Abra, entre e faça seu caminho...

Abra, entre e faça seu caminho...
A arte de escrever é para mim uma possibilidade de dar vida ao universo infinito de nossas criações. Precisava de um espaço onde isso fosse possível. Assim, nasceu este blog literário, com a ideia de ser um canal à expressão livre de muitas histórias, personagens, dramas e tramas que estão em minha mente, orientados por valores e crenças existenciais que representam a minha alma. Deste modo, seja muito bem vindo ao meu blog, e que minhas histórias possam lhe tocar o coração e a alma! (Antonio Rondinell)

A Casa dos Anjos - Continuação: A História de Celina Gondim (Livro Virtual)




A Casa dos Anjos - Continuação: A História de Celina Gondim




Antonio Rondinell - 2010/2011





CAPÍTULO 1

Os últimos três anos de minha vida foram marcados por uma intensa luta de reabilitação, para que eu voltasse a andar. Fazia seis anos desde o grave acidente em que fiquei tetraplégica.
Tomei o acidente como uma pena por tudo o que eu havia feito a minha família. Foram anos de sofrimento e internações em diversas clínicas de recuperação à dependência química desde a minha adolescência. Fui destruindo minha vida aos poucos.
Depois de uma longa temporada na Inglaterra, em mais uma das incontáveis tentativas de meu pai para me livrar do vício, decidi registrar minha luta num livro chamado Entre o amor e as drogas. Transformado em best-seller pouco tempo depois. Época em que conheci Vinícius, meu editor, que viria a ser o meu marido, meses mais tarde. Dois anos de um casamento feliz, até mais uma recaída. Ele tudo fizera para me ajudar. Resultando naquela noite infeliz em que peguei o carro, completamente drogada, após uma briga descomunal, em que causei a sua morte.
Perdia meu marido e meus movimentos ao mesmo tempo, como uma forma de punição a tudo o que tinha feito. E por isso, passei os anos seguintes longe de qualquer esforço para uma reabilitação. Sentia-me culpada pela morte de Vinícius e precisava pagar de algum modo. Afastava-me cada vez mais do que era real e me entregava novamente a uma nova forma de fantasia, naquele momento um castigo por todo o sofrimento causado a ele e a meu pai. Era como se eu criasse um mundo só meu, mais um, como muitos criados em minha vida.
Filha do segundo casamento de Leonardo Gondim, sofri com a distância de meu pai durante toda a minha infância, depois de sua separação de minha mãe. O casamento dos dois não suportou os ciúmes de Maria Eugênia, minha irmã mais velha, na época uma adolescente. Para ela minha mãe era culpada pela morte da sua. Papai e mamãe pareciam ter se conhecido antes que ele ficasse viúvo.
Ainda na infância, ganhei uma casinha de madeira, guardada por três anjos na frente. Cabia nas palmas das minhas mãos. O vendedor me dissera tratar-se dos três Arcanjos Maiores – Miguel, Rafael e Gabriel. Ali eu poderia fazer pedidos e, juntos, os anjos os transformariam em realidade. Assim, eu poderia mudar o mundo a minha volta, com a minha casinha mágica. Meu pai me daria mais atenção, minha irmã passaria a gostar de mim, mamãe e eu seríamos mais felizes. Durante anos foram milhares de pedidos, vivendo a felicidade por sua realização. Embora a maior parte deles nunca tenham se concretizado. No entanto, no momento em que eu fazia o pedido aos anjos, já me sentia mais feliz, imaginando sua realização, que nunca acontecia. Era um mundo imaginário que me conduzia permanentemente à felicidade, embora que fantasiosa.
Foram anos vivendo o universo criado em torno da minha casa dos anjos, até a morte de mamãe. Meu último pedido foi que ela voltasse a ter vida. Ali percebi que tudo não passava de uma grande fantasia, que a realização de nenhum dos pedido me fora concedida. Senti-me tola, sem amigos, longe de papai, vivendo uma vida de mentiras. E naquele momento, sem a presença de mamãe. Nem a casa dos anjos, nem ninguém poderia trazê-la de volta. Deus fora severo comigo! Quebrei a casa dos anjos para sentir a dor de perder a única pessoa que me amava.
Finalmente fui morar com meu pai e minha irmã. Começando a enfrentar o novo desafio. Maria Eugênia me odiava e fazia da minha vida um inferno. Adorava me humilhar diante de suas amigas, destruía qualquer coisa que eu gostasse. Tratava-me como uma bastarda.
Conheci o primeiro cigarro de maconha ainda na adolescência, como forma de fugir daquela realidade brutal que eu experimentava diariamente. Era um novo mundo, uma nova fantasia, que me puxava do que era real e me fazia sentir um pouco mais feliz, mesmo que por alguns instantes.
Morri em vida, sem aceitar a condição de tetraplégica. E depois de anos me martirizando, culpando-me pela morte de Vinícius, isolando-me cada vez mais do mundo real, tendo abandonado o universo da literatura, mesmo com o sucesso em vários países com a publicação de Entre o amor e as drogas, e da novela Sertão, escrita para a RTN pouco antes do acidente, papai e Pedro Lucena me convenceram a voltar ao trabalho, inicialmente como musa inspiradora da série Tente Outra Vez, para o horário nobre da emissora, mais tarde, integrando a equipe de autores da história. O que só veio a acontecer de fato, após um sonho em que Vinícius me apareceu pela primeira vez, pedindo para que eu voltasse à vida, a lutar pela minha felicidade. Que eu precisava me perdoar. E para isso, bastava ouvir as batidas do meu coração – Título do primeiro episódio da série Tente outra Vez escrito inteiramente por mim, marcando o meu retorno à vida.
Foram três anos de muito esforço e dedicação, lutando incansavelmente para recobrar meus movimentos. Há mais de um ano eu havia me livrado da cadeira de rodas, andando apenas com a ajuda de uma bengala. Meus membros vinham retomando sua força a cada dia, deixando-me cada vez menos dependente. Embora me locomovesse ainda com certa dificuldade, bem devagar, focando passo a passo. Meus movimentos se desenhavam como uma dança ensaiada, resultado de muito empenho. Progresso também percebido em minha dicção, as palavras já se pronunciavam com mais clareza e menos espaçadas. Eram horas diárias de fisioterapia numa sala de reabilitação construída em nossa casa especialmente para mim. Papai não poupou esforços nem dinheiro, foram gastos milhões na estruturação do espaço, com equipamentos de última geração. Além de três grandes profissionais contratados a peso de ouro para estarem à frente de meu tratamento.

~

Minha enfermeira Dulce tornara-se minha grande amiga naqueles anos de confinamento e cansaço. Ela me acompanhava em todos os momentos, em todas as longas e dolorosas sessões de fisioterapia. Surpreendendo-me com uma notícia um tanto quanto indesejada naquele início de dezembro de 2009. Acabávamos mais uma sessão de fisioterapia quando ela me abordou com o assunto.
- Celina, você já está quase recuperada totalmente. Logo meu trabalho está ficando obsoleto nesta casa.
- Você obsoleta, Dulce?
- É verdade. – Sorria, pegando umas toalhas na maca. – Vim para cá com o objetivo de cuidar de você. Acho que cumpri minha missão.
- O que está querendo dizer com “cumpri missão”?
- Celina, você já não necessita mais de mim há muito tempo. Está cada vez melhor, mais saudável. Vai para todo lugar sozinha. Não precisa mais de mim. Sua saúde está perfeita. Hoje estou me sentindo mais uma dama de companhia do que propriamente uma enfermeira. Vê se pode isso.
Aquele assunto não era muito do meu agrado. Em outros momentos ela havia tentado falar sobre aquilo e eu procurava fugir, mudar de assunto. No entanto, não conseguiria cozinhá-la em banho maria por muito tempo.
- Você sempre falou de nossa jornada, Dulce. Que venceríamos juntas.
- E vencemos.
- Não terminou ainda.
- Celina, você não quer enxergar. Cheguei a esta casa pouco depois do seu acidente. Temíamos por sua recuperação. Passei anos cuidando de uma tetraplégica. Hoje você é uma mulher praticamente normal. Recuperou mais de setenta por cento dos movimentos. Caminha sozinha, faz tudo sem a ajuda de ninguém.
- Eu preciso de você, Dulce?
- Para quê?
Um longo silêncio. No fundo ela tinha razão. Temia continuar sozinha, essa era a verdade. Dulce representava um ícone para minha recuperação. Estivemos juntas em muitos momentos dolorosos de minha vida. Ela me ajudou a enfrentar não somente meu estado de tetraplégica, mas o inferno criado por Maria Eugênia dentro de casa para me maltratar, por ser eu a filha do segundo casamento de nosso pai. E quando não podia me locomover, era como se fôssemos uma só pessoa. De repente, me imaginar sem Dulce, seria perder um pouco de mim mesma.
- Dulce, você está insatisfeita aqui? – Precisava reverter de algum modo.
- De certa forma sim. Eu sou uma enfermeira, Celina. Há muito tempo não tenho exercido minha profissão aqui nesta casa.
- Você não é apenas minha enfermeira, é minha melhor amiga, ou a minha única amiga. Nós estamos juntas nessa, lembra?
- Mas essa não e a minha profissão, Celina.
- Eu sei. Acho que não estou preparada para ficar sem você.
- Nós não deixaremos de ser amigas.
- Posso então te pedir uma coisa?
- Claro.
- Vamos amadurecer melhor isso.
- Celina...
- Por favor, Dulce. Deixa eu ir me acostumando com isso, com a ideia de ficar sem você. São seis anos juntas. Foi tanta coisa. Além do mais somos quase casadas. – E rimos, com os lhos marejantes. Brincávamos com aquela história há anos.
- Celina, já tem quase um ano que eu tento ter esta conversa com você.
- É difícil para mim, Dulce.
- Para mim também não é fácil. Eu estou muito acostumada. Afinal são seis anos morando aqui, partilhando minha vida com você e sua família. A gente acaba se sentindo parte.
- Mas você é parte.
- Não sei não, viu? – Sorriu, um pouco envergonhada.
No fundo, sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Precisávamos apenas pensar numa forma de Dulce voltar a trabalhar, sem necessariamente ter que ficar tão longe de mim. Lembrei-me da casa dos anjos, de meu poder em transformar o que era indesejado. Se fosse real aquele poder, pediria a presença permanente de Dulce em minha vida. O apego, um dos maiores pecados do ser humano. Seria maravilhoso se conseguíssemos estabelecer relações de liberdade e amor, sem considerarmos o outro como propriedade nossa. Substituindo a dependência pela interdependência de almas. Uma lição que eu precisava aprender a partir daquele momento.




CAPÍTULO 2


E como minha vida mudara nos últimos três anos. O desejo de morte como punição era coisa do passado. Sentia-me cada vez mais forte, feliz. Diversos outros encontros com Vinícius marcaram meus sonhos naquela época, coisa que jamais acontecera antes de minha decisão por voltar a criar, a escrever. Nos sonhos ele se mostrava feliz com meu caminho e me inspirava na expressão da minha arte.
Outra presença importante no processo de meu retorno à vida fora Pedro Lucena. Amigo leal, desde a adolescência, pela amizade de nossos pais e por trabalharem juntos. Era ele meu porto seguro quando estive na clínica de recuperação em Londres, dando-me o apoio necessário, mesmo com os ciúmes de sua esposa Vanessa. E mais tarde, ao voltar para Fortaleza, após a morte de seu pai, incentivou-me na redescoberta da escritora em mim, criando inúmeras oportunidades dentro da própria RTN, a fim de que eu voltasse a escrever. Como a implementação da série Tente Outra Vez, trazendo a deficiência física e suas nuanças, o preconceito, a dificuldade do portador em nosso país como tema em discussão, para a sensibilização da sociedade a esta problemática, abordada a partir de um centro de reabilitação. Empreitada de sucesso, obtendo média de dezesseis pontos de audiência no horário nobre, chegando muitas vezes ao primeiro lugar, da qual assumi a chefia da equipes de autores.
Pedro e eu estivemos juntos incontáveis vezes nos últimos anos, nas quais ele me falava do universo infinito de criações em mim, pulsando por expressão. Mesmo depois das drogas, das inúmeras internações e recaídas, dos dois anos de abstinência sem nada produzir após o acidente, em nenhum momento ele desistiu ou deixou de acreditar em mim. Um incentivador fiel de meu trabalho, de minha arte. Foi dele a ideia de transformar minha experiência no encontro com as drogas em livro, dando vida à escritora Celina Gondim.
Naquele início de dezembro de 2009, Pedro me surpreendeu com outro grande convite ousado. Eu estava em minha sala de reabilitação, em plena atividade, ainda acompanhada dos fisioterapeutas, quando entrou sorridente.
- Como anda a minha autora preferida?
- Pedro? Que surpresa! – Sua presença me deixava extremamente feliz.
- Bom te ver assim, Celina. – Disse ele, acolhendo-me num caloroso abraço.
- Há quanto tempo...
- Tenho andado bastante ocupado. Estamos estreando uma nova grade de programação no horário nobre, especiais de final de ano, isso tem nos tirado o sono. É muita coisa nova vindo por aí.
- Eu preciso de um intervalo. – Pedi aos fisioterapeutas.
- Deixem-na um pouquinho só comigo. Juro que cuido bem dela. – Acrescentou, sorrindo. – Alguns minutos apenas.
- E o que o traz aqui? – Ele me ajudou a levantar do aparelho.
- Não posso visitar a minha autora preferida?
- Não só pode como deve. Mas estou quase certa que o vice-presidente de uma das maiores emissora de televisão do país não tem tempo de sair assim durante o dia a fim de visitar os velhos amigos, jogar conversa fora. Estou errada?
- Por que me tomas, Celina Gondim? – Fez cara de sério, e depois abriu grande sorriso. – Acha que tenho interesses escusos?
- Você? Jamais! – E rimos juntos.
- Ainda bem. Pensei que a minha velha amiga estivesse me confundindo.
- De jeito nenhum. Tenho até medo quando chega assim como quem não quer nada. Geralmente é coisa séria.
- Não tão séria assim. Quer dizer... – Passando a mão pelo cabelo crescido, como sempre o fazia, levando-o para trás, seguido de um suspiro. – Depende de ângulo em que se observa a situação.
- Pedro Lucena! – O repreendi, brincando.
- Tá, está bem. – Erguendo as mãos, para me acalmar. Pode ser sério ou não. Para um empresário do mundo televisivo sim, para um artista talvez não.
- Você e suas parábolas.
E ele sorriu.
- É que o artista enxerga a coisa de outro ângulo, pra ele isso é também diversão, acho que ele sabe saborear o trabalho melhor que ninguém.
- O que não impede de reconhecermos a seriedade naquilo que fazemos.
- Mas a seriedade não vem com o peso com que você falou inicialmente.
- Tem razão. Mas e então...
- Quero que escreva uma das nossas próximas novelas.
Realmente não senti peso em seu convite natural.
- Claro. – Ainda não tinha me dado conta. – Como? – Finalmente a caiu ficha. – O que você disse, Pedro?
- Quero que escreva uma de nossas próximas novelas. – Repetiu naturalmente.
- Você deve ter enlouquecido.
- Eu sou louco. Por isso sou o vice-presidente da RTN. – Falava tão sério e com tanta naturalidade, que eu até acreditava. Coisas de Pedro Lucena. Uma figura adorável.
- Não, não deve estar falando sério.
- Celina Gondim, sabe que não homem de brincadeiras. – Afirmou com tom sério. – Não sempre. – E completou. Depois, sorriu. – É sério sim. Já demos tempo mais que suficiente para você voltar a tomar o ritmo.
- Uma novela não é como um série de episódios semanais.
- Claro que não. Por isso estou lhe convidando.
- Pedro, já fazem seis anos.
- Sertão foi um grande sucesso, e foi sua primeira novela.
- Eu sei, mas a série deu certo, é um grande sucesso. Não vou deixá-la.
- Tente Outra Vez não estará na programação de 2010, Celina.
- Como assim? A RTN não pode tirar um trabalho desses do ar. E o retorno comercial? Garantimos muita audiência, e de qualidade no horário nobre.
- Temos outras propostas para mantermos a qualidade de nossa audiência próximo ano. Vamos encerrar a temporada de Tente Outra Vez com grande sucesso, não quando estiver em baixa. Para nós isso é um diferencial.
- Não, não compreendo.
- Por isso decidi vir pessoalmente conversar com você.
Pedro conseguiu me tirar o chão. Passara os últimos três anos à frente daquele trabalho, tendo meu talento reconhecido, fazendo algo em que verdadeiramente acreditava, ajudando as pessoas a enxergarem um universo até então ignorado. Toda a equipe de atores, diretores, autores era perfeita. Tente Outra Vez havia sido para mim um convite de retorno à vida. E naquele momento, seu criador anunciava o fim. Simples assim.
- Não concordo, Pedro. Definitivamente não concordo! – Nem conseguia reconhecer aquela atitude num homem como ele, sempre preocupado em ajudar o outro, desenvolvendo trabalhos sérios e de qualidade, oportunizando o crescimento e a expressão das pessoas. Conseguia equilibrar perfeitamente os interesses financeiros da emissora e a coerência com seus princípios éticos. Ouvi papai afirmar por diversas vezes a sua profunda admiração por Pedro Lucena, considerando-o seu substituto na presidência da RTN. E de repente, naquele momento, não enxergava mais que interesses econômicos e estéticos em relação à programação da emissora. – E os profissionais envolvidos na série, como vão ficar?
- Eles não serão demitidos, mas desafiados em outros trabalhos.
- E a idéia? Foi você quem criou a série. Nós ajudamos muitas pessoas ao longo desses três anos, Pedro. Por que acabar agora?
- Para não perdermos a credibilidade de nosso trabalho. Daqui a pouco a fórmula estará desgastada, nos distanciaremos cada vez mais de nosso objetivo. Acho que foi um trabalho especial para todos nós. Com certeza marcou época na televisão brasileira. Mas precisamos reconhecer seu início, meio e fim, como tudo na vida. É um ciclo, entende? – Colocou novamente o cabelo para trás e prosseguiu: - O equilíbrio está na aceitação e entrega para vivermos todos esses momentos, plenamente.
- Mas, Pedro, eu acho que ainda não é o fim.
- O fim não é somente quando fracassamos. 
- Mas quando não há mais ressonância nas pessoas. E isso não é nosso caso. Tente Outra Vez ainda é sucesso. Toca o coração de muita gente ainda. Não temos a dimensão do quanto ajudamos.
- E podemos ajudar muito mais. No entanto, Tente Outra Vez é apenas uma forma. A vida nos convida a outros desafios, outras formas, muito mais... – Mesmo com resistência, sentia-me contagiada por sua empolgação. Pedro tinha o dom de envolver com suas palavras, em seus momentos de criação. Sentia-se livre no pensamento, nas ideias. E falava disso com fervor.
- Sua arte não pode se limitar a esta forma de expressão, Celina. Você tem muito a oferecer, a partilhar com as pessoas.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
- Essa série é como um filho.
- Sei disso. Como seu primeiro livro, sua primeira novela. Com esse trabalho não poderia ser diferente. Você ama o que faz, Celina.
- Ela me trouxe de volta.
- Fez parte da vida de muitas pessoas também, e teve a sua importância. Continuará sendo vendida para outros países, sendo exibida em nosso canal por assinatura. Essa série tem o seu papel. Mas a magia no que criamos está em nossa liberdade diante da criatura. Quando damos forma ao que está no mundo de nossas criações, isso deixa de nos pertencer e ganha vida própria, passa a ser do mundo, das pessoas, entende?
Era difícil aceitar. Cada episódio criado, cada personagem, cada historia era meu, me pertencia. Pensar em por um fim à série seria como abandoná-la, como tirar uma vida.
- Isso me entristece, Pedro.
- Quando uma mãe dá a luz a uma criança, ela não precisa continuar a gestação para que este ser tenha vida. Você já fez a sua parte como mãe, como criadora, entende?
Compreendia, mas não aceitava.
- Queria sentir-me livre assim como você. – Respondi, sorrindo, com olhos marejantes. – Sou muito apegada, Pedro.
- Quero você de volta às novelas, Celina. Acredito no seu trabalho, sabe disso. Você tem muito mais a oferecer para o mundo. – Sorriu e completou: - E estou com saudade de assistir uma boa novela, assinada por você.
Diferente do que eu pensava Pedro não se orientava simplesmente pelos interesses financeiros da empresa, sabia exatamente o momento de findar e iniciar outro ciclo, visando, sobretudo o crescimento de todos os envolvidos, em todas as dimensões. Esse era o Pedro Lucena que eu conhecia. Tinha sido um dos garotos mais bonitos e cobiçados do colégio, minha primeira paixão. Devo ter passado anos sonhando com um beijo seu. Ilusão desfeita quando de meu encontro com as drogas. Acabamos por nos afastar e nos reencontrarmos somente anos depois em Londres, ele já casado com Vanessa, e eu em mais uma tentativa de recuperação do vício.
Tranquilamente Pedro anunciara o fim de Tente Outra Vez. Aquelas histórias semanais haviam preenchido minha vida nos últimos anos, trazendo sentido ao meu tratamento, à minha recuperação. Elas faziam parte de mim. E vezes até se confundiam comigo, com meus sentimentos, minhas angústias e dúvidas. Transferia para o texto as muitas interrogações, as minhas esperanças, desejos e sonhos. Aquele trabalho era para mim naquele momento a minha vida. E de repente, meu melhor amigo, justo a pessoa que me propiciara aquela experiência me exigia um ponto final. Como? Extinguir o instrumento responsável pela transformação da minha vida de algo sem sentido para uma existência repleta de significados?
Mais uma vez me recordei da minha casa dos anjos. Por um instante fiz o pedido. Que aquela conversa com Pedro não passasse de um sonho. Ou melhor, que ele reavaliasse sua posição, garantindo mais uma temporada para a série na programação de 2010. Por pouco não senti a mesma felicidade experimentada em todos os pedidos diante da casa dos anjos em minha infância, não fosse pela certeza da realidade. Não era mais uma criança, nem cabia mais aqueles jogos de ilusões. A sentença fora dada.
Mas e se eu conversasse com papai? Não que eu quisesse passar por cima de Pedro. Ele poderia convencê-lo do contrário e continuarmos com nosso trabalho maravilhosamente. Sim, seria uma saída. Vendo meu desespero, papai certamente se sensibilizaria. Ele melhor que ninguém sabia o quanto fora difícil para eu renascer do mundo de isolamento no qual vivi durante anos após o acidente. E tudo fizera para que eu integrasse aquela equipe. Jamais aceitaria ver seu esforço se destruir bem diante de seus olhos sem nenhuma atitude tomar para impedir. Papai seria um ótimo aliado.
Por um instante senti-me mal, como se traísse Pedro e sua lealdade com aquela atitude de menina mimada, pedindo guarida na barra da calça do pai. Mas seria por uma boa causa. E se eu acreditava de verdade no meu trabalho, alguma coisa precisava ser feita, não poderia desistir tão fácil. Talvez fosse esse o convite.




CAPÍTULO 03



Pensei muito na possibilidade de conversar com papai. Como dono e presidente da emissora ele seria a única pessoa em condições de reverter aquela situação exposta por Pedro Lucena. Certamente não sabia ele dos planos de seu vive-presidente a respeito da série Tente Outra Vez. Ora, papai tinha conhecimento da importância daquele trabalho para mim. E sendo um programa de grande sucesso há tantos anos no ar, não permitiria sua extinção, sobretudo se visse o meu desespero em perder meu porto-seguro, fundamental à minha recuperação.
Foi Dulce, minha enfermeira quem me chamou atenção para o fato de que poderia sim papai ser cúmplice na proposta de Pedro. Afinal, este não me queria fora da RTN, pelo contrário, desejava me ver em uma empreitada maior ainda, voltando às novelas, depois de tantos anos.  E como não havia pensado antes? Dulce estava coberta de razão acerca da cumplicidade profissional entre meu pai Leonardo Gondim e seu vice-presidente. Estiveram juntos na luta de convencimento para que eu voltasse a escrever com a série. Por que não estariam naquele momento novamente?
Bom, precisa tirar aquela história a limpo. O que não demorou muito para que eu o procurasse. Aproveitei uma tarde em que havia chegado mais cedo em casa e estava no escritório. Mena, nossa empregada, só não me contara que se tratava de uma reunião de trabalho.
- Papai, precisava... - Entrei no ambiente, interrompendo a conversa entre ele e a outra pessoa. – Ah, desculpem-me. – Constrangimento total. Ele tinha o hábito de realizar reuniões importantes e sigilosas no escritório de nossa casa.
- Oi, filha. – Falou, surpreso, sem demonstrar incômodo, com meio sorriso.
- Papai, não quis atrapalhar. Mena me disse que o senhor estava aqui no escritório. Mas não falou que estava acompanhado. – Referia-me ao homem, sentado de costas para a entrada do cômodo.
- Sem problemas, querida. – Este é Tancredo Flores, um dos melhores repórteres investigativos deste país. - E finalmente o homem se voltou a mim, levantando-se para me conhecer. – Tancredo, esta é minha filha mais nova, Celina. – Papai me apresentou.
- Olá. – Falei, meio envergonhada ainda, por ter lhes atrapalhado.
- Prazer, Celina. – Estendendo a mão para me cumprimentar. – Então finalmente conheço a escritora Celina Gondim?
- Como? – Corei.
- Celina, Tancredo é fã do seu trabalho. – Antecipou-se papai, que havia percebido meu constrangimento.
- Isso. Sempre que posso assisto os episódios de Tente Outra Vez. – Complementou Tancredo. – E não é de hoje que sou seu fã, Celina. – Sorriu. Parecia realmente alegre por estar me conhecendo.
- Obrigada. – Como saía raramente de casa, não era comum encontrar fãs do meu trabalho. E foi uma sensação maravilhosa. Escrevia os episódios da série, sem a consciência de quantas pessoas acabava por atingir. Tancredo era apenas um dos milhares de telespectadores. Por um instante, senti um arrepio pela responsabilidade. Minhas ideias eram partilhadas com tantas pessoas que eu nem conhecia, transformando histórias de vidas nunca imaginadas por mim. A presença simples daquele homem provocava-me o contato com a grandiosidade do que eu fazia. Algo não experimentado há anos.
- O que você ia mesmo dizer, querida? – Papai logo procurou saber.
- Precisava conversar com o senhor.
- É muito importante?
- Pode esperar, não se preocupe. Como disse, só entrei por achar que estava só.
- Logo que terminar com Tancredo lhe procuro então.
- Está bem, eu aguardo.
- Também foi um prazer, Tancredo. – Finalmente tomei coragem e falei. Pensei em dizer aquilo o tempo todo, desde que havia entrado ali, e adiava a cada fala com papai.
- Que bom. Podemos então depois conversar, trocar idéias.
- Sim, com muita satisfação. – Deixei-os, meio sem graça.
“...com muita satisfação”. Que mico! Por que dizer aquilo? O rapaz havia sido super espontâneo, natural. Parecia bem à vontade. Aquela expressão traduzia um formalismo que não cabia no momento.
Tancredo Flores? Sim, era o famoso repórter investigativo da RTN. Trabalhara por mais de uma década numa grande emissora carioca e havia sido contratado por Pedro Lucena, há três anos, com o intuito de reforçar a equipe jornalística da emissora, trazendo mais credibilidade para este departamento, junto à contratação de outros grandes nomes da área.
Ele parecia mais bonito pessoalmente do que no vídeo. Dotado de um charme especial. Talvez tivesse uns quarenta anos, no máximo. Mais baixo do que parecia na TV. E um cheiro que resistiu em minha mão, mesmo depois de horas. Vestia-se de forma elegante e despojada, com um blazer marfim de riscado sobre uma camisa solta azul clara e calças jeans. Lembrava o estilo de Pedro Lucena, com um pouco mais de despojamento. Já havia assistido incontáveis matérias e reportagens realizadas por ele, sem nunca pensar que fosse um dia lhe conhecer pessoalmente. Eu sim admirava seu trabalho de verdade, na certa como muito brasileiros. Tancredo Flores era um orgulho cearense. Fora embora de Fortaleza ainda na adolescência para estudar jornalismo no Rio de Janeiro, construindo uma grande carreira profissional. Voltara à cidade natal pelas mãos de seu velho amigo, então vice-presidente da RTN, sendo contratado a peso de ouro. Papai orgulhava-se de tê-lo em seu quadro de jornalistas, sem esconder a profunda admiração por seu trabalho, comentava que sua competência pagava cada centavo do alto salário a ele conferido. E até o convidara algumas vezes para apresentar um programa só seu. O que finalmente estava conseguindo. Tancredo achava até então que não era o momento certo. Quanto a mim, adorei conhecê-lo.
Logo que papai e Tancredo saíram do escritório, tratei de me antecipar à sala, sem que eles percebessem a minha presença. Parecia mais uma fã deslumbrada com seu ídolo. Não podia negar ser ele uma figura interessante, um homem bonito. No fundo, a gente acaba mitificando muitos artistas ou figuras públicas, por conhecer parte de suas vidas, de seu trabalho e até de sua intimidade, e considerá-los inacessíveis, distantes de nossa realidade, mesmo nos identificando e os admirando, como deuses do Olimpo.
Ouvi os dois falando de uma menina, um sequestro. Ah, talvez a história que papai me contara sobre sua amiga Júlia Serrado. Sim, Tancredo Flores parecia estar investigando o caso. Na certa trazia alguma informação ou novidade. Ao se despedirem, pude acompanhar por uma janela, o repórter se direcionando ao estacionamento de nossa casa. A sala de estar de nossa casa ficava no lado mais alto do terreno, contrário ao estacionamento, permitindo-me uma visão ampla do local. Ele destravou o carro com o controle do alarme, apanhou um objeto no chão que pareceu ter caído de sua mão, talvez uma caneta, entrando em seguida no veículo. Alguns segundos se passaram até a partida do motor. Pude ouvi-lo engatar a marcha à ré. Em pouco tempo o corola prata deixou os jardins de nossa casa nas Dunas.
Será que eu o encontraria mais uma vez? Durante tantos anos em que Tancredo Flores trabalhou para a RTN, fora a primeira vez que esteve em nossa casa. A pesar de papai tratá-lo como amigo, parecia ser um homem reservado. Bom, se não nos visitasse mais, por que então disse-me que poderíamos conversar e trocar ideias? Era do conhecimento de todas as pessoas minha falta de costume de sair de casa. Se ele não fosse até nós, certamente nunca mais nos veríamos.
Trocar idéias? Que ideias teria um repórter do porte de Tacredo Flores a trocar comigo? Será que ele pensava em escrever um livro, uma biografia ou coisa parecida? Sim, era na única coisa que eu poderia lhe ajudar. Isso se realmente ele precisasse. Afinal, como um grande repórter, escrever com certeza não lhe seria um problema. Então o quê? Gostei de ouvir aquilo e desejava saber mais. Morri de curiosidade depois de sua saída. O que ele quis dizer com aquilo?
 “Podemos então depois conversar, trocar idéias.”



CAPÍTULO 04



Encontrava-me cheia de idéias para a nova temporada da série Tente Outra Vez. Apresentaria o projeto a papai e Pedro Lucena dali a alguns dias. Conseguira marcar uma reunião com os dois entre o natal e o réveillon, mesmo estando Pedro se recuperando do atentado na estrada do Porto das Dunas. Estava confiante em convencê-los a permanecer com a empreitada semanal no horário nobre da RTN.
Acordei cedo, antes mesmo de Dulce levantar. Ao sair do meu quarto vi que a porta da sala das espadas estava entreaberta. Tratava-se do refúgio de papai, o lugar onde se escondia da roupagem de grande empresário e saboreava seu hobby. Iniciara sua coleção de espadas há quase quarenta anos e há poucos anos havia transformado dois quartos de hóspedes num imenso salão para ostentar cada uma de suas peças. Já eram centenas, de todos os modelos e tamanhos, vindas de várias partes do mundo. Algumas, verdadeiras jóias. O poderoso Leonardo Gondim não poupara tempo nem dinheiro para constituir seu arsenal de espadas, o qual chamava de acervo, sua verdadeira paixão.
Fui surpreendida pela presença de Tancredo Flores debruçado sobre uma das gôndolas no meio do salão que ostentavam uma belíssima peça de aço fundido. O que ele fazia ali tão cedo, e em um ambiente tão íntimo de papai? Aparência impecável, trajava um blazer de camurça caqui sobreposto a uma camisa solta azul escuro. Parecia deslumbrado com o que via.
- Bom começarmos o dia apreciando tamanha beleza. – Cortou ele o silêncio do salão, deixando claro que havia percebido a minha entrada, ou melhor, demonstrando sua atenção aguçada de um bom repórter investigativo. – Bom dia. – Voltando-se a mim.
- Bom dia. – Respondi meio desconcertada. – Pensei encontrar papai aqui.
- Estava aqui há pouco. Recebeu um telefonema, saiu para atender. – Uma pausa. - É um lugar impressionante. – Declarou, correndo a vista por quase todo o espaço.
- É. Pensado em detalhes por papai.
- Um ambiente digno de um grande museu.
- Talvez seja uma forma de reconhecimento a esta grande paixão que ele tem.
- Um colecionador de espadas. Não poderia imaginar. Para muitas pessoas chegaria como pura ostentação. – Completou, fitando um imenso vitral que montava a imagem do Arcanjo Miguel ao centro, trazendo um estilo gótico à arquitetura moderna do salão.
- Uma crítica?
- Um ângulo diferente de percepção.
Aquele ambiente reunia muitos milhões de dólares, uma fortuna incalculável, segundo papai. Por isso fora arquitetado um sistema de segurança especial equipado com câmeras de alta sensibilidade, alarmes, fechaduras eletrônicas e blindagem de portas e paredes. Se Tancredo fosse um crítico socialista tanto dinheiro investido num hobby seria uma violência aos seus princípios ideológicos.
- E para você, como chega? – Não perderia a oportunidade de saber.
- Diria que Leonardo Gondim tem uma sensibilidade rebuscada para o belo. – Oportuna saída, sem se comprometer. – Reunindo bom gosto, mania e dinheiro, temos uma sala do Louvre no sótão de nossa casa.
- Para alguns povos a espada simboliza o poder.
- Certamente para Leonardo Gondim também. – Senti certa aspereza em seu tom.
- O que quer dizer? – Parecia organizar sempre um subtexto por trás de tudo o que preferia.
- Seu pai disse-me exatamente isso logo que entramos aqui. – Boas saídas. – E você, o que acha? Como enxerga o “acervo” de seu pai? – ressaltou a palavra acervo, com um tom que se confundia entre brincadeira e ironia. O que e deixou intrigada. Tancredo Flores parecia apreciar a coleção de papai e ao mesmo tempo questionar a sua iniciava, como se fizesse uma leitura negativa de todo aquele universo revelado na aquisição de cada peça.
- Papai é realmente um homem excêntrico. – Procurei naturalizar. – Não é uma pessoa de muitas paixões.
- Para sua sorte vive a qualidade naquilo que sente. – Mais uma colocação duvidosa. Não sabia se era um elogio ou uma crítica. Voltou-se para a peça que apreciava quando entrei. – Veja essa aqui, por exemplo. Disse-me tratar-se da espada de Alexandre, o grande. Você acredita?
- Ele a arrematou num leilão na França. Não sabemos ao certo de sua procedência. Mas foi vendida como tal.
- Talvez tenha pago pelo mistério.
- O valor é sempre abstrato. Trata-se de um reconhecimento daquilo que acreditamos. O que torna as coisas, as situações mágicas.
- Como este momento?
O que queria dizer com aquilo? Falava de estar ali diante da beleza de tantas peças, ou por estar comigo naquele diálogo perceptivo? Cada palavra proferida escondia um significado não dito, como se me perscrutasse.
- Como todos os momentos em que estejamos realmente presentes, vivendo o convite do instante.
- “Esta é a mágica diária que proporciona à nossa vida muito mais sentido.” – Reproduziu uma frase minha de meu livro Entre o Amor e as Drogas. O que me fez corar.
- Mas o que o traz aqui tão cedo? – Desconversei, procurando me refazer.
- Uma reunião com Leonardo sobre um novo projeto. Ele insiste que eu comande um programa só meu.
- Algum problema?
- Não diria problema. Mas temo qualquer coisa que amarre o meu movimento, que limite a minha atuação de alguma forma.
- Seria interessante para a emissora imprimir a identidade de Tancredo Flores num programa investigativo. Os telespectadores adorariam.
- Você, gostaria? – Sua abordagem direta traduzia um estilo próprio de fazer jornalismo que o deixara famoso.
- Sim, gostaria. – Resolvi imprimir o mesmo estilo em minha fala.
- Isso é significativo.
- E por quê?
Ele sorriu.
- Ouvir a opinião sem rodeios de um telespectador.
Poderíamos conversar durante horas. Um papo inteligente e instigante. Trocamos idéias até a volta de papai. E antes de deixá-los, marcamos um café. Um café? Quase nunca saía de casa desde o acidente. E Tancredo não precisou insistir muito. Pouco depois do natal, ele passou para me pegar certa tarde. Precisei tolerar as brincadeiras e insinuações de Dulce acerca daquele encontro. A primeira vez em que era convidada para sair com um amigo depois de seis anos. O que me proporcionou novos ânimos.
As conversas fluíam naturalmente, uma coisa puxava outra. Falávamos de tudo. Ele havia percorrido o mundo e partilhava sobre suas viagens e algumas dificuldades e perigos enfrentados em seu trabalho. Realmente era perigoso ser um repórter investigativo, estar exposto a ambientes ilegais, a situações desafiadoras permanentemente, denunciar uma realidade paralela e adversa à sociedade, bem como seus autores, fazendo-os conhecer pelo mundo. Experimentava o perigo bem de perto e parecia alimentar-se daquela sensação.
“Minha missão é descobrir um universo desconhecido e levá-lo ao conhecimento do mundo.”
Dizia ele, triunfante, como a fala de um herói.
Senti vontade de escrever a respeito, de conhecer mais daquele universo, do que motivava aquele homem a enfrentar o perigo permanentemente, e criar acerca de uma realidade por mim ainda desconhecida. E antes que fosse embora, consegui a promessa de Tancredo Flores de me ajudar em meu intento e servir de inspiração. Seria ainda uma pesquisa, que futuramente se transformaria, com certeza, em história.
Tancredo e eu passamos a nos encontrar frequentemente. A idéia era que ele partilhasse de suas aventuras, de sentimentos relacionados aos casos por ele desvendados, de intenções e experiências vividas em seus quinze anos de profissão-perigo. Inicialmente, ele mesmo se fazia presente em nossa casa, onde ficávamos horas no jardim, recordando os casos, as pessoas. Depois teve a idéia de sairmos dali. E com certa resistência, acabei por aceitar o desafio de utilizarmos outros lugares como cenário de nossas entrevistas. A casa de praia de Pedro Lucena, no Porto das Dunas, nos acolheu por umas duas vezes, bem como a propriedade de papai, na Serra de Guaramiranga, lugar onde quase nunca visitávamos. Outra vez, fomos a um complexo, no Morro Branco, uma proposta em estilo indígena. Um lugar lindo, com uma praia maravilhosa.
A cada encontro com Tancredo Flores, sentia-me mais viva, com ainda mais vontade de vencer as sessões de fisioterapia e não mais depender de ninguém. O que resultou em muitos progressos em meu tratamento. Aos poucos, conseguia me movimentar e falar com maior desenvoltura. Mais do que nunca desejava estar bem, recuperar-me totalmente, e ele, certamente, estava tendo uma grande parcela de contribuição naquele processo.
Vencia a mim mesma, embora o encontro com Pedro Lucena e papai naquele final de 2009, tão importante à minha recuperação, como eu mesma o considerava, tenha sido uma grande surpresa.  



CAPÍTULO 05



 Minha vida seria definida naquela conversa com papai e Pedro Lucena. No início de dezembro o vice-presidente da RTN já havia partilhado seu pensamento acerca do futuro da série Tente Outra Vez. A ideia era de finalizarmos o programa após três anos de sucesso para não cansarmos a fórmula. E Pedro gostava sempre de novas empreitadas, novos desafios.
Reunimo-nos na varanda de nossa casa, num café da manhã. Aproveitamos um momento em que minha irmã não estive presente. Maria Eugênia sempre fora contra o meu trabalho como autora da série, como era contra a minha presença em sua vida. Deste modo, não seria bom a sua participação naquele momento.
Papai preferiu que Pedro iniciasse o assunto.
- Celina, você sabe que a televisão é rápida, é dinâmica. – Afirmou tomando um gole de café. – Nós precisamos pensar em inovações o tempo inteiro.
- Tudo pela audiência. – Completei de modo inflamado.
- Também. – Respondeu Pedro tranquilamente. – A concorrência é grande, e você sabe disso. Não é fácil nos mantermos entre as primeiras colocadas em audiência, Celina. Principalmente por não fazermos parte do eixo Rio-São Paulo, como todas as outras grandes emissoras. Seu pai construiu um império de comunicações aqui em Fortaleza, por mais que a maioria de nossos programas seja produzida em nossos estúdios no Rio e em São Paulo, o mercado publicitário ainda dispensa à Rede de Televisão Nacional, por ser um canal cearense, muito preconceito. E hoje a nossa marca maior é a inovação, uma forma de driblarmos esse preconceito.
- Uma marca consolidada por Pedro Lucena depois que assumiu a vice-presidência da RTN. – Complementou papai. Ele tinha uma profunda admiração por seu trabalho. O que me levava a imaginar que seria difícil aquela conversa.
- Vamos então ao que interessa. – Procurei adiantar. – Tente Outra Vez não estará na programação 2010 da RTN, correto? – Segurei firme para não chorar.
- Exatamente. – Foi Pedro Lucena quem respondeu, simples assim. Era a minha vida que estava em jogo, não a dele.
- Nós temos outros planos para você, querida. – Papai tentou cuidar de mim, percebendo a frustração em meu olhar.
- Nada mais me interessa. – Fui categórica. Lembrei de Maria Eugênia e o quanto ela tentara acabar com a minha felicidade, com a minha vida em todos os anos em que convivemos, desde a morte de minha mãe e que fui morar com eles. Ela tudo fizera para impedir que eu assumisse a chefia da equipe de redatores da série, e depois do programa permanecer o ar. Naquele momento Pedro e papai fariam exatamente o que minha irmã tanto desejara.
- Nós precisamos muito de você, Celina. – Colocou Pedro, desconsiderando minha negativa.
- A série vinha dando sentido à minha vida, Pedro. Tratar da deficiência, da dor de nossa condição, da visão das pessoas a nosso respeito, do preconceito e de como isto chega até nós, trouxe-me de volta,você melhor do que ninguém sabe do que estou falando. E muito me admira. Mas isso não conta, não é? O que conta é o mercado, é a audiência. – Falei aquilo olhando para o meu pai. Achei que ali estava presente apenas Leonardo Vieira Gondim, o grande e poderoso empresário cearense, e não a figura simples de meu pai.
- Ouça o que Pedro tem a lhe dizer, querida. – Pediu ele, com um olhar de ternura, pousando a xícara de café no pires.  
- Não necessito de pormenores. Pra mim já está de bom tamanho. – As lágrimas já não podiam mais ser contidas. Enxuguei meu rosto e procurei levantar, mesmo que ainda com dificuldade.
- Precisamos de uma boa escritora para assinar a próxima novela da RTN que já inicia em maio próximo. Você é esta pessoa, Celina. – Disparou Pedro, antes que eu desse as costas.
Maio? Novela?
- Como? – Não acreditei no que ouvi. Cuidar de um capítulo semanal era diferente de dar conta de seis semanais. O horário de novelas era o principal programa da emissora, responsável pela maior audiência diária, além de ser um investimento milionário. Se fosse um fracasso poria em risco a própria empresa como um todo.
- Isso mesmo que você ouviu, Celina. – Retificou o vice-presidente da RTN. Tenho uma ideia de história e quero que você a escreva, torne-a real.
Voltei meu olhar para papai, procurando compreender se ele estava de comum acordo. Seria muita responsabilidade. Há quase dez anos eu havia escrito uma novela, mas naquela época a expectativa de audiência não era tão grande. Não me sentia competente o suficiente para assumir tamanha responsabilidade. Significava pelo menos doze horas de trabalho diário.
- Por isso nós queremos que você encerre a série Tente Outra Vez agora. Os planos que temos para você são bem maiores. Até porque o recado que nós queríamos passar com este seriado já foi dado.
- Não precisamos ficar batendo na mesma tecla, Celina. Existem outras formas.
Bem a cara de Pedro Lucena realmente, querendo descobrir novos caminhos, investir em novas empreitadas, fazer coisas diferentes. E papai o apoiando em tudo, como de costume. Mas daquela vez eu achava que eles passavam dos limites. Estavam em questão mais de cinquenta milhões de reais só em relação à produção da novela, fora o complexo jogo publicitário, que punha em cheque o futura de toda a emissora. Uma novela movimentava na RTN algo em torno de trezentos milhões de reais, um valor que se aproxima da própria dívida da empresa, ameaça permanente à existência da rede de televisão cearense.
- Vocês estão loucos? – Parecia uma brincadeira.
- Por ser louco eu sou hoje um dos maiores empresários deste país. Pra mim não bastou o Ceará, querida. – Explicou papai orgulhoso. – Você não pode ficar presa para o resto de sua vida a um único trabalho.
- Existe aí muito talento, Celina. Nós não podemos suprimi-lo. – Completou Pedro.
- É muita responsabilidade. – Tentei explicar, voltando a me sentar.
- Por isso é você e não outra pessoa. – Replicou o meu amigo.
- Há muita profundidade no seu texto, querida. – Declarou papai, segurando minha mão. – Claro que há mais tempo para escrever um capítulo semanal, tendo ainda a colaboração de outros autores.
- Mesmo num texto diário eu tenho certeza que você trará esta profundidade, agregada de sua sensibilidade. – Pedro complementou.
- E você pode trabalhar com quem quiser. Inclusive se desejar permanecer com sua equipe atual de escritores, tem total autonomia e apoio do departamento de teledramaturgia da RTN. Trabalhe com quem você quiser.
- Sinceramente, eu não sei onde vocês estão com a cabeça. Eu não tenho condições.
- Você sempre ressaltou a minha ousadia, não irresponsabilidade. – Pedro ainda brincou. – Inclinou-se para mim, fitando meus olhos, trazendo o mesmo sorriso entusiástico de sempre. Eu estou cheio de ideias, Celina. E preciso de uma pessoa que agregue a sua sensibilidade e profundidade ao mesmo tempo para torná-las reais, entende?
- Não vejo outro nome que não Celina Gondim. – Disparou papai, com largo sorriso.
- E do que se trata? – Finalmente perguntei.
Pedro abriu o sorriso, sentindo-se quase vitorioso.
- Pensei que não perguntaria. – Revelou ele.
- É algo completamente novo. – Papai adiantou.
Aquela conversa me trouxe realmente muitas surpresas, tanto que esqueci momentaneamente a extinção do seriado. Há poucos anos eu não passava de uma ex-escritora, condenada à morte de sua expressão numa cadeira de rodas, pela difícil condição imposta pelo destino de tetraplégica, uma ex-drogada que levou família e amigos ao sofrimento durante anos. E de repente, depois de voltar a andar, recuperando a maior parte de meus movimentos, mesmo que ainda com dor e dificuldade, tinha a chance de reconstruir a minha vida, recebendo a maior prova de confiança que meu pai e Pedro Lucena poderiam me dar. O futuro da própria RTN estava completamente em jogo. A dívida que ultrapassava os setecentos milhões de reais, constituída ao longo dos anos por conta da política de crescimento utilizada pela empresa, a fim de transformar um canal local numa grande rede de televisão nacional, ameaçando a audiência dos maiores canais do eixo Rio-São Paulo, impossibilitava a emissora de se aventurar em projetos de riscos. Nada poderia dar errado, o que representava uma perigosa gangorra entre a manutenção e a falência do império televisivo cearense.
Nunca um empresário de Fortaleza fora tão ousado quanto papai. Leonardo Vieira Gondim era reconhecido em todo o país como um visionário, quebrando a regra das grandes redes de televisão serem sediadas na região Sudeste. Iniciara a RTN há treze anos, depois de vender a sua parte na WM, uma das maiores agências de publicidade do Nordeste, que havia sido constituída vinte anos antes em sociedade com o famoso publicitário brasileiro Willames Macena, que viria a ser seu genro, casando com Maria Eugênia, anos mais tarde. A rede cearense levava seu primeiro programa ao ar em maio de 1996, na época com apenas quatro canais próprios em Recife, Salvador, Belo Horizonte e São Paulo, e mais quatro emissora afiliadas no Rio de Janeiro, Curitiba, Vitória e Belém do Pará. Assim, nascia a Rede de Televisão Nacional, levando a todo o território brasileiro uma programação genuinamente nordestina.
A ambição levou papai a conseguir inúmeras injeções financeiras de bancos e do Governo, transformando a RTN aos poucos numa emissora de programação nacional. Inúmeros profissionais de renome passaram a ser contratados a peso de ouro, vindos de grandes emissoras concorrentes, como apresentadores, jornalistas, até a constituição do departamento de teledramaturgia e a inauguração do horário de vinte e três horas como o seu horário fixo de novelas, produzindo grandes sucessos que alavancou a audiência do canal cearense para os primeiros lugares, proporcionando respeito e reconhecimento no mercado publicitário nacional.
A dívida da RTN era para mim desconhecida até o momento em que estava prestes a iniciar o trabalho no seriado. Maria Eugênia trouxe-me todas as informações em detalhes como meio de me convencer a desistir da empreitada, a fim de não por em risco o projeto grandioso de papai. Segundo ela, a série era uma proposta de risco e poderia representar o fracasso da emissora junto ao mercado publicitário. Evidentemente que minha irmã desejava me ver fora de seu território, sua empresa, como ela mesma a chamava, nunca aceitara a minha presença e de minha mãe na vida de nosso pai, e tudo fazia para destruir a minha vida. Como a vez em que a flagrei partilhando com sua fiel secretária o intuito de transformar o que restara de minha vida num inferno até resultar em meu suicídio.
Revelar-me o segredo de papai, até então escondido também da mídia, era uma forma de Maria Eugênia Gondim garantir a minha distância de seu caminho. E por pouco não caí em seu jogo manipulador, desistindo do retorno ao universo profissional e de minha própria recuperação física.
Novamente eu me via numa situação de complexa escolha. Por mais que papai, com sua enorme experiência empresarial e filem televisivo, e o próprio Pedro Lucena munido de uma capacidade inovadora impressionante e sensatez profissional sem limites, depositassem confiança e admiração em meu trabalho, eu temia a empreitada e o risco de um fracasso, comprometendo a existência de tudo o que fora construído por meu pai com tanto esforço.
Pedro e papai esperavam uma resposta logo após o réveillon de 2010. Parecia ter acontecido um grave problema na produção da novela prevista a estrear em maio daquele ano, e uma nova proposta precisaria ser implementada a tempo, substituindo meses de trabalho já desenvolvido. A ideia original do vice-presidente da RTN teria este papel, e eu seria a sua autora, segundo ele.
Preferi, no entanto, que aquele convite não tivesse sido feito a mim, assim não me sentiria responsável por nada, nem por um possível fracasso da empreitada. Desejei apenas continuar com a série Tente Outra Vez, um projeto já conhecido e consagrado na programação do horário nobre na emissora, sem muito dele depender o futuro da empresa de meu pai.
Teria eu condições de me lançar na aventura ao lado de Pedro Lucena e assinar sozinha a nova novela da RTN? Aquele seria um início de ano diferente, desafiador.




CAPÍTULO 06



Muita coisa nova acontecia em minha vida naquele ano de 2010. Depois de tanto tempo reclusa na mansão de nossa família, sem contato nenhum com amigos, limitada a uma cadeira de rodas, começava a construir uma nova amizade. O jornalista Tancredo Flores se mostrava interessado em escrever um livro sobre suas aventuras como repórter investigativo e havia me convidado a ajudá-lo nesta empreitada. Ele queria transforma o projeto num romance e por isso acreditava que eu podia contribuir com minha experiência. Na verdade, apenas eu não acreditava. Era como se a vida me empurrasse o tempo inteiro para expressão plena de minha arte e eu insistisse em duvidar de meu contato com esse universo mágico da criação. Tolice a minha!
Tancredo e eu passamos a realizar diversos encontros em que falávamos de suas viagens, pesquisas, investigações e perigos enfrentados na reportagens. Aos poucos íamos compondo o personagem principal da história, inspirado em sua personalidade, mas com características diferentes naquilo que ele desejava transformar em sua vida. Dizia ele estar curando suas dores, transformando seus defeitos através do herói de nossa trama.
Tancredo e eu passávamos horas conversando, viajando nas nuanças de suas experiências e personificando o repórter de seu livro, a obra que ele dizia ser nossa. Ríamos muito juntos, pensando os detalhes da história, criando um roteiro. E a cada encontro, eu sabia mais daquele homem, ia conhecendo suas preferências, suas posições ideológicas, entrando em contato com sua intimidade. Uma personalidade firme, totalmente destemido do perigo, capaz de arriscar a própria vida para tornar conhecida a verdade.
“A verdade pode ajudar as pessoas. Isso não tem preço. É isso que me move!”
Tancredo falava aquilo de uma forma tão envolvida que me encantava. Como se fosse ele um missionário.
- Por que você nunca casou?
Ele calou diante de minha pergunta, parou um pouco e respirou fundo.
- A gente precisa responder isso para compor esse personagem? – Procurou saber com um tom sério. O que me deixou meio embaraçada. Será que eu havia perguntado realmente por conta do livro? Tancredo era um homem tão interessante, bonito, inteligente, um profissional de sucesso, e além de tudo parecia sensível. Como não tinha ninguém?
- Acredito que esse personagem deva ter uma vida afetiva. – Insisti, focando em nosso trabalho. Não queria que ele percebesse minha curiosidade pessoal. Bobagem, um investigador como ele, na certa já havia se dado conta.
Estávamos em meu escritório, lugar em que criei a maioria de minhas histórias. Aqueles paredes guardavam muitas aventuras fictícias. Tancredo tomou um gole de café, pôs a xícara de volta no pires, e se levantou da mesa. Foi até a janela que dava para o jardim de nossa casa. Dali, se olhássemos um pouco acima, podíamos ver um parte pequena do mar da Praia do Futuro. Aquela janela me inspirava.
- Há alguns anos eu conheci uma mulher com quem pensei em passar o resto da vinha vida. Ela fazia parte de uma reportagem. Nós nos apaixonamos loucamente. Mas um tempo depois eu descobri que ela havia sido o grande amor da vida de um amigo meu.
Houve um pouco de silêncio, como se relembrasse a história.
- E o que aconteceu? – Antecipei-me para que não desistisse de continuar.
- Não tinha como prosseguir. – Voltou-se a mim. – Eu sabia do quanto ela havia sido importante para esse amigo. Não era possível dar continuidade àquele romance.
- Você terminou com ela por causa do seu amigo?
- Celina, amizade é uma das coisas mais sagradas que existem para mim. – Aproximou-se novamente, fitando-me bem os olhos. – Os romances vêm e vão, as paixões incendeiam a nossa alma e se apagam, a amizade sempre permanece. Pode passar o tempo que passar, mas ela sempre vai estar ali.
- Por causa dela você nunca se casou com ninguém?
- Da amizade?
- Não. – Sorrimos. – Falo da mulher que foi o grande amor desse seu amigo. Foi por causa dela que você nunca se casou?
- Não, da amizade.
- Como assim?
Ele sentou-se, tomando novamente a xícara de café.
- Depois dela digamos que eu tenha conhecido algumas pessoas especiais.
- E...
- Exatamente por serem pessoas especiais eu não quero perder aquela magia como comumente acontece com todos os relacionamentos amorosos. Então eu prefiro ressignificar.
- Como assim, ressignificar?
- Prefiro transformar logo em amizade, que para mim é sagrado.
Eu estava entendendo bem?
- Tancredo, eu acho que não compreendendo. Você termina todos os seus relacionamentos com medo que acabem, é isso?
Ele sorriu.
- Não é bem assim. Digamos que é para não nos perdermos um do outro. Como eu falei, amizade é sagrado, para sempre. Assim, eu tenho essas pessoas especiais para sempre em minha vida, compreende?
- Mas desta forma você nunca vai encontrar ninguém com quem possa dividir uma vida em comum.
- Pelo contrário, hoje tenho muitas pessoas especiais em minha vida.
- Mas como amigas somente.
- O que é sublime.
- E você não sente falta?
- Às vezes sim, mas acabei me habituando. Então hoje qualquer relação em que eu perceba que começa a ultrapassar a fronteira da amizade, eu prefiro não prosseguir. Assim, evitamos futuros desgastes e sofrimentos.
- Então você não se permite amar?
- Claro que sim. Mas não desta forma.
- É como se você fosse um celibatário!
- Não é bem assim. Isso não inclui sexo. 
Então sexo pode, sem compromisso. Estava completamente chocada. A única coisa que não me encantou em Tancredo Flores. Na verdade, que havia me desencantado. De longe todo mundo é normal, já dizia a minha enfermeira Dulce. E eu que pensava que detinha as maiores patologias!
Era uma forma de Tancredo perpetuar as relações, por medo de perder aquelas pessoas às quais considerava especiais em sua vida. Por isso transformava todas as suas histórias amorosas em amizade. O que me deixou com um estranho sentimento de decepção. Ele parecia perfeito, o homem que toda mulher gostaria de ter. O homem que eu gostaria de ter? Talvez sim. Vinha me empolgando em nossos encontros, encantando-me com seu charme. Naturalmente galanteador e cuidadoso, Tancredo sabia como agradar uma mulher, e trazia sempre uma certa magia em nossos momentos de criação. Mas era apenas amizade! Amizade? Senti-me uma tola por me abalar com aquela descoberta. Aquilo apenas comprovava que o personagem Tancredo Flores, o famoso repórter investigativo conhecido em todo o país, era uma pessoa normal, com medos e inseguranças como qualquer um de nós.
Ora, se eu tinha dificuldade de me desapegar das coisas, das pessoas, do que eu criava, como dizia Pedro Lucena, Tancredo Flores então escolhia a solidão a ter que enfrentar a verdade de um relacionamento amoroso, na tentativa de garantir a presença permanente de todas as pessoas por quem se envolvia em sua vida.
Por que a minha decepção afinal? Em alguns momentos, achava que Tancredo desejava estar comigo não apenas pelo livro, mas por minha companhia, assim como eu sentia a seu respeito. Naquele momento eu percebia que não. Bom, mas uma coisa não negava a outra. Podia ele desejar sim mais que falar sobre trabalho, querer verdadeiramente a minha amizade, o que vinha se construindo sim aos poucos. Mas não era o suficiente. Por alguns instantes, desejei que fosse mais que amizade o seu interesse por mim. E por que não? Se ele mesmo afirmara diversas vezes que eu era interessante, poderia sim envolver-se, desejar-me como mulher. Bom, mas depois daquela revelação, era claro que não, que Tancredo não me desejava como mulher, apenas como amiga. Não que eu o desejasse, mas era bom pensar que ele poderia estar interessado em mim.
Cheguei a chorar diante do espelho de meu quarto, lembrando de inúmeras vezes em que me arrumei mais que o habitual para recebê-lo. Tudo fantasia. Maria Eugênia tinha toda razão, como uma aleijada podia chamar a atenção de um homem tão bonito? Certamente muitas mulheres interessantes e belas despertavam o desejo de Tancredo Flores, não uma pessoa que ainda falava e andava com dificuldade, uma ex-cadeirante como eu, afirmou-me ela, como fazia costumeiramente ao me ver feliz. Mas daquela vez minha irmã estava coberta de razão.

Como fui idiota! Se ainda dispusesse de minha casa dos anjos pediria para sumir. 



CAPÍTULO 07



Preferi evitar os últimos encontros marcados com Tancredo Flores para trabalharmos no livro que ele escrevia acerca de suas aventuras como repórter investigativo. Liguei inventando algum contra tempo, assim não confundiria mais a nova amizade ou relação profissional com qualquer possibilidade de romance. Talvez minha carência tenha me feito fantasiar a seu respeito, que ele pudesse estar interessado em mim. Ilusão boba de uma pessoa que há muito não se envolvia com alguém. Para ele não passava de uma nova amiga.
Restava-me a dedicação completa ao novo e ousado projeto da RTN, por insistência de papai e seu mentor Pedro Lucena. Trabalhava noite e dia na sinopse da novela idealizada pelo vive-presidente da emissora, a fim de apresentar a proposta em pouco mais de uma semana. Tínhamos o tempo resumido pela estreia da produção marcada inicialmente para maio, adiada para junho a muito custo, depois de conseguirem esticar em vinte quatro capítulos a novela atual. O que se configurava num grande risco à RTN, tendo em vista o valor milionário do trabalho.
Maria Eugênia tudo fizera para me impedir de estar à frente da empreitada, assim como na época da série Tente Outra Vez. Para ela, novamente eu invadia seu espaço e punha em risco seu patrimônio. Mobilizando diversas reuniões com a diretoria da emissora, apoiada pelo ex-marido e diretor comercial da empresa Donato Pessoa, numa guerra declarada contra mim. Defendia a contratação de um grande nome como autor da novela, o que, segundo ela, traria mais vantagens e garantiria uma boa fatia do mercado publicitário para o trabalho. Pedro por sua vez era contundente, e apostava em meu nome trazendo a profundidade e delicadeza que a história exigia.
Certamente a confiança de papai no tino profissional de Pedro Lucena o fizera comprar essa briga a meu favor e decidir arbitrariamente por mim como autora responsável pela super produção que sua rede de televisão implementaria a partir daquele momento.
Em meados de fevereiro entreguei a proposta ao vice-presidente da RTN. Pedro lia atentamente cada uma das laudas. Em seu rosto, nenhuma expressão que denotasse o que estava achando, o que me deixou ainda mais nervosa. Se não fosse o que ele esperava? Dispúnhamos de pouco tempo para mudarmos qualquer coisa que fosse. Desde quando havia aceitado o desafio do meu velho amigo no início do ano, sabia que era acertar ou acertar. Não existia alternativas, pelas circunstâncias da produção.
Caso o projeto não estivesse dentro do que Pedro esperava, significava a contratação de mais autores urgentemente, o que de certa forma representava o meu fracasso em atender a confiança depositada em mim por ele e papai. Mordia os lábios de tão nervosa, aguardando qualquer reação ou comentário do criador daquela ideia.
- Perfeito!
Ouvi bem aquilo?
- O que você disse, Pedro?
- Perfeito. – Repetiu o vice-presidente da RTN.
- Perfeito o quê? – Era como se não compreendesse.
- O seu trabalho é perfeito, Celina. É exatamente o que eu queria. – Confirmou de forma categórica, sorrindo, já celebrando o meu feito.
- Você está me dizendo que gostou? – Não conseguia acreditar.
- Claro. – Passou as mãos pelos cabelos. – Não poderia ser outra pessoa, Celina.
Tive vontade de chorar. Eu mesma não acreditava que fosse possível. Sonhei diversas vezes naquelas semanas que Pedro reprovaria a sinopse e contrataria novos autores para o trabalho. Recordei-me dos anos em que fiquei presa à cadeira de rodas, totalmente refém da condição de tetraplégica, desacreditada do mundo, da possibilidade de criar, de me considerar viva novamente. E de repente, transformava-me novamente na escritora Celina Gondim, primeiro com a série Tente Outra Vez, e agora retornando às novelas.
- Então posso começar a escrever?
- Deve, hoje mesmo. Não vejo a hora de estar com as laudas do primeiro capítulo em mãos. – Aproximou-se de mim, fitando meus olhos. – Celina Gondim, nós produziremos o maior sucesso da RTN de todos os tempos.
E rimos juntos.
AMAZONA
Era o título provisório da trama. Uma história idealizada por Pedro Lucena que trazia como pano de fundo as lendas da Amazônia, além das riquezas da flora e fauna da maior floresta do mundo. Ambientada nas mais belas paisagens de nosso país. Beleza, paixão e poder seriam os temperos de minha mais nova obra.
A novela contaria a historia de Sara Mourão, a jovem filha de um garimpeiro, que depois da morte do pai, viaja em busca das terras roubadas de sua família por um rico fazendeiro, no meio da Floresta Amazônica. Ela só não contava em se apaixonar por seu maior inimigo e ainda despertar o amor de seu filho, vindo de Manaus, formando o principal triângulo amoroso da trama. Moça valente que acaba liderando um grupo, na luta contra a arrogância e o poder do homem por quem está completamente apaixonada, transformando-se numa grande heroína. E ainda lendas como a da cobra grande e do boto certamente trariam um charme todo especial à história, que levaria como título o apelido dado à heroína pelo jovem protagonista, apaixonado por mitologia grega.
Sessenta personagens constituiriam a mais nova empreitada do canal de televisão cearense para o horário das vinte e duas e quarenta e cinco. Restava-nos a definição do elenco e demais profissionais da equipe. O que já aconteceria nas semanas seguintes.
A minha nova parceria com Pedro Lucena estava oficialmente firmada! 




CAPÍTULO 08



Evitei os encontros com Tancredo Flores o quanto pude. Mas não tinha mais o que inventar, como justificar tantos adiamentos. Vinha alegando ultimamente o trabalho com a nova novela. Ele, no entanto, insistia.
Creio que já havia passado mais de um mês depois de nosso último encontro, até me deparar com sua presença na sala de nossa casa. Tancredo estava de costas, olhando um belo quadro que Maria Eugênia havia trazido da Europa.
- O que faz aqui? – Estava surpresa.
- Eu também estava com saudades. – Respondeu, voltando-se a mim, sorridente.
Senti sim muita falta de nossas conversas, de sua presença, daquele sorriso.
- Desculpe-me, tenho andado bastante ocupada.
- Compreendo, mas tenho sentido saudade. – Abraçou-me espontaneamente. E foi tão bom senti-lo perto, por mais que estivesse desconsertada.
- Ah, só para você saber. Jamais viria sem avisar. – Explicou.
- Como assim?
- Estou aqui esperando o Leonardo.
Como fui tola, pensei realmente que ele tivesse ali por minha causa.
- Certamente que sim. E ele, onde está?
- Numa ligação no escritório, já íamos sair.
- E o livro, como anda?
- Creio que bem adiantado, embora ainda esperando por sua ajuda.
- Tancredo, é que realmente a novela tem me exigido tempo integral. Tem sido quase dezesseis horas de trabalho por dia.
- Você não tem uma equipe de co-autores?
- Sim, claro. Hoje não conseguimos mais escrever sozinhos, é tudo muito rápido.
- E por que tem trabalhado tanto?
- Estava ainda enferrujada. Na verdade, estou me adaptando à nova realidade. Antes, tínhamos um capítulo semanal para entregar, agora são sei, de quase quarenta laudas cada um. É muita coisa, sabe?
- Compreendo. Então agora não teremos nossos encontros tão cedo, não é?
- Pois é. Acho que não.
E como eu lamentava aquilo. Não que eu não pudesse realmente, mas precisava ser daquela forma. Estava muito envolvida, ele certamente não.
- E quanto a nós? – Perguntou abrindo o sorrindo.
O que queria dizer com aquilo? Ou melhor, o que desejava de mim?
- Como assim, “quanto a nós”, Tancredo?
- Nossa amizade.
Amizade!
- Ah, sei.
- Não seremos mais amigos?
- Claro que seremos. – Desejei falar a verdade, partilhar os meus sentimentos. Mas como ele mesmo havia me dito, jamais trocaria uma amizade por relacionamento amoroso. Tolice a minha. – Apenas estou dedicada a este trabalho.
- Precisa se cuidar, Celina. Desse modo, acaba pegando uma estafa.
- Na verdade, eu precisava disso.
- Mesmo assim insisto em tomarmos um café qualquer dia desses.
- Um café? Claro. Por que não?
- Pois é, por que não? – Era como se quisesse me falar mais alguma coisa. – Podia ser amanhã, por exemplo.
- Amanhã eu não posso.
- Depois de amanhã.
- Tancredo, acho que esta semana não tenho como.
- Nossa, agora sim estou me sentindo realmente diante da famosa escritora Celina Gondim, extremamente ocupada, sem tempo para os amigos.
Nada, queria apenas me proteger.
- Estou apenas me resguardando.
- Como?
Não acredito que falei!
- Quis dizer que não posso me comprometer com nada, pelo menos agora. – Tentei consertar.
- Podia jurar que você disse que estava se protegendo de mim. – Instinto de repórter.
- Não, nada disso. – Sorri, desconsertada. – Proteger-me de que, não é verdade?
Proteger-me dos meus sentimentos a seu respeito, do meu envolvimento, do seu charme, do desejo contido de ultrapassarmos a linha da amizade.
- Celina, os nossos encontros estavam sendo muito importantes para mim.
- Para mim também, aprendi muito com você e suas histórias.
- Não apenas pelo livro, mas por sua companhia, por ser uma pessoa encantadora.
Gelei ao ouvir aquilo. Será que aquela declaração não fazia parte de uma de minhas fantasias? Tancredo havia falado aquilo mesmo?
- Desculpe, não entendi. – Precisa confirmar.
- Falo da importância de nossos encontros. – Aproximou-se. – Eu preciso lhe confessar uma coisa, Celina. – Ele agora se mostrava meio intimidado.
- O quê?
- Sobre nós. – Meu Deus, o que ele queria dizer? – Nem sei como falar sobre isso. Mas acho importante para a nossa amizade.
- Do que você está falando, Tancredo?
- Do que eu vinha sentindo em nossos encontros.
Será que eu estava errado a seu respeito, que ele sentia o mesmo que eu?
- E o que você vinha sentindo?
- Talvez eu estivesse confundindo as coisas.
- Como assim, confundindo as coisas, Tancredo?
- O que estava acontecendo entre nós ou dentro de mim, não sei.
- Juro que não estou compreendendo.
- É que estou com medo de falar e estragar nossa amizade, de você achar que eu vinha agindo de má fé, coisa assim.
- Por favor, fale.
- Eu vinha meio que confundindo os sentimentos por você. Pronto falei. – Parecia aliviado pelo desabafo. E eu completamente chocada, com as mãos trêmulas, o coração acelerado. Imaginava o quanto fora difícil para ele revelar aquilo, e o medo de perder nossa amizade, o que para Tancredo era sagrado.
- Pode explicar melhor? – Quase não consegui falar de tão nervosa.
Tancredo caminhou um pouco pela sala, baixava a cabeça como se tomasse coragem, e sorria, meio desconsertado.
- É difícil falar de sentimentos.
- Mas precisamos, não acha?
- Tem razão. Isso é uma das coisas que eu mais admiro em você, em seus textos. Você não apenas fala de sentimentos, mas os expressa claramente e de um modo tão simples e bonito. Tudo fica cheio de vida, quando você fala, Celina.
Senti-me tão feliz por ouvir aquilo.
- E sobre os seus sentimentos? – Insisti.
- Eu estou a...
- Desculpe-me, Tancredo, foi uma ligação urgente. – Papai nos interrompeu, saindo do escritório. – Olá, filha. Bom dia, querida.
Olhamos um para o outro, lamentando a interrupção. Tudo poderia ser esclarecido naquele momento. Finalmente Tancredo se abriria, falaria de seus sentimentos. Desejei que papai não nos tivesse interrompido. Quando retornaríamos àquele assunto? À tarde eu viajaria a São Paulo, para uma reunião com a equipe de produção da novela, onde ficaria por alguns dias, o que me impediria de nos vermos logo. Tentei então ligar para ele diversas vezes antes do vôo, tendo todas as chamadas encaminhadas à caixa de mensagem. E depois, nenhuma ligação, nada de retorno, sem explicações. Compreendi o silêncio.

Precisava esquecer, tirar aquela história da minha cabeça, voltar-me totalmente à produção da novela. E foi o que fiz, conheci na manhã seguinte toda a equipe escalada para o trabalho. Parte dos profissionais vinha da série Tente Outra Vez, por exigência minha, os demais foram escalados pelo próprio Pedro Lucena. Aos poucos, víamos nosso sonho sair do papel e transformar-se em realidade. Era mágico observar todas aquelas pessoas, profissionais competentes debruçados sobre o meu trabalho, empolgados, confiantes, desejosos de que tudo fosse um grande sucesso. Naquele momento eu era inteira, plena e feliz. 



CAPÍTULO 09



Precisei ficar algumas semanas em São Paulo, por conta do andamento dos trabalhos de pré-produção da novela Amazona. A central de teledramaturgia da RTN construída na Avenida dos Bandeirantes, numa área de trezentos mil metros quadrados era um mundo em estúdios, cidades cenográficas, fábrica de cenários, e diversos artistas da casa transitando nos intervalos de suas gravações. Sentia-me completamente apaixonada por aquele universo de criações. Na época em que havia trabalhado para a emissora, antes do acidente, a central ainda não havia sido construída, e mesmo no período de produção da série Tente Outra Vez não me sentira movida a conhecer. Cogitei então a possibilidade de me mudar provisoriamente para a capital paulista durante o trabalho. Seria um modo de acompanhar tudo de perto, e estar ainda mais inspirada para escrever. Por mais que sessenta por cento da história fosse gravada no meio da Floresta Amazônica, estar inserida naquela fonte de criatividade seria uma forma de me envolver cada vez mais na empreitada, e ficar livre das agressões constantes de Maria Eugênia, além de esquecer a frustrante relação com Tancredo Flores.
Tivemos algumas reuniões com toda a equipe de atores e produção da novela, a fim de finalizarmos a construção de todos os personagens e detalhes da obra. Foram dias seguidos de trabalho, convivendo com todas aquelas pessoas, respirando exclusivamente o universo de Amazona. Almoçávamos todos juntos diariamente, no restaurante da própria central, estreitando ainda mais os laços de amizade, era um modo natural de estabelecermos uma afinação, integração ou cumplicidade entre todos nós. Certamente aquilo refletiria no resultado final do trabalho. 
No primeiro final de semana após minha chegada em São Paulo, Pedro Lucena viera de Fortaleza com o objetivo de conhecer os cenários montados das cenas da trama em estúdios. Estávamos ansiosos, sentíamos como se fosse uma vitória nossa ver aquele trabalho se concretizar. Apreciamos cada espaço, cada ambiente com olhar de celebração. A grande sala da fazenda, onde aconteceria a maioria das cenas, lembrava-me a infância, os quartos, cozinhas, tudo se fazia verdade diante de nossos olhos.
Fiquei encantada ao entrar no cenário da capela da fazenda. Era linda, como eu a havia imaginado. Aproximei-me do altar, onde uma imagem imensa de Cristo Ressuscitado parecia descer do teto. Fui tomada por um desejo profundo de orar e agradecer por aquele momento em minha vida. Prostrei-me no primeiro banco, bem diante da imagem, ali agradeci. Recordei-me de Vinícius me dizendo em sonho para eu ouvir as batidas de meu coração. Aquele lugar sagrado, mesmo que fictício, os demais ambientes montados, tudo era resultado de minha escuta profunda ao convite de meu marido. Chorei de felicidade, grata a Deus por me amparar, mesmo depois de pensar que havia sido abandonada por Ele, após o acidente. Ainda assim, sentia-me carregada no colo. E de repente, estava novamente erguida, vivendo um momento de pura expressão.
- Está tudo bem? – A voz grave veio das minhas costas. Percebi que não era Pedro. Tratei de enxugar as lágrimas e descobrir quem testemunhara meu momento de agradecimento. Era Augusto Loureiro, um dos co-diretores da novela.
- Está sim. – Respondi sorrindo, para que ele percebesse que não se tratava de nada grave.
- Mas, você estava chorando.
Corei de vergonha.
- Não é nada demais.
- Desculpe se estou lhe invadindo. – Sua voz era terna.
- Não, de jeito nenhum.
- É que por um momento pensei que você precisasse de alguma coisa.
- Está tudo bem.
- Desculpa mais uma vez então. – Insistiu.
- Não se preocupe, está tudo bem realmente.
- Que bom. Vamos ver o último cenário?
- Sim, claro, estou indo.
Augusto fez que sim com a cabeça e se retirou, percebendo que eu precisava me recompor. Ele nem imaginava o quanto eu estava feliz, na verdade ninguém poderia imaginar o que aquilo representava para mim. A pesar dos comentários maldosos da imprensa, colocando em xeque minha competência e se referindo a mim como uma privilegiada por ser filha do dono da RTN, eu sabia que papai e Pedro haviam me escolhido para estar à frente daquela empreitada por confiarem piamente em meu trabalho, em meu talento. Se o universo estava sendo generoso em me criar as possibilidades, abrindo as portas com facilidade, certamente eu vinha sabendo aproveitar e oferecer tudo de mim. Aquela vivência me convidava a exercitar a crença em mim mesma, em meu potencial, desconsiderando o que os outros pensavam a meu respeito, como me colocou Pedro tantas vezes.
No almoço, Pedro Lucena e eu conversamos sobre diversas ideias para a história. Ele me fazia viajar na imaginação, provocava constantemente a minha criatividade, convidando-me a pensar em novas possibilidades o tempo inteiro. Poderíamos conversas horas a fio, e decerto não nos esgotariam os insights.
Pedro levantou da mesa para atender o celular, quando Augusto Loureiro, o co-diretor da novela, aproximou-se.
- Posso sentar? – Abordou-me sorridente.
- Claro, por favor. – Permiti, meio desconsertada. O que ele queria afinal?
- Desculpe-me a insistência, Celina. É que vi seu jeito no cenário da capela, como ficou emocionalmente ao entrar lá.
- Augusto, está tudo bem. – Desejava logo encerrar aquele diálogo.
- Gostaria apenas de lhe falar que eu também fiquei emocionado ao ver aquele cenário. Simples e ao mesmo tempo delicado, belo. E o melhor, passa realidade.
Concordávamos então. Sorri, por nossa cumplicidade.
- Você percebeu mesmo.
- Sim, acho que por sentir o mesmo. Fiquei um pouco lá atrás, orando, agradecendo por fazer parte deste trabalho, com esta equipe. Senti Deus muito presente, sabe?
Aquela revelação me deixou completamente surpresa. Augusto parecia descrever exatamente os meus sentimentos, quando relatava os seus. Impressionante!
- Não percebi que estava lá atrás.
- Pois é. Não quis me aproximar para não invadir o seu momento. Só o fiz quando a ouvi chorar, fiquei preocupado.
- Meu choro era de gratidão. – Poderia então revelar a ele. – Você não tem noção do que isso significa para mim, Augusto.
- Realmente não tenho, mas tento imaginar.
- Como assim, imaginar?
- Pelo tempo que você ficou fora de sua área de atuação, seu acidente, as críticas maldosas. Enfim, tudo o que uma grande artista se depara no momento que decide apresentar seu trabalho ao mundo.
Perfeita a sua percepção! Como se eu tivesse partilhado com ele antes. No mínimo um homem de muita sensibilidade. Parecia projetar meus sentimentos em sua fala.
- Diria que você é um homem perceptivo.
- Atento aos meus sentimentos. – De que sentimentos ele falava? – Ao que é sutil e está à minha volta. – Respondeu, sem saber que eu me perguntava aquilo. Sintonia total! – Muitas vezes partilhamos das mesmas ideias, dos mesmos anseios e nos negamos a expressar isso.
- Você está falando de nós?
- Não apenas. Falo de quando nos encontramos com alguém. Procuro sempre estar atento a isso, Celina. É aí onde estão os grandes encontros. – Grandes encontros? Do que estava falando? – Foi bom partilhar com você o mesmo sentimento naquele momento.
- Augusto, eu não sei o que dizer.
- Não precisa dizer nada, seus olhos falam por você. – Aquela última declaração me deixou atordoada. Praticamente não ouvi seu pedido de licença, e quando dei por mim, ele já estava a algumas mesas da minha, conversando com outros colegas. Como se aquilo não tivesse acontecido.
Pedro voltou para a mesa, falando alguma coisa em relação ao seu vôo de volta a Fortaleza, nem pude lhe dispensar atenção, o diálogo anterior havia me deixado um pouco perdida. Nem sabia ao certo se não fora fruto de minha imaginação.
“Não precisa dizer nada, seus olhos falam por você.”
A que Augusto Loureiro se referia afinal? Eu o havia conhecido há pouco mais de uma semana, junto com os demais profissionais da novela. Até então não passava de um colega de trabalho com o qual não estabeleci nenhum tipo de intimidade. Em pouco mais de uma hora transformara-se num homem sensível, perceptivo e cuidadoso.
Terminei o almoço, sem tirar os olhos do co-diretor de Amazona, como se quisesse reconstituir sua abordagem à mesa. Com que intuito a fizera? Bobagem, seria na certa uma pessoa tentando apenas se aproximar, ser gentil. No entanto, acompanhei todo o tempo em que ele ficara na mesa com os outros colegas, sem prestar atenção a uma só palavra dita por Pedro Lucena. Até que levantou acompanhando os demais, e quando ia saindo, voltou-se rapidamente a mim, hipnotizando-me com uma piscadela de olho.
Era real aquilo?
- Celina? Celina? Celina? – Pedro tentava me trazer de volta de meu transe.
- Oi.
- Está tudo bem?
Percorri rapidamente o restaurante do complexo com o olhar, na expectativa de ainda encontrar Augusto Loureiro.
- Sim, está. Fiquei apenas um pouco distraída. – Procurei me recompor. Nada do co-diretor da novela no ambiente.
O que havia acontecido? Um homem que outrora não passava de um colega de trabalho, de repente criara uma situação totalmente inusitada e conseguira me deixar numa espécie de transe ou hipnose. Ou seria tudo invenção minha?
“Não precisa dizer nada, seus olhos falam por você.”
Por que então aquela frase ficara ressoando em meus ouvidos? E se meu encontro com Augusto Loureiro se dera apenas na capela fictícia?
Bom, só havia um jeito de saber: Perguntando. 



CAPÍTULO 10



Depois de algumas semanas em São Paulo, precisaria voltar a Fortaleza para a festa de papai e Júlia Serrado. Ele não me perdoaria se não estivesse presente neste momento. Meu vôo sairia de Guarulhos à tarde e ainda teria uma última reunião com o diretor da novela pela manhã. Precisávamos acertar alguns detalhes de alguns pontos dos cenários e personagens, e eu já estava atrasada, quando a campainha de minha suíte ressoou. Praticamente não conseguia enxergar o mensageiro do hotel escondido pelas flores que trazia. Lindas.
- São para a senhora.
- Para mim? – Tomei o buquê em minhas mãos, surpresa. – Só um instante. – Entrei e peguei rapidamente uma gorjeta. – Tome. Obrigada. – E tratei de dispensar o empregado. Realmente eram lindas, deixando-me em transe. Quem as teria mandado? Procurei então o cartão.  
“Não precisa dizer nada, seus olhos falam por você.”
Sim, fora ele.
“Augusto Loureiro”.
Não cabia em mim de felicidade. Depois de nossa última conversa no almoço, trocávamos muitos olhares. Era como se as palavras não dissessem tudo. Iniciamos um diálogo misterioso, estruturado no silêncio e expressão do olhar. Passei a procurá-lo discretamente nos ambientes, na expectativa de nutrir aquela relação diferente constituída em cada palavra não dita, em cada gesto repleto de significados inexplicáveis, em cada sorriso provocativo e encantador. O que me fez prolongar minha estada em São Paulo por alguns dias. Bastou uma única pergunta dele.
- Você está voltando para Fortaleza?
Era mais que aquilo. Augusto não tentava saber apenas se eu voltaria, mas lamentava a pausa em nossa “relação” de troca e construção. Infelizmente, já não tinha mais como adiar. Papai voltara de sua viagem aos Estados Unidos e eu ainda não o tinha visto. Desejei permanecer, continuar com aqueles encontros, mesmo que silenciosos que me faziam sentir mulher novamente.
Dulce, minha enfermeira e amiga, já havia decido há algum tempo, preferira tomar café no restaurante do hotel. Melhor assim, deste modo não precisaria lhe dar maiores explicações sobre as flores, e certamente ela me encheria de perguntas.
E mais uma vez a campainha tocou. O mensageiro teria esquecido de entregar mais alguma coisa? Ao abrir a porta, a figura de Augusto Loureiro se fizera presente bem diante de mim.
- Olá. – Disse ele, sorridente.
Fiquei completamente desconcertada.
- Oi! Você não foi anunciado.
- Ah, desculpe-me a indelicadeza. – Tentou consertar.
- Não, não, eu fui indelicada. – Estava confusa e nervosa.
- Encontrei com Dulce lá em baixo, ela me disse para subir.
- Tudo bem, tudo mesmo. Não se preocupe.
- Posso entrar?
- Entrar? – Nem conseguia racionar direito.
- Sim, entrar. A não ser que esteja ocupada.
- Não, não estou. Na verdade, já estou de saída.
- Desculpe mais uma vez.
- Tudo bem, entre.
- Soube que tem ainda uma reunião com o diretor da novela.
- Isso, mas acho que é coisa rápida, veremos apenas uns últimos detalhes.
- Bom, vim me despedir.
- Despedir? Claro. Que bom.
- E quando retorna?
- Breve. Papai dará uma festa, ele voltou há pouco dos Estados Unidos com sua esposa e deseja apresentá-la a todos.
- Claro, ouvi falar. Fofocas de jornais.
- É, eles não deixam a vida da gente em paz.
- E você sabe bem o que isso significa, não é mesmo?
- Sim, sei.
- Então, boa viagem. Aproveite bem o reencontro com seu pai.
- Obrigada.
Um pouco de silêncio, e finalmente ele tomou a iniciativa de sair.
- Então até seu retorno.
- Se Deus quiser.
E quando ia saindo, voltou-se novamente a mim.
- Já ia me esquecendo. Você gostou das flores?
Esqueci completamente!
- Desculpe-me, Augusto. Que insensível eu fui. São lindas. – Voltei-me para elas, no vaso, em cima de uma mesinha.
E mais uma vez ele fitou meus olhos, como antes quando travávamos nosso diálogo silencioso. Senti meu coração acelerado. Encontrava-se bem diante de mim, e não era fantasia. Será que aquele homem tão bonito, envolvente estaria realmente interessado por mim? Tantas outras mulheres bonitas por quem poderia se envolver. Eu falava ainda com dificuldade, andava com a ajudada de uma bengala, e muitos movimentos ainda eram restritos, tudo sequelas da lesão em minha coluna.
- Sentirei sua falta. – Foi Augusto quem tomou a iniciativa de confessar, deixando-me embaraçada. Uma intimidade estabelecida em nossas trocas de olhares há semanas.
- Eu também sentirei falta de todos.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, uma eternidade, fitando os olhos, a boca. E nos precipitamos mutuamente num beijo intenso, avassalador. Há exatos sete anos, desde o acidente não vivia coisa parecida. Cada beijo, o calor, o cheiro, o nervosismo, as palavras ditas baixinho, tudo me fazia sentir mulher novamente. Íamos nos despindo aos poucos, envolvidos por uma cortina de prazer e magia. Mais uma vez eu sentia o sabor de estar com um homem, inteiro, entregue a mim. E quando ele se fez nu em músculos diante de mim, ostentando toda a sua excitação, lindo, caí em seus braços. Tudo perfeito! 




CAPÍTULO 11



No primeiro final de semana após o meu retorno à Fortaleza, fui surpreendida pela presença de Augusto Loureiro na capital cearense apenas para me ver. De repente, em sete anos de morte em vida, estava eu novamente conhecendo alguém, sonhando, fazendo planos. E ele se mostrava completamente encantado, envolvido, como que estivesse realizando um grande sonho, relacionando-se com alguém, com quem muito desejou e então fora presenteado pelo universo com sua presença encantadora.
Papai mostrou-se feliz com meu relacionamento e ao mesmo tempo apreensivo por não saber nada da vida de Augusto. Fez questão de recebê-lo em nossa casa para um almoço. Assim seria uma forma de termos um pouco mais de segurança acerca de suas intenções.
Fiz questão da presença de meu amigo Tancredo Flores que se mostrou surpreso quando os apresentei. Não sabia ao certo o que, mas parecia entristecido, decepcionado, não sei. O que foi percebido até por Augusto, que afirmou, após o encontro, detectar uma paixão recolhida de meu amigo ao meu respeito. Não podia ser, eu nunca havia percebido, ou não quisera perceber. Ou então, tudo não passava de um engano. Bom, eu estava muito bem e não valia mais a pena pensar sobre aquilo. Se tivesse que ser, já teria acontecido. Certamente minha felicidade estava realmente ao lado de Augusto. Tudo se encaixava, era perfeito. E este, fora aprovado totalmente por toda a minha família. Confesso até me surpreender com o silêncio de Maria Eugênia sobre o assunto. A convivência com aquele homem fazia-me viva novamente e Maria Eugênia nada fizera para atrapalhar, assim como procedera durante toda a minha vida.
Era tarde chuvosa do mês de maio e estávamos Augusto e eu abraçados na varanda de minha casa. Falávamos de quando éramos crianças e apreciávamos aqueles dias chuvosos. Estava frio e tentava me aquecer no calor de seus braços. Sua volta à São Paulo seria na madrugada do dia seguinte, após uma semana em que lhe apresentava a capital cearense. Embora eu fosse ao seu encontro brevemente, via-me tomada pela saudade.
- Como nós ficamos agora? – Indaguei apreensiva.
- Vamos nos falar a cada minuto. – Respondeu ele na mesma atmosfera apaixonada.
Sim, sentia-me completamente apaixonada. Depois de tantos anos, pensei nunca mais sentir algo parecido, como uma adolescente.
- Se nos falarmos a cada minuto, não conseguiremos mais trabalhar. – Brinquei.
- Quem disse que eu quero trabalhar? A única coisa que eu quero agora é sentir você, estar com você.
- Repete!
- A única coisa que eu quero agora é sentir você, estar com você.
Sorri de felicidade em meio aquela chuva. Podíamos sentir o vento umedecido em nossos rostos, o que nos deixava com ainda mais frio.
- Tenho medo de tudo isso ser um sonho. – Confessei.
- Se for um sonho, estamos juntos nele.
- Você agora vai voltar para São Paulo, ficar sozinho. Bonito como é, logo será abordado por alguém.
- Só você me interessa agora.
Não compreendia o que em mim teria lhe despertado a paixão.
- Posso acreditar nisso?
- Não consegue sentir? – Perguntou ele.
- Sim.
- Casa comigo?
Casar?! O quê?!
- Como?
- Casa comigo!
Saí de seus braços, voltando-me para fitar seu rosto.
- O que está dizendo?
- Estou completamente apaixonado por você, Celina! Quero viajar amanhã tendo a nossa relação assegurada oficialmente.
- Mas não é cedo? – Encontrava-me chocada, apesar de feliz.
- Não quando se ama. Você é escritora e não sabe disso? – Sorriu.
E nos amávamos? Temi perguntar aquilo e quebrar o clima, o romantismo.
- É que você me pegou de surpresa.
Um trovão e joguei-me em seus braços. Fui acolhida com tanto afeto.  
- Eu não tenho dúvida nenhuma, Celina.
- De quê?
- Que você é a mulher da minha vida.
Seria real, possível ele está tão apaixonado num período tão curto? E o que eu sentia realmente? Era bom estar ao seu lado, prazeroso, sabia de meu envolvimento. Mas casar... De qualquer modo Augusto trazia-me de volta à vida, e aquilo não tinha preço. Apaixonada? Sim, acho que poderia chamar de paixão o que sentia.
- Tenho medo, Augusto.
- Não tenha medo de ser feliz novamente, Celina. Aceita casar-se comigo?
- Mas é ainda um segredo nosso.
Foi ele agora quem saiu do abraço e me olhou forte nos olhos.
- Isso é um sim?
Hesitei um pouco antes de responder.
- É.

E ele sorriu, celebrando. Então nos beijamos. 



CAPÍTULO 12



Após o grande sucesso da novela Amazona, chegando a quase trinta pontos de audiência, durante os dez meses em que esteve no ar, minha felicidade só viera a se completar depois de meu casamento com Augusto Loureiro. O que havia acontecido recentemente.
Entrei no banheiro do quarto, certa noite, enquanto Augusto livrava-se do cansaço no chuveiro. Era uma quinta-feira de início de junho, eu acho. O primeiro grande desafio diante de meu maior inimigo, depois de anos. Três filinhas de pó, na pia, logo à minha frente.
Senti meu coração acelerar. Olhei para o chuveiro e podia ver a silhueta de meu marido, deliciando-se em seu banho. Talvez preparando-se para o “prêmio do dia”. Não! Não podia ser. Não Augusto. Eu nunca, em um ano e meio de relacionamento, percebi nada, nenhum vestígio, qualquer coisa que me fizesse desconfiar de um vício. Realidade conhecida por mim tão de perto durante anos de minha vida. Saí dali transtornada.
Alguns minutos depois do banho de Augusto, um silêncio. Minutos que parecera uma eternidade. O que estaria ele fazendo? Voltou ao quarto, limpando o nariz.
- Oi, meu bem. Estava aí fazia tempo?
- Não. Cheguei agora.
- Está tudo bem, Celina?
Ele certamente se dera conta de meu nervosismo, de meu questionamento interno, de um incômodo gigantesco que parecia me dominar por completo. Não estava nada bem. E não ficaria tão cedo. Desde aquele dia, flagrei diversas vezes a mesma cena, no banheiro de nosso quarto.
Aquela situação me tirava totalmente o equilíbrio. Podia ter passado horas meditando. Ao me deparar com meu inimigo encima de minha pia, experimentava a mesma fraqueza de outrora. Desejava chegar mais perto, sentir a textura,o cheiro. Sentir a mesma sensação por Augusto experimentada certamente após aqueles banhos. Por isso saía tão bem, tão disposto, com uma alegria exagerada até. E, à vezes, me dizia coisas sem sentido. “As bolas da toalha caíram.” Ou “Segura meu pé, Celina, ele está crescendo.” Eu simplesmente disfarçava, fingia não ouvir, tratava como se não soubesse de nada.
Minha família poderia não aceitá-lo em nossa casa. Se papai descobrisse, certamente o expulsaria. Eu estava muito feliz para perdê-lo. Feliz? Não sei bem. Desde a primeira vez em que flagrei cocaína em nosso banheiro, nunca mais tive paz. Muitas vezes, sentia inveja dele. Augusto era livre de todos, dos olhares, das dores das pessoas, de culpas. Não se prendia a nada. Cheirava simplesmente. E não se mostrava acometido de nenhuma culpa. Pelo contrário. Considerava sua vida perfeita, como antes de eu saber daquilo.
Com o passar do tempo, meu marido entregou-se aos seus rituais com o pó, abertamente, com a porta do banheiro escancarada, conversando comigo acerca de seu trabalho dirigindo os programas locais da RTN, como se estivesse ali fazendo a coisa mais normal do mundo. E eu, preferia permanecer no silêncio sobre aquilo. Nada poderia fazer.
Experimentava inveja de Augusto por ser tão livre e poder “cheirar” sem se importar com ninguém. Sua vida era perfeita. A minha não! A cada dia que passava, desejava mais aquele prazer, a mesma sensação de anos antes. O que me deixava trêmula, ansiosa, chegando a gaguejar.
Se eu experimentasse somente um pouquinho? Talvez fosse isso que precisasse fazer. Talvez eu percebesse que não necessitava mais daquilo. Afinal, desde o acidente, nunca mais eu havia chegado perto de nenhuma droga. Se não o fizesse, como poderia ter certeza que aquele vício não mais me dominaria? Assim como ele não dominava meu marido. Augusto exercia um certo controle sobre aquilo. Pelo menos parecia exercer. Será?
Aos poucos minha vida vinha se tornando um grande tormento. E tudo no mais completo silêncio. Claro que as pessoas a minha volta notavam. Tancredo foi o primeiro a questionar. A ansiedade começava a me deixar impaciente, agressiva.
- O que está acontecendo, Celina? De uns tempos pra cá você tem mudado.
- Nada! Não está acontecendo nada. Por quê?
Estava acontecendo sim. Até a presença das pessoas, que não sabiam o que se passava dentro de mim, me irritava. Ou seja, todo mundo. Augusto era a única pessoa de quem eu desejava estar perto. Até meu trabalho sofreu com a mudança. Já não conseguia entregar a tempo os capítulos de uma minissérie na qual trabalhávamos. As idéias me faltavam, as palavras não me vinham. Levando-me rapidamente ao desespero.
Mas eu não podia! Não depois de tudo. E Vinícius? Ora, Vinícius já havia me perdoado. Além do que não existia motivos reais para nenhum perdão. Fora tudo uma fatalidade. Loucura de minha cabeça considerar-me culpada durante tanto tempo. Idiotice minha! Até as lembranças da culpa por mim sentida todos aqueles anos, me enojavam.
Uma nova Celina Gondim nascia dentro de mim com aquele casamento. Uma mulher mais livre de tudo.
Dentro de alguns meses, cedi à tentação!
Inicialmente fazia escondido, antes que Augusto saísse do chuveiro. Comecei cheirando uma das fileirinhas. Em alguns dias, passei a cheirar duas, depois três. Uma semana depois, acho, cheirei todas. E aquilo me deixou em pânico. Mas era tanto prazer, uma sensação de tanta leveza tomando conta de mim, que nem me importei. Lembro-me da imagem de meu marido, rindo, encostado na porta do banheiro.
“Assim, não dá, meu amor. Todas?”
Nós dois ríamos muito. A partir dali, passamos a fazer aquilo juntos. Muita cumplicidade, muito amor. Depois fazíamos amor intensamente. Como era bom! Aqueles rituais de prazer tornavam-se cada vez mais frequentes. Primeiro aconteciam à noite, depois, em qualquer hora do dia.
Eu “cheirava” até para escrever. Aquilo me aguçava a criatividade, dava-me ânimo de trabalhar. Um novo momento em minha vida, agora controlando o vício. Não que eu precisasse da coca, mas era bom. E diferente de Vinícius, Augusto me entendia, ajudava-me a ser mais inteira, a ser mais eu. Sem ninguém para me cobrar ou direcionar a minha vida. As pessoas não precisavam saber. Somente nós dois. Era um segredo nosso. Coisa de marido e mulher.
Estranhei quando papai me perguntou se estava usando drogas novamente. Como poderia ele saber? Disse apenas que não, naturalmente. E por incrível que parecesse, até Maria Eugênia entrou em minha defesa. Repreendo-o por tamanha falta de respeito. Talvez estivesse ela mudando, descobrindo uma nova mulher dentro si, como eu. Poderia até ser o início de uma nova fase em nossa relação.
Uma nova Celina Gondim, agora livre!



CAPÍTULO 13



Toda a mansão das Dunas ficara ansiosa nos preparativos de comemoração de meu aniversário de trinta e cinco anos. Os dias que antecederam a festa se faziam respirar o evento. E justo naquela época, me deparei com os exames de papai. Eu já sabia do tumor e que teria pouco tempo de vida. Era um segredo nosso. Os anos, me faziam acostumar com a ideia. Como o tempo se passava e nada de grave acontecia, passei a não mais me importar. Torcia, lembro, por um milagre. Creio que isso acontecia diariamente.
A verdade, porém, viera à tona. E aquilo me fizera sofrer.
Em poucos dias, presenciei, sem querer, um telefonema de papai para seu advogado, tratando de umas “aparências”, segundo ele, que precisam manter dentro da empresa, escondendo a verdadeira situação financeira da RTN.
Mais mentiras.
A imagem casta que eu havia alimentado a vida inteira acerca de papai começava a se desmoronar.
- Como pôde?
- Você não entenderia, minha filha?
- Tente me explicar.
- Não posso. Envolve muitos interesses, entende?
“Interesses!”
Na verdade, precisava confirmar que tudo era mentira, que minhas descobertas não passavam de equívocos. Mas não eram. Ele mesmo me confirmou a veracidade dos fatos.
Aquilo mexia com toda a minha vida, com minha identidade. Como se parte de minha história fosse uma de minhas criações. E era. O homem o qual conheci como meu pai, não existia. Em seu lugar uma outra pessoa, um estranho. Difícil de suportar sem a coca! Se não fosse por Augusto e nossos rituais secretos em nosso quarto, não sei como sobreviveria aquilo.
Cheguei a desistir da festa. Não fazia sentido tal acontecimento. Tudo era também uma grande mentira. Comemorar o quê? Eu mesma não sabia mais quem eu era. Mas aconteceu. E foi recheada de vários escândalos.
Foram duas descobertas que me fizeram beber horrores e misturar com coca, naquele dia. A verdade sobre o estado de saúde de papai e seu casamento com Júlia Serrado, destruindo a imagem que eu tinha dele a vida inteira. Bem como uma conversa de meu marido com Maria Eugênia, pouco antes da festa, na qual riam e festejavam o sucesso de seu plano.
- Ela foi mais tola do que eu pensei, Augusto! – Surpreendia-se Maria Eugênia, triunfante.
- Viu como valeu a pena a espera? – Brindava ele, com largo sorriso.
- Falta apenas o golpe final.
- E quando quer?
- Hoje. Você a deixará hoje, em seu aniversário. Quero ver minha irmãzinha querida abandonada pelo marido a quem tanto ama no dia de seu aniversário.
- Não é maldade, Maria Eugênia?
- Ora, ora, Augusto... você não está recebendo uma fortuna para sentir pena daquela sonsa. Ela passou a vida inteira manipulando toda a nossa família em proveito próprio, fazendo-se centro das atenções. Roubou somente para ela toda a atenção e cuidado de papai. Sabe direitinho como fazer para conseguir o que quer, fazendo com que todos acreditem ser uma santa.  No final, a vilã sempre sou eu. Chega! Celina agora terá o que merece.
- Como queira.
- Eu estou apenas fazendo justiça. E agora chegou o grande momento.
- Foi difícil, mas deu certo.
- Realmente, Augusto, você fez um belo trabalho. E o tempo foi justo sim. Mas agora ela está de volta para onde nunca deveria ter saído, a sarjeta!
E eles riram muito.
- Só não sei como você conseguiu, como teve estômago pra aturar tanto tempo, pra se deitar com uma... uma coisa daquelas! – Fazia um gesto de nojo.
- Como disse, sou bem pago pra isso, minha cara. – Ergueu o copo de uísque, propondo mais um brinde.
O plano dera certo. Eu estava novamente completamente entregue à droga. E agora, com uma faca cravada em meu peito, pelas costas, por minha irmã e meu marido. Tudo nunca passara de uma grande armação. Fora um plano minucioso, repleto de pormenores, perfazendo um ano e meio pelo menos. Um grande investimento. E como a própria Maria Eugenia, comemorava, uma cartada de mestra.
Minha irmã me prometera certa vez, pouco depois de minha chegada naquela casa, que um dia eu me arrependeria de entrado naquela família, de roubar uma espaço que era seu por direito. Aquele dia, chegara!
Maria Eugenia Gondim planejara aquela aproximação cuidadosamente, investira alto para que Augusto me seduzisse, tivesse coragem de se casar com uma aleijada e depois me fizesse voltar ao mundo das drogas.
~
Aquela festa de aniversário fora realmente um divisor de águas na vida de muita gente. O vídeo de Maria Eugênia, levando o nome de nossa família à lama, minha queda logo após os festejos dos parabéns, completamente bêbada e drogada, caindo nos braços de meu marido. E um discurso no qual não falava coisa com coisa.
Papai vira sua família destruída. A intimidade das duas filhas expostas. E aquilo quase o matou. Já não era mais segredo para ninguém que eu havia caído novamente no vício.
Nem tive como me dar conta do que acontecera ao meu sobrinho, ainda na mesma noite. Foi Maria Antônia quem depois me revelou.
De modo discreto e sofrido João Henrique nutrira durante anos uma grande paixão pelo melhor amigo Alexandre, o filho de Olívia Cordeiro. Os dois tinham uma relação de muita proximidade e cumplicidade desde os tempos de colégio. E o outro parecia se aproveitar dos sentimentos secretos de meu sobrinho para garantir a cobertura em suas aventuras e até mesmo dinheiro, visando a manutenção de seu vício. A amizade de adolescentes foi ganhando assim uma nova roupagem nos últimos anos. E depois de flagrar um beijo de Carola, sua ex-namorada e João Henrique, Alexandre resolveu revelar a verdade em público sobre os dois. E o palco do infortúnio, foi justamente a minha festa de aniversário.
Alexandre tomou o microfone e chamou a atenção de todos ali. Completamente embriagado, talvez “cheirado”, queria se vingar pela traição do amigo. Por mais que o meu sobrinho tentasse lhe explicar, o rapaz parecia transtornado, sem aceitar qualquer argumento que inocentasse o amigo.
- Eu quero dizer, pra todo mundo ficar sabendo aqui, que o João Henriquezinho... – Pronunciou, desmunhecando, em tom de gozação. – É gay! – Meu sobrinho não acreditava no que ouvia. – - Ele é gay! Sempre que a gente ia dormir no mesmo quarto, ele ficava me apalpando, pegando no meu pau, quando eu estava dormindo. E um dia desses, eu acordei e ele tava fazendo oral em mim. – Aquilo causou um frisson em todos. A festa inteira parecia olhar para João Henrique, procurar por ele, como se perguntassem, confirmassem o que seu melhor amigo falava a seu respeito. Foi Olívia quem subiu no palco, tentando tirar o filho dali. – E tem mais, não foi uma ou duas vezes, quase sempre acontecia. 
Muitos riram.
João Henrique correu dali, desesperado, desnorteado. Pronto, seu segredo fora revelado a todos da forma mais desrespeitosa, mais indigna possível. Ao perceber os sentimentos, a forte atração de seu meu sobrinho por ele, Alexandre passou a provocá-lo em constantes insinuações, criando situações em que os desejos do outro eram postos à prova permanentemente, até consumarem o fato com sexo oral. O que se tornou aos poucos um costume. Entretanto, nada era conversado entre eles, como num pacto de silêncio. Para todos os efeitos, Alexandre de nada sabia, como se seu corpo fosse violado quando dormia.  Uma farsa estabelecida por anos, a fim de darem vazão aos desejos nunca assumidos. Com o tempo, João Henrique foi se libertando da culpa e aceitando a relação secreta, na qual se entregavam aos prazeres da carne em sua intimidade e faziam com que todos acreditassem na relação de pura amizade entre ambos. Uma troca silenciosa, para meu sobrinho, a garantia de ter a pessoa por quem era completamente apaixonado ao seu lado, não importava como. Para Alexandre a certeza do cúmplice em suas aventuras e mantenedor de seu vício.
 João Henrique sequer conseguiria mensurar a vergonha naquela noite. Seu pai, de quem sentira tanta falta a vida inteira e então passava um tempo conosco, por conta de seus negócios, testemunhara a cena grotesca. Chegava a não ouvir nada, nem ninguém, nem Carola chamando por ele, pedindo que se acalmasse, dizendo que o ex-namorado era um louco. Mas meu sobrinho sabia que não era verdade. Louco era ele mesmo por ter acreditado numa cumplicidade que nunca existira. E seu pai, ali presente, ouvindo todos aqueles absurdos sobre ele. Pensava em como Willames e Leonardo estariam. Deixou os portões da mansão das Dunas aos prantos, totalmente desorientado. Poderia morrer naquele momento. E lá fora, em meio a muitos carros, Renato Brandão, o sócio de Olívia Cordeiro na Mirage, acenando para ele, pedindo que entrasse em seu carro. Sua salvação!
Renato e meu sobrinho não deram uma só palavra no trajeto das Dunas até o apartamento do mesmo. Chegando lá, cuidou para colocar João Henrique num quarto de hóspedes, preparar-lhe um banho e cuidar para que tomasse um chá quente. Em pouco mais de uma hora, tempo suficiente para o rapaz se banhar, limpar aquela energia de mágoa e decepção, e vestir um roupão limpinho, Renato bateu na porta do quarto, levando-lhe o chá. Era tudo que meu sobrinho precisava naquele momento. Uma pessoa amiga e distante de toda aquela imundice que lhe apoiasse, que lhe respeitasse e o entendesse.
- Posso entrar? – Perguntou Renato cuidadoso. – João Henrique fez que sim com a cabeça. Queria ficar calado. – - Como você está se sentindo? – Insistiu.
- Parece que um trator passou por cima de mim, acabando com a minha vida. – Respondeu meu sobrinho cabisbaixo. – É uma dor, uma vergonha. Acho que nunca mais vou ter coragem de pôr minha cara na rua, sabe?
- Isso passa. Daqui a pouco, todo mundo vai ter esquecido.
- Você acha que as pessoas acreditaram nele?
- Creio que ele fez um bom estrago. Mas não nada que não possa ser recuperado. Essa coisa de honra, de moral, as pessoas logo esquecem, até que a honra e a moral de outra pessoa seja atingida.
João Henrique lembrou dos comentários do próprio Alexandre acerca de Renato Brandão e Holanda, referindo-se a ambos algumas vezes simplesmente como um casal amigo de sua mãe, tratando-o de “tio Renato”, outras vezes como viados. Embora o filho de Olívia Cordeiro não parecesse ser um cara de fato preconceituoso, uma vez ou outra dava indícios de que era.
- Você acreditou? – perguntou a Renato, usando-o como um termômetro.
- Para você, qual é realmente a importância?
Me sobrinho se levantou, olhou para a janela, ponderou um pouco. Estava ainda confuso.
- Cara, eu sou um homem. Não quero que minha família, as pessoas me olhem atravessado.
- Se não te olharem atravessado por isso, vão te olhar por outro motivo, por você ser um cara inteligente demais, mais do que eles, por você ser um cara alto ou baixo demais, lindo ou feio demais, gordo ou magro demais, porque tem um cabelo escuro ou claro. As pessoas vão sempre encontrar uma forma de te olhar atravessado. E essa coisa do sexo esconde todos os desejos e repressões das pessoas. Na verdade, nós nos projetamos uns nos outros, em relação a essa questão, como forma de viver, um segundo que seja a expressão daquilo que verdadeiramente queremos e não nos permitimos por conta da moral e dos bons costumes. Quando apontamos para alguém, criticamos, julgamos, depois excluímos, é como se experimentássemos no outro um pequeno gostinho daquilo que está em nós. Mas a estrutura formal da crítica é “se eu não posso, o outro também não.” Entende? Nossas atitudes de hostilidade, são na verdade contra nós mesmo. O outro é apenas um bode-expiatório.
- Mas eu não sou isso.
- Realmente não, meu rapaz. Nós somos o que somos, só. Você precisa apenas descobrir...
Renato Brandão fora uma presença importante para meu sobrinho naquele momento, ajudando-o a se reerguer e voltar para casa, olhar para cada um de nós, retornar a sua vida normal. Óbvio que seu normal agora seria diferente. Ele não mais se portaria como antes, pensaria as mesmas coisas sobre tudo. Algo dentro de si havia mudado e ele não sabia bem ainda o quê. Decidiu apenas continuar e descobrir diariamente esse João Henrique mistério. Talvez não precisasse mais se esconder, de si mesmo!
Renato deixou meu sobrinho descansando e viu seu pensamento transformar-se em palavras.
“Parece uma missão, estar sempre me envolvendo com pessoas em processo de descoberta.” Sorriu e completou: “Tão novinho! E por que não?”
Desejei ter estado mais presente na vida de João Henrique, ajudá-lo. Não obstante, era e eu naquele momento quem mais precisava de ajuda. E justo, quando finalmente Dulce havia conseguido um novo emprego, e deixava a mansão das Dunas. O que Deus queria me comunicar afinal?



CAPÍTULO 14



No dia seguinte àquela festa fatídica, deparei-me com o vazio no armário de meu marido. Ele não cumprira o acordo com sua parceira, acabando o falso casamento no dia da comemoração de meu aniversário, talvez pela conjuntura, meu estado de embriaguez, não sei. Mas fora embora de minha vida logo depois.
E no armário, apenas um bilhete.
“Desculpe-me.”
Pensei finalmente em tirar minha própria vida. Mas poderia ter volta. Num surto de arrependimento e constatação de amor, Augusto poderia voltar atrás e encher minha vida de sentido.
Foi Tancredo Flores quem esteve do meu lado em todo aquele momento. Ouvia-me falar de meu amor por Augusto por horas, sem parar, de como éramos cúmplices, e do quanto nos amávamos mutuamente. E que fora apenas uma fraqueza. Sendo ele um homem de palavra, resolveu cumprir o acordo com minha irmã. Mas que poderia ele se arrepender. Logo estaria de volta.
Tancredo ouvia atentamente minhas lamentações, meus devaneios, tocava meu rosto, enternecido, passava a mão delicadamente por meu cabelo e deitava minha cabeça em seu colo, fazendo-me sentir à vontade para chorar até o dia amanhecer.
- Eu vou morrer, Tancredo!
- Eu estou aqui com você.
Dizia aquilo com a tranqüilidade e a certeza de que nada de mal me aconteceria, de que me protegeria de qualquer coisa. E que logo, eu ficaria bem.
Foram semanas de sofrimento, até me levantar daquela cama e decidir realmente ficar bem, para lutar por meu amor.
Augusto não poderia nada sentir por mim após tanto tempo de convivência. Por que então protelou tanto tempo a finalização do golpe, contrariando as expectativas de Maria Eugênia? Por que não fora mais objetivo, aceitou que nosso casamento fosse adiado por meses, pondo em risco o alto valor a ser recebido pelo feito? Foi o que lhe perguntei, em algumas semanas, no Rio de Janeiro.
- Não interessa agora. Já acabou, Celina. – Disse ele, quase fechando a porta de seu luxuoso apartamento no Leblon. Provavelmente comprado com o dinheiro gerado por nosso envolvimento.
- Não sei como pude ser tão tola!
- Não foi. Eu sou bom no que faço.
Uma marca de arrogância não percebida por mim em todos aqueles meses.
- Não somente tola, mas cega. Você nunca foi o que pensei.
- Nunca somos o que as pessoas pensam de nós.
Tão óbvio e eu precisava de uma tacada daquelas para compreender. Lindo e arrogante. Um grande canalha!
- Para mim é muito estranho estar sendo acordada de um sonho o qual me trouxe tanta vida. É como se eu estivesse sendo tirada, arrancada de uma de minhas próprias histórias.
- Sim, tudo foi criado por você mesma, Celina. Eu dei apenas a tônica. Como um bom diretor que sou.
- Hum, hum. Errado. Você nunca foi um bom diretor. É medíocre enquanto profissional. Estava na RTN por seu marido, somente.
- Se eu fosse tão ruim, você não estaria aqui.
- Exatamente por isso que estou aqui. Como disse, Augusto, não foi você. Fui eu mesma. A criação foi minha. O mérito é todo meu. Você não precisou fazer nada.
- Olha, eu sinto muito.
- Sente? Você mente, se casa comigo de conchavo com minha irmã pra me enganar, traz novamente a droga pra minha vida, e diz que sente muito?
- Foi um negócio. Não pra eu me envolver, entende?
- E se envolveu?
- Eu preciso sair. Você está me atrapalhando.
- Responde. Você se envolveu?
Eu precisava saber da verdade.
- Por favor, vamos facilitar as coisas. Meu advogado já está providenciando os papeis do divórcio. Logo, logo você estará livre de mim.
Mas eu não queria estar livre dele. Queria seu cheiro dentro de mim, sua pele, seu suor em minha boca. Queria senti-lo mais uma vez. E ao mesmo tempo, eu me odiava por desejar aquilo.
Sentei-me no sofá logo à frente e pus-me a chorar. Enfrentara uma viagem ao Rio, sozinha, sem a ajuda de ninguém. Viajei sem mesmo avisar para Dulce. O que nunca acontecia. Mas para mim, era uma questão honra. Movia-me com dificuldade, mas eu precisava estar ali, lutando pela verdade de minha vida, senão aquilo me mataria de vez.
- Olha, Celina, daqui a um tempo, você vai ver que foi melhor assim. Que eu realmente não era a pessoa certa pra você.
Podia não ser a certa, mas era a que meu coração escolhera.
- Como pôde, Augusto? Como pôde? Foram tantas mentiras. Fizemos tantos planos. Mentira, mentira e mais mentira!
- Nem tudo foi mentira. Tiveram coisas que eu realmente queria que acontecessem. Eu também sonhei. Mas não deu, pôxa. Eu caí na real.
- Então você hesitou em algum momento?
- Isso não importa mais. O que importa é que agora nós estamos aqui tendo nossa última conversa.
Aquilo me doeu como no dia em que o vi confabulando com minha irmã, planejando a cartada final.
- O que leva uma pessoa a fazer isso, Augusto?
Ele hesitou um pouco antes de responder.
- A vida não foi nada fácil para mim, Celina. Como disse, sou um diretor medíocre. Nunca seria um grande profissional. Não vou passar de um diretorzinho de merda. Enquanto isso outras pessoas conseguem o cargo, o dinheiro que eu preciso, que me deixaria feliz. Hoje, não tenho o cargo ideal. Mas tenho muito dinheiro. O suficiente para não precisar do cargo ideal, entende? Tudo o que eu fizer daqui pra frente, vai ser lucro, só.
- E isso é seu conceito de justiça?
- Talvez não só isso. Mas em parte sim. Por que muitos podem, tem e eu não? Isso não é justo.
- E pra mim, foi justo?
O vi engolir aquela pergunta no seco.
- Você já tem tudo, Celina.
- Não tenho você.
- Pois é. E eu não tenho e nunca terei o cargo ideal.
Ele não disse que também não tinha a mim. Para Augusto a vida se resumia no conforto proporcionado pelo dinheiro conseguido através de minha ruína.
- Eu poderia te dar muito mais.
Como tive coragem de propor aquilo?
- Aí é você que não merece isso.
Vi naquela resposta um cuidado, distante, mas o traço de seu envolvimento.
Com dificuldade, dei as costas, deixando para trás o que me trouxera tanta felicidade nos últimos anos. 
- Celina? – Ainda me chamou.
- Oi? – Voltei-me, na esperança que tivesse ocorrido um milagre.
- Eu me envolvi.
Vi um brilho em seu olhar, escondido rapidamente pelo desvio de cabeça. Voltei para casa, trazendo comigo uma dor profunda.
“Foi melhor assim.”

Ouvi aquilo de Tancredo, como a uma sentença. 



CAPÍTULO FINAL



A vida parecia querer me dizer algo. A imagem destruída de papai, o fim de meu casamento, após descobri-lo como uma estratégia de minha irmã para acabar comigo, por uma vingança sem sentido. Meu sofrimento, a não aceitação do abandono.
E por fim, o presente de Pedro Lucena, por meu aniversário, o qual não havia aberto devido os acontecimentos que se seguiram naquela festa infeliz.
Os três arcanjos. Miguel, Rafael e Gabriel. Eram imagens em cristal fino, de tamanho mediano. Os três anjos voltavam à minha vida. E logo naquele momento, final de dezembro de 2011. Desejei jogá-los fora, quebrá-los, vê-los em pedaços. Lembrei da casa, da casa dos anjos. Tão importante durante a minha infância. Fazendo-me experimentar a alegria nunca antes sentida. E de repente, aquelas imagens estavam de volta.
Tratei de devolver os cristais para sua caixa, guardando-os de mim, como se me protegesse ou “os” protegesse. Não sabia qual o significado daquilo. Mas me veio à intuição que logo conheceria. E junto com aquele sentimento, uma imagem forte de papai.
Leonardo Gondim construíra um império e tudo fizera para mantê-lo. Puros “interesses”! Viera do nada, de uma vida humilde e conquistara o poder. Tecera uma imagem de honestidade, coragem, força e transparência. Quando na verdade fora movido pela negação de todos os seus sentimentos, pelo medo de não conseguir mudar sua vida ou voltar a ser o que era, pela fraqueza de ceder a tudo o que lhe corrompia, pela mentira de si e dos outros.
A marca maior de Leonardo Gondim, meu pai, fora o poder!
Passei então a perceber como esta marca estava registrada em minha alma.  E a conheci bem cedo, ainda menina, brincando com uma casa, cujo poder de transformar o indesejado naquilo que eu queria, fazia-me sentir a felicidade nunca experimentado no mundo real. Fazia-me sentir como um deus, que faz e desfaz, detentor de toda a força, toda a soberania, toda a capacidade de definir a vida, de determinar o passo seguinte de cada um à minha volta. Era um mundo só meu, um universo paralelo, o qual me levava à felicidade tão sonhada.
E quantas pessoas não têm seu universo paralelo, de crianças até, muitas vezes, à vida adulta? E quão diversos eram esses universos! “A vida do meu melhor amigo...”. “A família que eu gostaria de ter...”. “Meu príncipe encantado...”. “Ganhando na loteria...”. “Minha vida como um filme...”. “Minha rede de televisão...”. “O mundo dos sonhos...”. E tantos outros universos paralelos, que se disfarçam tão bem, entorpecendo-nos e fazendo-nos desejar viver dentro deles, distantes do que é real. Universos que nos aguçam à criatividade, dando-nos a possibilidade da vida ou da morte.
A casa dos anjos era a chave para tal universo paralelo, tirando-me do mundo real, da realidade saudosa da companhia de papai, de não experimentar o convívio com uma família perfeita construída em minha mente.
Ao mesmo tempo que a casa dos anjos me instigava à criatividade, à infinidade de possibilidades de minha própria imaginação, à beleza de um mundo infinitamente encantador e diverso dentro de mim mesma, ela também me conduzia ao isolamento, ao egoísmo, à morte para o mundo real. Com a casa dos anjos eu vivia todo o meu poder. Ela era o meu objeto de poder, de conquista do que eu elegia como aquilo o qual me traria a felicidade.
Com a verdade sobre papai, passava a ver como as pessoas à minha volta também criavam seus objetos de poder, suas chaves para conquistarem o que julgavam ser o bem para si mesmas ou para os demais, como as pessoas criavam também suas casas dos anjos. E dentro de outros contextos, aquelas casas, objetos de poder, eram revestidos de desejos, de manipulações, de medos e pecados. Percebia como a maioria de nós operava com esses objetos. Fosse uma conta bancária, uma aliança, um carro novo, um vestido da moda, o sapato da vitrine, a diretoria da empresa, o emprego dos sonhos, o melhor curso, ser visto como herói, o segundo idioma, a frase certa, a última fala, a decisão, o final de semana no hotel famoso, o dia de ontem, a festa de amanhã, estar com meu ídolo, meu marido, meu filho, minha família, meu melhor amigo, meu grande amor. Os mais diversos e mais simples também. Mas estavam ali, fazendo parte de nosso dia-a-dia, e possibilitando-nos a experiência mínima que fosse do poder. Meras coisas banais, posições sociais e financeiras, lugares ou situações, pessoas que amávamos ou as mais inusitadas casas dos anjos. Embora não se tratassem propriamente de universos paralelos. E podiam até ser, mesmo que por segundos.
Com os passar dos anos, reformei a minha casa, conhecendo um novo caminho a um mundo imaginário, as drogas. Neste caminho, passei a maior parte de minha vida. Foram as drogas naquele momento a minha casa dos anjos, a chave para o meu poder, o meu objeto de poder, por muitos anos. Até o acidente me levar à uma nova casa, a minha condição de tetraplégica, escondendo-me das verdades de um mundo, cujas dores preferia evitar.
Passei a maioria dos anos de minha vida, infeliz, tentando constituir o que não estava em mim. Vivendo o apego a qualquer mínima situação que denotasse o que eu queria que fosse. Juntamente com este apego, o medo de não mais conseguir viver aquela experiência. Lamento o quanto fui infeliz e perdi tempo. As situações são apenas situações e são transitórias. Por isso, se a minha felicidade dependia daquele segundo, ela também seria passageira. Deste modo, lutava para viver aquilo novamente. Numa tentativa inútil de reviver o pouco que me deixava feliz. Sem compreender que cada situação tinha em si a sua magia, e nunca mais se repetiria. 
Diante de meu infortúnio, restava-me somente a fuga do real para algo imaginário, que me desse um mínimo de prazer e bem-estar. Onde eu estivesse protegida das pessoas, dos sentimentos ruins, da sensação de abandono e rejeição. Buscava um poder o qual me fizesse esquecer o quanto eu não era amada, por mim mesma até. Força esta encontrada nas drogas, nos diálogos nos quais eu me vitimizava, e bem depois, em meu exílio de movimentos e expressão, vivido após o acidente. E mais recentemente, a volta ao mundo das drogas.
Percebia claramente em minha vida, as armas do poder para sua própria manutenção. O medo, por não conhecer o passo seguinte, ameaçando a soberania da condição de conquista permanente; a culpa, por não atender ao externo e, deste modo, correr o risco de não ser aceita por ele; a manipulação para chegar aos meus objetivos, fazendo do mundo meu aliado, sem que este se dê conta, o que facilitará a conquista; a mentira, por negar a verdade em mim e preservar uma imagem para uma aceitação do mundo; a auto-imagem, para seduzir o mundo e nutrir sua conservação a qualquer custo; o controle, para garantir a situação desejada por mim, sem me preocupar com o outro, embora usando de discursos altruístas; a compulsão, transformando-me em obsessiva dependente, na esperança de preencher exacerbadamente meu vazio existencial. Armas estas, transformadas por mim, inconscientemente, em princípios de vida. Ironicamente, sem saber, princípios de negação da própria vida.
No último ano, voltei a um mundo macabro. Talvez o convite para um retorno, a uma viagem por mim mesma e meus maiores segredos, aqueles os quais passei a vida tentando fugir. Um retorno a minha alma.
Percebi o quanto estive distante de minha essência, por quase toda a minha vida. Que o poder havia me proporcionado esta distância, ao me deixar escravizar por ele. Jaz nesta percepção a minha maior e melhor obra!
E me vi, no final de 2011, após a tristeza que se abatera em nossa família, adentrando os portões da Fazenda da Esperança, em Guaratinguetá, no Estado de São Paulo, entidade mundial que trabalha com a recuperação de dependentes químicos.
Tancredo conhecia bem as fundadoras, mantendo estreitos laços com uma delas, por ter sido ele um recuperando, há muitos anos, na fazenda masculina.
- Tenho ainda muito medo de mim. O que me fez me perder, ainda está muito presente. Eu sinto. – Confessei a ele.
- A consciência é a sua melhor companhia. – Retrucou Tancredo imediatamente, com largo sorriso.
- E se eu não conseguir?
- Estarei aqui. Distante de você aprendi que não preciso temer perdê-la, que esse medo em si já me distanciava de você. Agora quero viver isso verdadeiramente.
- Até quando?
- Até quando nosso coração quiser.
Ele sorria, feliz, paciente. Como se já comemorasse a minha vitória.
- Sabe que não será fácil.
- Sim, eu sei. Esta vai ser uma conquista sua, dia após dia.
- Vou sentir sua falta.
- Eu também, muito! Vou contar cada segundo.
- Tancredo, quero que tome cuidado.
- Com o quê?
- Comigo. Eu estou ainda muito machucada por dentro. Sua amizade foi a coisa mais importante que me aconteceu nos últimos tempos. Não quero que sofra.
- Estou bem, Celina. – Ostentava grande sorriso, iluminado.
- Eu não estou preparada, você entende?
Era claro o amor daquele homem para comigo. E eu não poderia retribuir. Não naquele momento.
- Sim, entendo. – Alargava ainda mais o sorriso. – Como te disse, estarei aqui, o tempo que for preciso.
Referia-se Tancredo não mais à minha recuperação, mas à nossa relação. Ainda assim, uma alegria me tomou. Eu estava protegida.
Dei as costas, voltando-me para aquele novo cenário.
- Celina? – Chamou-me ainda mais uma vez.
E quando eu me voltei a ele:
- Bem vinda a um dos maiores presentes da existência. O retorno à nossa alma!  
Ele me iluminava com aquele sorriso, enchendo-me de esperanças. Era a força e a crença de quem havia também retornado.
E de longe o vi socar o ar, num gesto de vitória. Depois, entrar no carro e partir, até quando pudéssemos nos reencontrar novamente, num outro momento de minha vida.
E já em meu quarto, abri a mala, tirando de dentro o presente de Pedro Lucena. Miguel, Rafael e Gabriel, juntos, em unidade, fariam parte daquele momento, na mezinha ao lado de minha cama. Acompanhar-me-iam silenciosamente em minha jornada de volta para casa. Mas agora, numa nova perspectiva.
A casa dos anjos estaria no retorno, não mais seria a saída!
Orei diante dos anjos.
Depois, abri meu note book e acessei o arquivo de meu novo romance.
A Casa dos Anjos.

Celina Gondim
Fortaleza, 11 de fevereiro de 2012, 00h05.




E NA PRÓXIMA SEMANA



A Casa dos Anjos - Continuação: A História de Marina Pessoa.





Boa semana e uma ótima leitura!!!

Resenha por Andréia Regina Nogueira Cruz


Qual é a sua casa dos Anjos?
Essa pergunta aparece quase no fim do livro, mas te faz pensar muito...
O livro conta o drama de quatro mulheres que tem suas vidas, de certa forma, interligadas, apesar de uma e outra não se conhecerem.
Júlia é a personagem "central", que tem a filha de 1 ano desaparecida. Marina é uma mulher apaixonada e submissa. Celina, uma tetraplégica que não aceita sua condição e Clarinda, uma mulher que não se permite viver seu grande amor.
No começo foi meio difícil acompanhar as quatro histórias, porque quando voltava na personagem, eu tinha esquecido onde tinha parado, então voltava um pedacinho para acompanhar (eu tenho esse probleminha, eu esqueço as coisas muito rápido...). mas conforme as histórias vão se entrelaçando e você vai conhecendo-as melhor, você só quer saber mais e mais o que vai "rolar".
Basicamente, uma história de encontros, principalmente o de si mesmo. E vou te falar que fiquei com a maior vontade de conhecer um pouco mais sobre Biodança e praticá-la.
Quanto ao nome do livro, ele se deve a uma "casa" que Celina ganhou ainda na infância, onde guardava seus desejos, mas também...(leia o livro...rsrsrs...).
Eu acabei descobrindo, acho, a minha. Eu queria muito ler esse livro, mas acabei "enrolando", demorando a ler e acredito que acabei lendo-o na hora certa. Sabe quando você lê algo que parece ter sido escrito pra você? Pois é, eu me vi em determinados "sentimentos" e pela primeira vez, depois de muito tempo, resolvi exprimi-los e OMG, foi tão bom, me senti tão mais leve e feliz...
Então só posso dizer que gostei muito do livro...
Fica a dica...
Bjos!!!

Resenha por Jailson Batista


Quando eu comecei a ler o livro “A Casa dos Anjos” eu me deparei com o seguinte: 4 histórias sendo contadas por 4 narradoras diferentes. A princípio eu achei que isso atrapalharia a leitura e até mesmo o desenrolar da história. Porém o que aconteceu foi exatamente o contrario, na verdade ajudou. As historias se cruzam e é isso o que dá o algo mais a trama. A maneira que elas se encaixam é importante para entender melhor o enredo. Quando terminei de ler o livro e vim fazer a resenham relembrando fatos, me senti como se não fosse um livro que eu tivesse lido, mas sim uma novela que eu tivesse assistido. Original, essa é a palavra. Acredito que o Autor Antonio Rondinell quis mostrar os conflitos que temos, conflitos que nos mostra nossa verdadeira face. Lembro que li em algum lugar a frase: “A dor é suportável, exceto para quem a sente” e o livro mostra um pouco disso, um pouco de como lidamos com nossos sofrimentos. No aspecto físico dou destaque à capa, suave e encantadora, assim como a história.

Agradeço ao Autor Antonio Rondinell (Que mora aqui do lado :]) por ter cedido um exemplar do livro para resenha, espero que ele continue escrevendo (já estou sabendo de novos projetos :D) e nos agraciado com suas histórias.

Abraço e boa leitura.

Comentério do Leitor


A leitura de A Casa dos Anjos foi perfeita, o conteudo maravilhoso, me fez resgatar o habito que havia perdido. Estamos esperando ansiosamente pela segunda edição, deixou um gosto de quero mais. São historias que nos envolvem vivenciando as alegrias, tristezas e força de vontade de superar os problemas que surgem no decorrer de nossa caminhada como ser humano. Pra mim foi perfeito, e que venham logo as proximas ediçoes.

Vanessa - Leitora

Comentário do Leitor


"O livro é escrito com uma riqueza de detalhes que em muitos momentos me sentia sugada pelas cenas descritas. Era como se presenciasse aquele momento narrado, sentisse o que era dito pelas personagens. Ele envolve, seduz de uma forma tão sutil que quando você menos espera não consegue se separar querendo saber o desfecho da história. Vale a pena comprar e aceitar este convite a leitura."

Ticiana Otoch Moura - Psicóloga


Comentário do Leitor


Gostaria de parabenizá-lo pelo seu sucesso nacional. Li todo o livro e realmente é muito bom. Para quem tem sensibilidade, ao ler um livro como A Casa dos Anjos, descobre os valores de sua vida e da vida do próximo, avalia sua posição diante das dificuldades e porque não das facilidades, passando a valorizar a vida independente de sermos apreciados pelo outro. Descobri a importancia do ser, independente do ter. Nos convida a fazer uma reflexão dos nossos valores, atitudes e escolhas. Minha nota é 10. Parabens, um forte abraço.

Odília Gondim - Economista Doméstica e Educadora.



Comentário do Leitor


"A leitura de A casa dos anjos foi deveras prazerosa para mim, sobretudo pelas peculiaridades que me levaram ao livro: ter no escritor um amigo querido; a estória ambientada em Fortaleza; a narrativa de cada uma das quatro mulheres que me remetem a situações vividas em algum momento da vida. De fato, nunca levei a termo uma leitura de forma tão determinada como fiz com este livro, e o motivo era muito simples, a cada página que folheava sentia-me convidada, mais que isso, sentia-me instigada a continuar e continuar e continuar, e lia avidamente. No dia que conclui a leitura percebi que jamais havia lido um livro com tamanha empolgação e curiosidade que me acompanharam desde a primeira até a última página, foi uma experiência realmente fascinante e única para mim. Percebi também que, inexplicavelmente, sentia-me ligada aos personagens como se em algum lugar eles me aguardassem para continuarem suas vidas, como se eu fizesse parte da história deles ou quem sabe eles da minha... Já havia ouvido falar em “depressão pós livro”, mas só agora pude compreender do que se trata isso, não só porque chorei na leitura das últimas páginas, mas em especial pela enorme saudade que sinto de Júlia, Marina, Celina e Clarinda."

Norma Sampaio - Economista e Facilitadora de Grupos

Comentário do Leitor


"A Casa dos Anjos é um livro fascinante que nos instiga a mergulhar no universo de quatro mulheres, seus conflitos, sentimentos, numa busca que nos convida a refletir e a dialogar sobre felicidade, ética, valores, esperança, verdade, vida, amor. È um livro fantástico, emocionante que nos convida a ser,a sonhar e a viver quando sentimos a força, a dor, o vôo de liberdade, a doação, o amor de cada uma das personagens. Convido você a ler este livro e dialogar com cada uma destas mulheres."

Luciana Nogueira - Educadora / Licenciada em Letras


Comentário do Leitor


"Nunca tinha lido uma síntese da vida e do seu sentido, do nosso destino e das nossas possiblidades, permeado de cautela em relação aos nossos erros e acertos que podemos cometer nesse emaranhado que a vida e os nossos relacionamentos como A Casa dos Anjos. O livro tem passagens marcantes e tocantes. Júlia Serrado, Marina Pessoa, Celina Gondim e Clarinda de Holanda são mulheres que me habitam. Muitas vezes me sinto "tetraplégica", pelo medo de enfrentar a minha essência. Júlia Serrado me remete à Deusa grega Perséfone, ao ter sua filha sequestrada para o mundo avernal de Hades, o mundo do inconsciente e também da sombra, que muitas vezes me impedem de ver a luz. Perséfone é muito intuitiva e tem muita sabedoria, mas é preciso vigilância... Enfim, este livro é um convite a buscar a nossa essência, e vai além do Ter e Ser. Quem tiver oportunidade de ler, com certeza vai abrigar este espírito, a mente e o coração.
Obrigada, Rond."

Maria do Rozário de Oliveira - Psicóloga e Educadora.

 
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