Eu já disse que estava vazio.” Afirmou Caetano, impaciente. “Eu destruí esses documentos há muito tempo, como você mandou. Seu Pedro nunca vai encontrar.”
Desligando o telefone.
Caetano foi para o quarto e tirou uma pasta de couro preta do fundo de um baú, que estava escondida embaixo de muita roupa.
“Seu Alberto morreu por causa disso.” Caetano pensou alto. “Eu não posso deixar que aconteça também com seu filho.”
Colocou a pasta de volta no baú.

CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 138

Eu começava a suspeitar que a indiferença exagerada com a qual meu filho Nando vinha tratando a aluna Maria Antônia, não era apenas para mantê-la distante, como ele afirmava, mas para atingi-la e conseguir sua total atenção. Quando estavam em algum ambiente comum dentro do campus da universidade, Nando procurava de algum modo se certificar se Maria Antônia já havia percebido sua presença. Uma rixa que parecia diverti-los, como um jogo que foi se constituindo sem que tomassem consciência. 
Naquele final de ano de 2006, pouco depois da defesa de uma tese da qual meu filho fizera parte da banca, ele novamente esbarrava com a moça na saída do auditório onde acontecia o evento e as pessoas comemoravam com um pequeno coquetel o resultado do trabalho da aluna de mestrado.
- Muito bom o trabalho. – Reconheceu Maria Antônia para o professor, pegando uns salgados na mesa.
- Ah, foi. Muito bom mesmo. – Respondeu Nando , desviando o olhar para não dar atenção.
- Mas discordo um pouco de sua colocações. – Completou a jovem.
- Não me interessa sua opinião. – Rebateu meu filho.
- Mas devia se interessar como professor.
- Sua intenção não é de construir uma idéia comigo.
- Por que diz isso? É um julgamento de quem passou a vida inteira só julgando os outros, como se fosse o único perfeito.
- Você está equivocada, garota. Eu não acho que sou perfeito. Apenas não gosto de pessoas que acham que podem desfazer de tudo e todos.
- É por isso finge que não existo?
- Não. Para mim, de fato você não existe.
- Arrogante! O senhor é um professor arrogante.
- A arrogância está em você, garota. Por que acha que as pessoas são obrigadas a fazerem o que você quiser? Por que você tem dinheiro?!
- Não tem nada a ver com o dinheiro da minha família. Que mania! O senhor só leva as coisas para esse lado.
- O lado que você conhece bem. Fica aí falando de arrogância e acha que a sua verdade é absoluta.
- Esse discurso é meu.
Meu filho desviou um pouco o olhar, como se refletisse. E riu.
- Você acha que tudo é seu? – Provocou ainda mais a moça.
- Vocês com esses discursos ultrapassados de esquerda adoram transformar as pessoas em vilões, como se fossem perseguidos por todos que têm dinheiro. Quando na verdade vocês não só temem esse dinheiro, como o desejam.
- Quer saber? Não sei por que ainda perco o meu tempo com você.
- Nem eu.
Eles tentaram pegar o lenço de papel na mesa, para saírem logo dali, tocando na mão um do outro. Embora fosse fácil resolver a questão, demoraram mais tempo que o necessário para fazer, como se tentassem prolongar a situação em que podiam sentir o calor da pele um do outro.
Nando e Maria Antônia foram surpreendidos com as batidas fortes de seu coração. Desejavam estar perto um do outro, ficar ali um pouco mais. E os poucos segundos que durou o episódio do lenço de papel pareceram uma eternidade. O suficiente para não tirarem os olhos um do outro, no restante do tempo em permaneceram celebrando o trabalho da aluna da universidade.
Meu filho e Maria Antônia ficaram incomodados por sentirem aquilo. E ao mesmo tempo, não conseguiam parar de pensar nas mãos, no calor, na maciez da pele um do outro, no nervosismo que tomou conta de seus corpos num simples instante.
E já no estacionamento da universidade, Maria Antônia tomou coragem, depois de hesitar, e abordou o professor.
- Eu queria propor um acordo com o senhor. – Disse ela, tentando esconder o nervosismo.
- O quê? – O nervosismo de Nando era recíproco, deixando-o ofegante.
- De hoje por diante falamos só o necessário dentro da sala de aula, não existimos mais um para o outro fora dela.
- Mas eu já estou fazendo isso.
- Ótimo. Pois então agora eu vou começar a fazer também.
- Ótimo.
- Passar bem, professor.
- Da mesma forma.
Ela ia saindo, voltou, tentando passar por Nando. Os dois se atrapalharam.
Foi Nando quem tomou coragem e a segurou. Olharam firme um para o outro como se partilhassem todo o desejo que os dominava naquele momento. A rivalidade de idéias dava lugar a uma vontade incontrolável de beijar e sentir de perto o cheiro, o calor um do outro.
Maria Antônia o beijou. No impulso, deu vazão a toda a vontade que escondia por trás daquela hostilidade. Foi um beijo rápido que os fez viajar por lugares de seu coração ainda inexplorados. Por que não havia acontecido antes? Um curto momento que lhes trouxe tanta intensidade. Por alguns segundos as idéias extremistas perderam toda a sua força e seu coração bateu acelerado, sem a supervisão de suas próprias regras. 
Meu filho tratou de pôr um limite no que o fazia perder o controle e trair todos os decretos ideológicos firmados em sua vida. Não teve coragem de olhá-la. Entrou no carro rapidamente, como se fugisse de algo maior que sua mente, suas idéias. Como se fugisse de si mesmo.
Quem havia tomado iniciativa do beijo fora Maria Antônia, não ele. Nada podendo fazer para impedir. Nada. Não tinha tido forças. O que o deixava perdido, desnorteado.  
Quanto a Jovem, nem acreditava no que havia acontecido. Restava o gosto da boca de seu professor e a lembrança recente de seu calor a envolvendo. Tocou nos próprios lábios como se cuidasse para que aquele gosto não se dissipasse. E viu o carro do homem que tanto a provocava fazer a manobra e sair.
“Meu Deus, o que foi isso?” Maria Antônia ouviu a própria voz.
Ambos, meu filho e a jovem aluna, foram apresentados a um novo sentimento, longe do controle e das ideologias, ultrapassando aquilo que julgavam até então sentir.
Maria Antônia entrou em seu carro e percebeu o que estava acontecendo.
“Eu estou completamente apaixonada por esse homem.”
Riu de si mesma ao falar aquilo.
“Apaixonada!”
Deu uma grande gargalhada de sua descoberta. Tanta hostilidade escondendo um sentimento pouco experimentado por ela, chegando a pensar às vezes que nunca viveria aquilo, nunca se apaixonaria realmente por alguém. Mas tinha acontecido. Estava então apaixonada pelo professor o qual pensava detestar. E havia sentido reciprocidade no beijo.
“Por que perdemos tanto tempo? Isso não vai ficar assim.” Disse ela, ligando o carro, disposta a resolver a sua vida.

CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 139

Renato Brandão recebeu um telefonema naquele mês de dezembro que o deixou sem chão. Era o próprio Willames Macena comunicando da demissão de meu filho Holanda da WM. O que o deixou transtornado. Temia o que estava por vir, como se já intuísse.
Ao entrar em casa, meia hora depois do telefonema do sócio, Renato se deparou com a bolsa de viagem do companheiro perto da porta. Estava prestes a acontecer o que mais temia. Entrou na cozinha atônito. Holanda arrumava algumas coisas na geladeira.
- Oi, Renato. Já em casa essa hora?
O relógio de parede da cozinha marcava dezessete e quinze. Cedo para Renato ter chegado do trabalho.
- Holanda, pra que é aquela bolsa? Você vai emprestar pra alguém? – Beijando-o levemente, visto que meu filho desviou o rosto, evitando tocar nos lábios. Perguntava ainda na esperança que fosse aquilo mesmo ou algo parecido.
- Não. Eu vou viajar. – Holanda respondeu naturalmente, fechando a porta da geladeira. – Eu queria falar com você, Renato.
- Viajar pra onde? Você não me falou nada. Eu não estava preparado pra viajar. – Disse, disfarçando o susto pela resposta.
- Você não vai.
- Como assim?
- È sobre isso que nós precisamos conversar. – Direcionando-se para a sala. – Senta aí, Renato. – Completou, apontando para a poltrona à frente de onde sentou. – Eu ia te esperar, não imaginava que você viesse cedo.
- Que viagem é essa, Holanda? – Estava ansioso. – Que história é essa de pedir demissão? É alguma brincadeira?
- Brincadeira? – Respondeu com leve sorriso. – Renato, você acha que eu brincaria com uma coisa dessas? Hoje eu oficializei minha demissão da WM.
- E por que você não me falou nada? Fui eu quem te colocou lá.
Meu filho respirou fundo e disse:
- Exatamente por isso. Você não aceitaria e ainda tentaria me demover da idéia. Não adiantaria, adiantaria?
- Claro que não. Isso é um absurdo!
- Então. Por isso não falei nada. A nossa relação nunca foi profissional, Renato. Apesar de eu ser um funcionário seu, antes disso, eu era seu companheiro. E você deixava isso bem claro.
- Era? Como assim? – A pergunta vinha com um pesar.
- Renato... – Levantou-se, sentando ao lado do companheiro. – Há muito tempo que a nossa convivência não vem dando certo. Tem sido constrangedor aqui dentro de casa, sabe? O tempo inteiro você vem todo carinhoso, e eu não consigo responder à mesma altura. Sem falar nos conflitos.
- Eu já disse que tentaria melhorar, conter mais meus ciúmes. – Tentou intervir Renato.
- Cara, a questão não é você. Tudo se resume a mim. O problema sou, é o meu sentimento, entende?
- Você tem estado estressado.
- Renato, não adianta tentar tapar o sol com a peneira. A nossa relação acabou há muito tempo. Na verdade ela se transformou.
Renato sentia uma dor em seu peito que o deixava quase sem ar. A figura daquele homem forte e bonito estava visivelmente abalada, com olhos marejando.
- Eu não sei do que você está falando.
- Sabe sim, Renato. Nós sabemos. Inclusive você já sabia do que se tratava quando viu minha bolsa.
Renato se levantou indo até a porta da varanda, tendo o rosto acariciado pela brisa que entrava.
- Eu não acredito que você está fazendo isso comigo, logo nesse momento. – Lamentou ele.
- O momento é quando o nosso coração pede.
- Você está sendo egoísta, Holanda. – Voltou-se para meu filho. – Não se pode jogar fora cinco anos de uma união estável exatamente no momento em que eu mais preciso de você. Minha mãe está muito doente. Eu preciso estar forte pra apoiar minha família. E agora você acha que hora de sair de casa?
- Já tem algum tempo que eu havia decidido e não tinha saído ainda por causa disso. Mas eu não tenho como te dar a força que você está precisando da forma que nós estamos.
- É assim que você me agradece por tudo o que eu te fiz? – As lágrimas de Renato já não se podiam mais conter.
- Não. – Meu filho se aproximou, fitando bem seus olhos. – O que você fez por mim não é assim que se agradece. Também não é mantendo uma união fracassada com você, mentindo. Renato, eu não estou a venda. Nunca estive.
- Fala isso agora.
- É assim que você pensa? É assim que você enxerga a nossa relação?
- Você teve tudo o que quis. Eu te dei a oportunidade de crescer como profissional. Eu te apresentei a um mundo que você jamais teria se não tivesse me conhecido. Você deve tudo a mim, Holanda. Tudo.
- É nisso que você acredita, Renato. Sempre achou que podia me comprar. Nunca te passou pela cabeça que eu realmente tivesse me apaixonado por você? Pois eu me apaixonei. Durante anos fui apaixonado. E não foi o seu dinheiro, a sua empresa, o seu mundo que me segurou ao seu lado. Só que você nunca acreditou nisso. E aí, a nossa relação se desmoronou. Não existia bases sólidas, sabe?
- Você está fora de si. Pedir demissão de um cargo como esse na WM! Absurdo!
- Você jamais entenderia. Mas eu quero te dizer que eu te amo. Só que agora como amigo.
- Eu não quero ser seu amiguinho. – Pronunciou a última palavra com desdém. – Eu não quero só isso.
- É uma escolha sua. – Olhou para todo o apartamento, como se já se despedisse. – Bom, agora eu estou saindo. Procura ficar bem.
- Pra onde você vai? – Perguntou sem conseguir olhar no olho de meu filho.
- Vou fazer uma viagem pra vê se coloco as idéias em ordem.
- Faça a sua viagem. Estarei aqui lhe esperando.
Houve um pouco de silêncio. Holanda pegou a bolsa e disse antes de sair:
- Renato, eu não volto. Acabou.
- Volta sim.
- Te cuida, cara. – Findou com pena e bateu a porta, sem que Renato tivesse coragem de olhá-lo partir.
- Volta sim, Holanda. E eu estarei aqui esperando. Volta sim! – Renato afirmou para si mesmo. Assim não sofreria tanto.

O sorriso se fazia dentro do capacete. Holanda partia em sua moto rumo a uma nova vida. oaHolaHola


CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 140

Descobrindo o envolvimento do cunhado Guel Serrado com sua chefe Olívia Cordeiro, minha vizinha Júlia tentou alertá-la do perigo, contando tudo o que sabia do rapaz, inclusive de seu provável envolvimento no seqüestro de Clara e na morte do próprio irmão.
Olívia, por sua vez, demonstrou grande decepção pela atitude desonesta de Júlia, segundo ela. Guel já havia feito a cabeça da namorada contra a cunhada, exatamente para o caso dela ser procurada por minha vizinha. Tinha sido uma estratégia de prevenção de Tony e o amante contra Júlia, para ficarem seguros.  A vítima de minha sobrinha e o parceiro não acreditou em nenhuma palavra dita contra o rapaz. E mais, sabia de Júlia como uma grande apaixonada por ele, não tendo conseguido esquecê-lo. Assim, a enxergava como uma mulher frustrada e amargurada, capaz de inventar as mentiras mais absurdas para se vingar, por ter sido abandonada por ele, depois de descobrir não estar mais apaixonado.
Júlia Serrado tentou contra-argumentar. Mas foi tudo em vão. Olívia estava cega e totalmente apaixonada por Guel. Nada do que dissesse adiantaria. O que foi motivo de grande comemoração para Tony e o amante. Era uma batalha ganha. Em breve dariam o golpe de misericórdia e conseguiriam o dinheiro de Olívia, pensando ela estar investindo num negócio para o namorado.
Foi Adriano Cordeiro quem entrou então em cena. Depois de saber de tudo através de Júlia, não poderia deixar a filha cair num golpe. Fazia tempo que pai e filha não se viam. Mas ele não hesitou em procurá-la em sua casa, dando-lhe um susto com sua presença ao abrir a porta.
- Como vai, Olívia?
- O que o senhor faz aqui?
- Não vai me convidar para entrar, filha?
Olívia não respondeu, abrindo espaço para que entrasse.
- O que o senhor quer aqui?
Adriano tentou falar um pouco de Alexandre, de D. Norma Mesquita. Mas foi obrigado pela filha a revelar logo o que queria, para não ser expulso.
- Vim aqui por seu envolvimento com esse rapaz. Guel Serrado.
Adriano tentou também argumentar contra o cunhado de Júlia. Olívia, contudo, encontrava-se irredutível. Expulsando o pai de sua casa.
- Olívia, eu se que errei muito. Mas você não pode calcular o tamanho da minha dor por nossa distância.
- O senhor é que não tem como calcular o tamanho da minha dor, sendo jogada adolescente para fora de casa, grávida, sem ter para onde ir. – Expressava toda a sua indignação com aquelas palavras. – O senhor me matou naquele dia!
Adriano tinha os olhos transbordando em lágrimas.
- Foi o maior erro de minha vida, filha. Me perdoa.
- Nunca! – Respondeu prontamente. A dor que eu senti naquele dia ainda mora aqui dentro. – Falou batendo no peito, tomada de choro. – Dói muito!
- Olívia, me deixa consertar esse erro.
- Não! Não tem conserto.
- Tem. O perdão é o conserto.
- Eu não sou boa o suficiente. Vai embora, por favor. – Pediu, abrindo a porta, esperando que saísse.
- Olívia...
- Vai embora! – Já era um grito.
Chegando à porta, Adriano ainda falou:
- Ainda há tempo de voltar a ser boa. – Saiu. E ela bateu a porta. Entregando-se a um choro compulsivo. Tendo a dor de todos aqueles anos de distância rasgando seu peito.
- Ainda não, pai! Ainda não! – Quase não podia ouvir a própria fala pelo choro que a dominava.
A mágoa no coração de Olívia talvez a fizesse procurar em cada relação uma redenção, deparando-se com decepções recorrentes. Guel Serrado seria apenas mais uma. Quem sabe um dia tudo mudasse.

* * *

Quanto a Tony, eu rezava para que acontecesse algo que a transformasse na menina boa que eu sonhava. Queria vê-la bem, feliz. Mas não fazendo mal a ninguém. Se de fato estivesse tramando contra Olívia Cordeiro eu entraria em ação, impondo o limite merecido. Havendo qualquer plano, não daria certo. Prometi a Adriano.
Guel Serrado ficaria por conta de minha vizinha Júlia, que não descansaria até vê-lo novamente atrás das grades.

CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 141

A tentativa de minha vizinha Ceiça de provar para o filho as traições de Salete, foi toda por água abaixo. Não existia nenhuma foto na memória do celular. Talvez o nervosismo e ansiedade por flagrar a quase nora na cama com outro homem, a tenha impedido de usar o aparelho de forma correta. O que a deixou frustrada.
Ainda assim, Ceiça contou tudo a Dorival. Que não acreditou em uma só palavra da mãe. Para ele não havia passado de delírio, de um sonho. Nem mesmo o marido Rubinho acreditou na história. Deixando-a indignada.
- Por favor, mainha, deixa a Salete em paz.
- Essa mulata erótica não presta, filhinho. Acredita em mim!
- Mainha, eu vou começar a me chatear com a senhora. A Salete me ama. E tem mais, a gente vai casar em breve.
- Não, isso não Dorival!
- Deixa o menino, benzinho. – Tentou intervir Rubinho.
- Deixo nada. Essa mulher, essa devassa não vai entrar na nossa família e sujar o nosso nome. O Dorival é o herói do Montese. Já pensou, um herói corno...
- Mainha, eu não admito esse tipo de insinuação.
- Mas todo mundo já fala, filhinho.
- Se eu pegar alguém dizendo qualquer coisa da Salete, eu faço engolir.
- É tão difícil de enxergar?
- Está bem na sua cara. Na cara de todos nós.
- Mainha, eu vou começar a me irritar com a senhora. Essa história está encerrada.
Para Ceiça jamais terminaria ali. Não permitiria ver o filho, um grande herói, como o considerava, ser enganado descaradamente por uma mulher tão vulgar.
Decidiu então fazer a política da boa vizinhança com Salete. Seria uma forma de pegá-la com a boca na botija.
Começava um novo momento na família de minha vizinha.


MARINA PESSOA
Capítulo 142

Fiz uma ligação ainda no elevador de meu prédio, depois de deixar Donato.
“Oi. O convite ainda está de pé? – Dei um tempo, ouvido a resposta do outro lado da linha. – Ótimo. Estou descendo agora.” Desliguei, com largo sorriso. Pus os óculos escuros, como se me preparasse para uma nova visão de mundo.
Em frente ao prédio, cenário dos cinco anos de história com Donato, avistei as velas do Mucuripe. Imaginei-as partindo logo cedo, antes do sol raiar, com destino a um universo de possibilidades. Sentia-me como elas. Livre.
A moto estacionou bem a minha frente. Era Holanda, rasgando grande sorriso ao tirar o capacete.
- Pronta para uma aventura? – Perguntou ele, comemorando.
- Totalmente. – Respondi sem piscar, colocando o capacete.  
Subi naquela moto como se me lançasse numa jornada a um mundo que não conhecia. Seria uma viagem para dentro de mim mesma.

* * *

Donato se enclausurava no luxo de seu apartamento, procurando extrair de cada peça, cada quadro, cada detalhe uma pontinha de felicidade e sentido. Estava só. Tomava seu uísque vinte anos, como tanto sonhou nos tempos de pobreza. Procurou o nome de Pedro Lucena na agenda de seu celular e discou. Embora não fossem mais amigos, foi a única pessoa com quem estabeleceu vínculo verdadeiro em toda a sua vida.
- Alô, Pedro?
- Donato? – A pergunta do outro lado vinha repleta de surpresa.
- Eu preciso falar com você.
- Aconteceu alguma coisa? – Pedro logo procurou saber.
- Sim, aconteceu. E eu quero mudar essa história.
Desligou o telefone depois de Pedro firmar um encontro.
Donato sentou no chão, encostando-se no sofá. Ali, fitou o copo de uísque em suas mãos, apoiadas nos joelhos, por alguns minutos.
“Eu não tenho nada. Nada!” Ouviu a própria voz quase como um resmungo, deixando uma lágrima desbravar seu rosto.
O senador da república e diretor superintendente comercial da RTN Donato Pessoa caiu em prantos.

* * *

Holanda e eu cortávamos estrada, com duas pequenas bolsas presas na garupa da moto. A imagem das dunas e da imensidão do mar parecia nos abraçar. Nosso destino seria o que viesse pela frente. E era maravilhosa a sensação de entrega à vida.
Finalmente eu começava a me ouvir!

Marina Pessoa




CLARINDA DE HOLANDA
Capítulo 143

Quase caio de susto ao abrir a porta da minha casa e me deparar com a visita de Adriano Cordeiro. Fiquei um pouco atrapalhada, sem lembrar de convidá-lo para entrar. Onde estaria Alceu naquela hora? Talvez no bar. Poderia chegar a qualquer momento. Foi o próprio Adriano quem perguntou se podia entrar. Ofereci um café. Ah, e o bolo de milho que ele tanto gostava e eu fazia tão bem.
Adriano falou-me da saudade, dos tempos em que namorávamos. E por um instante eu me esqueci de meu marido e do perigo eminente que nos rondava ali naquela prosa. Ele continuava um homem muito bonito, charmoso, bem vestido, de jeito galanteador, como nas épocas de juventude.
- E Alceu onde está? – Perguntou ele, lembrando-me do risco que corríamos.
- Deu uma saída. Você ainda vai demorar? – Indelicada a minha pergunta.
- Você quer que eu vá embora. – Procurou saber, sorrindo.
- Não, não é isso. – Era isso sim. Não que eu não desejasse estar em sua presença. Mas pensar em Alceu nos flagrando juntos ali me aterrorizava. – É que Alceu pode chegar. – Piorei a situação.
- Qual o problema?
- Ele pode não gostar.
- Nós fomos grande amigos.
Eu temia realmente que meu marido chegasse. E resolvi ser franca.
- Adriano, você sabe que Alceu morre de ciúmes de mim, principalmente com você. Foi por isso que nós nos afastamos.
- Até hoje não compreendo.
- Eu sou uma mulher casada. Nós dois fomos noivos. Por isso meu marido não gosta de nenhuma proximidade.
- Não se trata disso, Clarinda. Até hoje eu não compreendo por que você o escolheu. Eu havia me separado da minha mulher para ficar com você. Nós tínhamos decidido enfrentar a todos.
- Meu pai jamais aceitaria. Para ele você continuava um homem casado.
- Mas para nós não.
- Eu não penso desse jeito, Adriano. Para Deus você também era um homem casado. Nós viveríamos sob pecado.
- Nós nos amávamos. – Afirmou prontamente.
- Mesmo assim era pecado.
- Muito bem. Então por isso você casou com um homem que não amava. E por que se mantém casada há trinta e seis anos sob tanto sofrimento?
Tremi ao ouvir aquela pergunta.
- Casamento é para sempre. – Foi a resposta que me veio.
- Eu tenho certeza que Deus não compactua com isso. O Alceu passou a vida inteira lhe espancando, Clarinda! – Sua fala vinha com um tom emocionado.
Pela primeira vez Adriano falava abertamente sobre aquilo. Antes, fingíamos não acontecer. Ele sabia, mas respeitava meu silêncio.
- Casamento é para sempre. – Tornei a dizer, procurando conter as lágrimas.
- Deus nunca nos quis escravizar, Clarinda. Mas eu seu que não se resume a isso. Uma vez quando questionei sua permanência nesse casamento você me falou de uma promessa, um segredo que a obrigava estar ainda com Alceu. Do que se tratava? O que é tão importante que a prende numa relação como essa? Que segredo é esse, Clarinda?
Jamais poderia revelar. Deus havia atendido meu pedido, e o pagamento por aquilo seria minha permanência ao lado de Alceu, bem como o meu silêncio.
- Não importa mais, Adriano. Já faz muito tempo.
Fez-se um silêncio. Ele me deu as costas por algum tempo, como se pensasse em tudo aquilo, e depois voltou-se.
- Clarinda, eu ainda te amo.
Era como se voltassem todos os anos, e vi Adriano jovem me dizendo aquilo. Mas agora haviam se passado quase quarenta anos. Adriano Cordeiro estava diante de mim, dentro de minha casa, abrindo seu coração.
- Adriano, por favor... – Eu tremia.
- Clarinda, depois que nós nos reencontramos, eu percebi que não havia mudado nada. É como se meu sentimento tivesse sido guardado num baú, e naquele encontro, você o abriu. Você o libertou.
- Você deve estar confuso, é isso.
- Eu nunca tive tanta certeza.
- Adriano agora é mais tarde que nunca.
- Seus filhos estão todos criados. Não existe mais motivo para você continuar casada com Alceu.
- Isso é loucura!
- Você o ama.
- Sou sua esposa.
- Você o ama?
- São trinta e seis anos de casamento, Adriano.
- Você me ama?
Eu gelei.
- Eu sou uma mulher casada.
E ele sorriu, triunfante.
- Eu sabia!
- Vai embora, por favor, Adriano.
- Agora eu vou. Mas eu queria que você soubesse que aquele jovem imaturo não existe mais. Clarinda, a maturidade me fez enxergar que existem coisas na vida que nós não podemos nos furtar por conta de regras. Deus não é certo nem errado, Deus é amor! Sendo amor, Ele está do nosso lado.
- Você deve ter enlouquecido!
- Esqueça essa sua promessa.
- Adriano, por favor, vai embora.
- Muito bem. Mas eu estou decidido a lutar por nós.
Adriano saiu de minha casa me deixando perplexa e com uma pontinha de felicidade. Era bom ouvir tudo aquilo. E eu sentia o mesmo! No entanto, não poderíamos ficar juntos.
Casamento é para sempre. E existia ainda a promessa, que eu carregaria comigo em segredo para sempre. Há coisas que pertencem somente a nós!

Clarinda de Holanda




CELINA GONDIM
Capítulo 144

Eu não somente havia aceito ser a musa inspiradora para a série Tente Outra Vez como decidi escrever um episódio inteiro sozinha. Fiz tudo em segredo. Seria uma surpresa para todos.
Algo tinha mudado dentro de mim, desde o sonho com Vinícius. O desejo de sair daquela cadeira de rodas me motivava a voltar para o mundo real, sair de meu casulo, de minha proteção, e viver.
Naquele momento eu começava a me dar conta do quanto eu havia fugido a minha vida inteira de mim mesma, por puro medo de sofrer. Criei um mundo paralelo, tendo como portal uma casa de madeira, com os três arcanjos na frente, a casa dos anjos. Minha primeira fuga. Com aquele objeto eu tinha acesso a um universo de possibilidades e alegrias. Nada mais me faria sofrer. Podia com a casa dos anjos controlar o mundo e realizar todos os meus sonhos e desejos, mesmo que de forma fictícia. A felicidade para mim se tornava uma grande fantasia a qual ou só tinha como experimentar diante daquele amuleto.
A casa dos anjos representou em minha vida um centro de poder e o sentido de minha existência. Sendo mais tarde substituída pelas drogas, e por fim, pelo meu total isolamento do mundo trazido por minha condição de tetraplégica. Tendo como mola propulsora o medo, no meu caso, de sofrer.
O poder é a nossa perdição, em todos os sentidos!
A casa dos anjos me fazia experimentar apenas um tipo de poder.

* * *

Durante os últimos três anos vivi como expectadora do mundo. O que me deu a oportunidade de observar as histórias das pessoas à minha volta. Esta fuga não era um privilégio só meu! Não que tivessem realmente mundos paralelos, mas acabavam por criar seus centros de poder, como eu com a casa dos anjos.
Sempre que eu olhava para as pessoas, ficava tentando imaginar qual seria a sua casa dos anjos, sua fuga, sua perdição, o que lhes tiravam do contato com o que era essencial, seu centro de poder. Poderiam ser as coisas mais simples ou as mais extraordinárias.

Qual será a sua casa dos anjos?

Perguntava eu silenciosamente para todas as pessoas.
Por mais que eu tivesse os meus julgamentos, pertenciam somente a mim.
Cabia a cada pessoa a sua resposta.

* * *

Logo que terminei de escrever as cinqüenta laudas do episódio para a série, tratei de entregá-las a papai. O vi abrir grande sorriso no jardim de nossa casa após ler o título da história.

Ouvindo as Batidas de Meu Coração.

Celina Gondim



JÚLIA SERRADO
Capítulo 145

Fiquei preocupada ao deixar minha cunhada Raquel em casa com os filhos tomando conta de Clara. Ela tinha ficado arrasada depois de ver o marido Djair sair de um carro no centro de Fortaleza e abrir a porta do passageiro para uma mulher, como se fosse seu motorista. Uma semana após ele apareceu, dizendo chegar de mais uma longa viagem de trabalho como vendedor. Ela sabia da mentira, e preferira fechar os olhos, como de costume!

* * *

Todo o nosso grupo de Biodança se organizou para uma confraternização de final de ano na casa de Pedro, no Porto das Dunas. Era o início de uma noite de sábado, e todos estavam em clima de alegria. Cada pessoa havia ficado responsável de levar um prato especial e sua bebida.
Pedro procurava esquecer os conflitos vividos naquele momento com a ex-mulher. Precisara entrar na justiça para poder estar com o filho, devido a proibição de Vanessa. Afastá-lo de Felipe era uma das poucas armas que ela tinha para pressioná-lo e continuar lutando pela reconstrução de seu casamento.
Inicialmente meu contato com Pedro foi mais indiferenciado em meio a todos do grupo. O que não nos impedia de procurarmos o olhar um do outro a todo instante. Tudo que falávamos era como se direcionássemos somente para nós e não houvesse mais ninguém. Ao mesmo tempo, procurávamos disfarçar e nos integrar à comemoração.
Fazia tempo que eu não via o sorriso de Pedro tão inteiro e iluminado. Apesar das dificuldades de estar com Felipe, sabia que tudo se resolveria logo.
Só nos falamos com mais intimidade, algumas horas mais tarde, na cozinha, quando pegávamos uma vinho.
- E Clara, como está? – procurou saber ele.
- Ficou com Raquel. Está bem. Temos ainda um longo caminho de adaptação. Eu percebo que para ela também tudo é novo.
- Acho que rapidinho vocês vão esquecer tudo o que passou. – Falou, abrindo a garrafa.
- Pedro, eu não sei como te agradecer.
- Não precisa. – Colando vinho em duas taças. Depois pegou uma e ofereceu a outra a mim. – Vamos fazer um brinde?
- À quê?
- À Clara. – Respondeu, sorridente.
Brindamos. Tomamos o primeiro gole, fitando os olhos um do outro. Eu estava muito feliz. Fazia pouco não esperava viver um momento daqueles com Pedro. Mas como D. Clarinda falava, o tempo resolve tudo.
E mais uma vez, era Clara quem nos aproximava. Não que o seqüestro de minha filha justificasse as mentiras, o golpe inicial, mas pelo menos explicava e não me fazia tão mal caráter, como ele pensava após descobrir a verdade.
Levei minha mão até seu rosto, e ele fechou os olhos, pousando a cabeça por alguns segundos na palma de minha mão. Era a primeira vez que eu sentia uma atitude de entrega por parte de Pedro durante meses.
Aproveitei aquela situação para beijá-lo.
Era maravilhoso poder sentir o calor de seu beijo novamente. Pousamos as taças de vinho em cima da mesa e sucumbimos à paixão que nos conduzia há tanto tempo. Podia sentia todo o seu corpo, o tremor, o calor, o cheiro naquele abraço restaurador de nosso sentimento. Paramos por alguns segundos e fitamos os olhos um do outro, como se para termos certeza do que estava acontecendo. Ele queria tanto quanto eu! Estávamos ofegantes e com nossos corações acelerados.
- Eu te amo, Júlia!
Não contive as lágrimas ao ouvir a firmeza daquela declaração.
- Eu também te amo, Pedro! – Aconchegando-me em seu peito. Desejava que aquele momento não passasse, não terminasse nunca. Estava em paz, feliz e vivendo plenamente o sentimento que havia me fortalecido por todo aquele ano de 2006. E novamente nos beijamos.
Sem que eu precisasse participar de planos mirabolantes, ou manipular a vida das pessoas conforme os meus próprios objetivos, fossem eles quais fossem, eu havia reencontrado a minha filha e estava diante do homem que eu amava, com a oportunidade de ser eu mesma e viver uma história diferente.
A vida me dava uma nova chance!

Tive vontade de falar do pedido de casamento de Leonardo, bem como de minha recusa. Assim deixaria tudo às claras. Eu sabia que minha relação com o dono da RTN ainda lhe causava uma série de desconfianças. Entretanto, talvez não fosse o momento de conversar sobre aquilo, quem sabe depois eu contaria. Pedro e eu estávamos tentando construir uma relação de confiança. Lembrá-lo das coisas que o levavam a questionar minha honestidade não seria bom ainda. 

E novamente eu não estaria tentando manipular uma situação para conseguir um resultado, exatamente o que havia nos afastado?

Mas não era tão grave desta vez!
Depois, quando a poeira baixasse, no momento certo eu partilharia.


Júlia Serrado

Resenha por Andréia Regina Nogueira Cruz


Qual é a sua casa dos Anjos?
Essa pergunta aparece quase no fim do livro, mas te faz pensar muito...
O livro conta o drama de quatro mulheres que tem suas vidas, de certa forma, interligadas, apesar de uma e outra não se conhecerem.
Júlia é a personagem "central", que tem a filha de 1 ano desaparecida. Marina é uma mulher apaixonada e submissa. Celina, uma tetraplégica que não aceita sua condição e Clarinda, uma mulher que não se permite viver seu grande amor.
No começo foi meio difícil acompanhar as quatro histórias, porque quando voltava na personagem, eu tinha esquecido onde tinha parado, então voltava um pedacinho para acompanhar (eu tenho esse probleminha, eu esqueço as coisas muito rápido...). mas conforme as histórias vão se entrelaçando e você vai conhecendo-as melhor, você só quer saber mais e mais o que vai "rolar".
Basicamente, uma história de encontros, principalmente o de si mesmo. E vou te falar que fiquei com a maior vontade de conhecer um pouco mais sobre Biodança e praticá-la.
Quanto ao nome do livro, ele se deve a uma "casa" que Celina ganhou ainda na infância, onde guardava seus desejos, mas também...(leia o livro...rsrsrs...).
Eu acabei descobrindo, acho, a minha. Eu queria muito ler esse livro, mas acabei "enrolando", demorando a ler e acredito que acabei lendo-o na hora certa. Sabe quando você lê algo que parece ter sido escrito pra você? Pois é, eu me vi em determinados "sentimentos" e pela primeira vez, depois de muito tempo, resolvi exprimi-los e OMG, foi tão bom, me senti tão mais leve e feliz...
Então só posso dizer que gostei muito do livro...
Fica a dica...
Bjos!!!

Resenha por Jailson Batista


Quando eu comecei a ler o livro “A Casa dos Anjos” eu me deparei com o seguinte: 4 histórias sendo contadas por 4 narradoras diferentes. A princípio eu achei que isso atrapalharia a leitura e até mesmo o desenrolar da história. Porém o que aconteceu foi exatamente o contrario, na verdade ajudou. As historias se cruzam e é isso o que dá o algo mais a trama. A maneira que elas se encaixam é importante para entender melhor o enredo. Quando terminei de ler o livro e vim fazer a resenham relembrando fatos, me senti como se não fosse um livro que eu tivesse lido, mas sim uma novela que eu tivesse assistido. Original, essa é a palavra. Acredito que o Autor Antonio Rondinell quis mostrar os conflitos que temos, conflitos que nos mostra nossa verdadeira face. Lembro que li em algum lugar a frase: “A dor é suportável, exceto para quem a sente” e o livro mostra um pouco disso, um pouco de como lidamos com nossos sofrimentos. No aspecto físico dou destaque à capa, suave e encantadora, assim como a história.

Agradeço ao Autor Antonio Rondinell (Que mora aqui do lado :]) por ter cedido um exemplar do livro para resenha, espero que ele continue escrevendo (já estou sabendo de novos projetos :D) e nos agraciado com suas histórias.

Abraço e boa leitura.

Comentério do Leitor


A leitura de A Casa dos Anjos foi perfeita, o conteudo maravilhoso, me fez resgatar o habito que havia perdido. Estamos esperando ansiosamente pela segunda edição, deixou um gosto de quero mais. São historias que nos envolvem vivenciando as alegrias, tristezas e força de vontade de superar os problemas que surgem no decorrer de nossa caminhada como ser humano. Pra mim foi perfeito, e que venham logo as proximas ediçoes.

Vanessa - Leitora

Comentário do Leitor


"O livro é escrito com uma riqueza de detalhes que em muitos momentos me sentia sugada pelas cenas descritas. Era como se presenciasse aquele momento narrado, sentisse o que era dito pelas personagens. Ele envolve, seduz de uma forma tão sutil que quando você menos espera não consegue se separar querendo saber o desfecho da história. Vale a pena comprar e aceitar este convite a leitura."

Ticiana Otoch Moura - Psicóloga


Comentário do Leitor


Gostaria de parabenizá-lo pelo seu sucesso nacional. Li todo o livro e realmente é muito bom. Para quem tem sensibilidade, ao ler um livro como A Casa dos Anjos, descobre os valores de sua vida e da vida do próximo, avalia sua posição diante das dificuldades e porque não das facilidades, passando a valorizar a vida independente de sermos apreciados pelo outro. Descobri a importancia do ser, independente do ter. Nos convida a fazer uma reflexão dos nossos valores, atitudes e escolhas. Minha nota é 10. Parabens, um forte abraço.

Odília Gondim - Economista Doméstica e Educadora.



Comentário do Leitor


"A leitura de A casa dos anjos foi deveras prazerosa para mim, sobretudo pelas peculiaridades que me levaram ao livro: ter no escritor um amigo querido; a estória ambientada em Fortaleza; a narrativa de cada uma das quatro mulheres que me remetem a situações vividas em algum momento da vida. De fato, nunca levei a termo uma leitura de forma tão determinada como fiz com este livro, e o motivo era muito simples, a cada página que folheava sentia-me convidada, mais que isso, sentia-me instigada a continuar e continuar e continuar, e lia avidamente. No dia que conclui a leitura percebi que jamais havia lido um livro com tamanha empolgação e curiosidade que me acompanharam desde a primeira até a última página, foi uma experiência realmente fascinante e única para mim. Percebi também que, inexplicavelmente, sentia-me ligada aos personagens como se em algum lugar eles me aguardassem para continuarem suas vidas, como se eu fizesse parte da história deles ou quem sabe eles da minha... Já havia ouvido falar em “depressão pós livro”, mas só agora pude compreender do que se trata isso, não só porque chorei na leitura das últimas páginas, mas em especial pela enorme saudade que sinto de Júlia, Marina, Celina e Clarinda."

Norma Sampaio - Economista e Facilitadora de Grupos

Comentário do Leitor


"A Casa dos Anjos é um livro fascinante que nos instiga a mergulhar no universo de quatro mulheres, seus conflitos, sentimentos, numa busca que nos convida a refletir e a dialogar sobre felicidade, ética, valores, esperança, verdade, vida, amor. È um livro fantástico, emocionante que nos convida a ser,a sonhar e a viver quando sentimos a força, a dor, o vôo de liberdade, a doação, o amor de cada uma das personagens. Convido você a ler este livro e dialogar com cada uma destas mulheres."

Luciana Nogueira - Educadora / Licenciada em Letras


Comentário do Leitor


"Nunca tinha lido uma síntese da vida e do seu sentido, do nosso destino e das nossas possiblidades, permeado de cautela em relação aos nossos erros e acertos que podemos cometer nesse emaranhado que a vida e os nossos relacionamentos como A Casa dos Anjos. O livro tem passagens marcantes e tocantes. Júlia Serrado, Marina Pessoa, Celina Gondim e Clarinda de Holanda são mulheres que me habitam. Muitas vezes me sinto "tetraplégica", pelo medo de enfrentar a minha essência. Júlia Serrado me remete à Deusa grega Perséfone, ao ter sua filha sequestrada para o mundo avernal de Hades, o mundo do inconsciente e também da sombra, que muitas vezes me impedem de ver a luz. Perséfone é muito intuitiva e tem muita sabedoria, mas é preciso vigilância... Enfim, este livro é um convite a buscar a nossa essência, e vai além do Ter e Ser. Quem tiver oportunidade de ler, com certeza vai abrigar este espírito, a mente e o coração.
Obrigada, Rond."

Maria do Rozário de Oliveira - Psicóloga e Educadora.

 
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